sábado, 30 de abril de 2016

Emma Goldman e o Primeiro de Maio



"Cheguei a cidade de Nova York no dia 15 de agosto de 1889. Eu tinha vinte anos". Assim Emma Goldman, inicia a sua autobiografia "Vivendo minha vida" , lançada pela primeira vez no Brasil no ano passado pela editora L-dopa Publicações.

Nesse fantástico livro a famosa anarquista conta sua história de 50 anos de militancia anarquista, que só terá fim com sua morte em 1940.

A biografia começa com Emma relatando  os seus  primeiros dias em Nova York. Com apenas 20 anos, a jovem que chegava da Lituania tinha seu primeiro  contato com o anarquismo  ao participar de uma palestra sobre a condenação à forca  de 5 ativistas ácratas. Eram os Mártires de Chicago, que lutavam pelas 8 horas semanais de trabalho. Esse fato dará origem ao 1 de Maio como o Dia do Trabalhador:



"Em certo domingo anunciaram  que uma oradora socialista famosa de Nova York, Johanna Greie, iria palestrar sobre o caso sendo julgado em Chicago. Na data marcada eu era a primeira no Salão(...) Logo o dirigente da sessão anunciou a oradora. Era uma mulher nos seus trinta anos, pálida e de expressão ascética, com grandes olhos luminosos. Ela falou com grande força, numa voz que vibrava com intensidade. Seus modos me venceram. Esqueci a polícia, a audiência e tudo o mais a meu respeito. Tinha a consciência apenas da frágil mulher de preto anunciando apaixonadamente as forças que estavam prestes a destruir oito vidas humanas.

A fala inteira  concernia os eventos comoventes em Chicago. Ela começou relatando o pano de fundo histórico do caso. Falou das greves trabalhistas que ocorreram por todo o país em 1886 exigindo uma carga horária  de oito horas. O centro do movimento era Chicago, e lá o conflito entre os operários e seus patrões tinha se tornado mais intenso e mais amargo. Um encontro dos empregados grevistas da companhia McCormick Harvester na cidade foi atacada pela polícia: homens e mulheres foram espancados, e diversas pessoas mortas. Para protestar contra isso um encontro de massa foi marcado na praça de Haymarket em 4 de maio. Foi conduzido por Albert Parsons, August Spies, Adolph Fischer e outros, e foi calmo e ordeiro.  Isso foi atestado por Carter Harrison, prefeito de Chicago, que havia se juntado ao encontro para ver o que estava acontecendo. O prefeito então saiu, satisfeito que tudo estava bem, e informou o Capitão do Distrito disso. O dia estava nublado, e uma leve garoa começava a cair; as pessoas se dispersavam, algumas poucas permaneciam enquanto o último dos oradores se dirigia à audiência. Foi então que o capitão Ward, acompanhado de uma grande força policial, subitamente apareceu na praça. Ele exigiu que a reunião se dispersasse naquele instante. "Esta é uma reunião ordeira", o dirigente replicou, no que a polícia caiu sobre as pessoas, espancando-as sem pena. Nisso, algo brilhou no céu e explodiu, matando um número de oficiais de polícia e ferindo mais outros. Nunca se descobriu quem foi o verdadeiro responsável, e as autoridades pouco fizeram para isso. Ao invés disso foi imediatamente ordenada a prisão de todos os oradores em Haymarket e outros anarquistas proeminentes. Toda a imprensa e a burguesia de Chicago, bem como todo o país exigiu o sangue dos prisioneiros. Uma verdadeira campanha de terror foi criada pela polícia, que recebeu apoio moral e financeiro da Associação dos Cidadãos para  prosseguir com seu plano de eliminar anarquistas. A opinião pública estava tão inflamada pelas histórias atrozes circuladas pela imprensa que, para os líderes da greve, a chance de um julgamento justo se tornou mínima. Na verdade, o julgamento se provou a pior trama para culpar inocentes da história dos Estados Unidos. O jurí foi escolhido para condenação; o promotor público anunciou abertamente que não apenas os homens presos estavam sob acusação mas que "o anarquismo estava em julgamento" e que ele deveria ser exterminado. As testemunhas foram aterrorizadas ou subornadas, com o resultado que oito homens, inocentes de um crime com o qual não tinham ligação nenhuma, foram condenados. A opiniãopública, incitada e o preconceito geral contra os anarquistas, junto à amarga oposição dos empregadores à jornada de oito horas constituíram a atmosfera que favorecia o assassinato jurídico dos anarquistas de Chicago. Cinco deles - Albert Parsons, August Spies, Louis Lingg, Adolph Fischer, e George Engel - foram sentenciados à morte por enforcamento; Michael Schwab e Samuel Fieden foram condenados à prisão perpétua; Neebe recebeu quinze anos. O sangue inocente dos mártires de Haymarket exigia vingança" . ( Emma Goldman In "Vivendo minha vida" , 2015, p. 8 -9 ) 


Em tempos de sindicatos que fazem do 1 de Maio meros  atos  em defesa de governos a memória histórica das origens desse marco da luta dos trabalhadores torna-se cada vez mais significativa .


Documentário sobre a vida de Emma Goldman ( Legendas em espanhol)


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terça-feira, 26 de abril de 2016

José Pacheco resgata história do educador anarquista Alessandro Cerchiai


José Pacheco, educador português, um dos fundadores da Escola da Ponte, atualmente vive em São Paulo onde coordena projetos de educação



No último livro do Educador Português José Pacheco, "Aprender em Comunidade", lançado em 2014, o autor resgata a história de um importante educador anarquista, Alessandro Cerchiai, fundador da escola Germinal em São Paulo em 1902. 

O livro apresenta uma série de educadores dos quais José Pacheco escreve cartas que servem para dialogar com suas ideias e ao mesmo tempo apresentar suas breves biografias. Na apresentação que fez para o livro, Celso Vasconcellos destaca: 

'Nesta obra, o prof. José Pacheco volta a empregar o gênero textual epistolar de Para Alice, com amor. Só que, ao contrário de lá, em que se dirigia exclusivamente, e de maneira emocionante, à netinha, preparando-a para a entrada na escola, aqui são muitos os destinatários e com grande variedade de características, tanto em termos de tempo (do séc. XVI ao XXI), de espaço (atividades nos mais diversos estados brasileiros, e alguns também no exterior), de profissão (educadores, em sua maioria, mas também sociólogos, antropólogos, padres, líderes comunitários, poetas, músicos, jornalistas, juristas, médicos, etc.). Todavia, todos com uma peculiar contribuição para a construção do Aprender em comunidade, garimpada com muito rigor, precisão e paixão pelo autor. Um aspecto formal do livro que cabe destacar é que, além, propriamente, das cartas, o prof. José Pacheco nos presenteia com um relevante complemento: biografia e bibliografia (incluindo obras do destinatário, obras sobre ele e páginas da internet). Esse complemento difere um pouco do gênero textual carta, mas é de grande ajuda (até porque, devo confessar, algumas das pessoas a quem se dirige eram desconhecidas para mim também…) 

O que nos chama atenção nesta apresentação é o reconhecimento por parte do autor de que “algumas das pessoas a quem se dirige eram desconhecidas para mim…” ;

Quem está escrevendo isso é ninguém menos que Celso Vasconcellos referência da pedagogia brasileira. É um reflexo do que já falamos nesse blog a respeito daquilo que José Pacheco com propriedade chama de “pacto de silêncio” sobre a história da Educação anarquista no Brasil. Ha no Brasil ainda um enorme desconhecimento sobre essa história.



No capítulo 20 da obra, José Pacheco resgata a história do educador anarquista Alessandro Cerchiai

O livro na íntegra está disponível em PDF nesse site:

http://www.edicoessm.com.br/catolicas/assets/af_aprender-em-comunidade_miolo2.pdf

Postamos aqui o capítulo(carta) 20 do livro de José Pacheco que é dedicado ao anarquista Alessandro Cerchiai, fundador da Escola Libertária Germinal em São Paulo no ano de 1902. 



São Paulo, abril de 2013.

Amigo, Alessandro,


Amigo Alessandro, Mais de um século não foi tempo suficiente para dar corpo aos teus ideais, que eram os de Zola(1) , de Louise Michel(2), os princípios de Francisco Ferrer(3) . Crê, caro Alessandro, que, nesta segunda década do século XXI, o teu mestre catalão já não acabaria vilmente executado no morro de Montjuic, mas talvez os seus desígnios fossem frustrados por sutis modos de impedir que a humanização da escola aconteça. 

A Escola Libertária Germinal, que fundaste em 1902, na cidade de São Paulo, pouco mais durou do que a de Tolstói(4), que o czar da Rússia mandou fechar. O sonho de uma escola elementar racionalista, para ambos os sexos, ingloriamente foi encerrada em 1904. Apesar de veres malogrado o teu intento, foste o precursor dos precursores da Escola Nova. Mas, hoje, apenas emprestas o teu nome a uma rua de São Paulo, cujos moradores nem sequer sabem quem foste, ou o que fizeste.

Depois de um breve inquérito de rua, apenas um transeunte ensaiou resposta: “Alessandro? Isso é nome de jogador de futebol, não é?”. 

Na Germinal de 1902, os pais não apenas participavam com uma pequena mensalidade como intervinham na arrecadação de fundos e, de algum modo, na gestão do projeto. Decorrido mais de um século, os teóricos continuam a produzir teses sobre a relação escola-família, mas as famílias continuam marginais à vida nas escolas e são frágeis as estruturas de participação. 

Em novembro de 1904, lançavas um derradeiro apelo nas páginas do jornal O Amigo do Povo(5): “Pensai no futuro de vossos filhos!”. E reafirmavas as virtudes dos métodos aplicados na tua escola. Ao que parece, a população do Bom Retiro não se preocupava com a educação dos seus filhos… Nem parece que se importa, quando, no século XXI, os submete à nefasta influência de práticas sociais denunciadas ao longo de um século pródigo em práticas alternativas. 

Amigo Alessandro, existe um pacto de silêncio em torno de iniciativas como o Círculo Educativo Libertário Germinal, de São Paulo, a Universidade Popular de Ensino Livre, do Rio de Janeiro, as Escolas Modernas de São Paulo e de Bauru, todas da primeira década do século XX. Quem ouviu falar da Escola Germinal, do Ceará, da Escola Social, de Campinas, da Escola Operária, de Vila Isabel, e da Escola Moderna, de Petrópolis? As faculdades de educação não informam aos futuros professores de Porto Alegre que, em 1906, havia por lá uma escola com o nome de Elisée Reclus(6)… 

Eu sei que te custará compreender, mas, no Brasil de 2014, as escolas ostentam designações com referência a coronéis, genocidas, ditadores e torcionários. Uma professora deteve-se em frente à sua nova escola. O que a impedia de entrar? A blindagem do portão? A catraca? O carrancudo guarda? Não. Aquilo que a fez parar foi a leitura da placa, que indicava o nome da escola: o nome de quem havia torturado e ajudado a matar o seu pai, durante a ditadura. Querido Alessandro, ainda vivemos num país onde escolas celebram a morte da memória, onde pesam a herança neocolonialista e outros males sociais, perpetuados pela velha escola, reprodutora de desigualdades, analfabetismos, exclusão. 

Tal como o país, a escola está imersa numa profunda crise ética e moral, a serviço da reprodução de uma sociedade doente. Sei que será difícil acreditar, mas crê que eu li num muro de uma cidade brasileira este dístico: Colégio D. – a seleção natural. Não restam dúvidas de que, 110 anos decorridos sobre a tua tentativa de humanizar a escola, nos mantemos na proto-história da escola. E da humanidade.

NOTAS

1 Émile Zola (1840-1902) foi um escritor francês da escola naturalista, autor de Germinal (1885), romance que retrata a vida de mineiros no século XIX. 

2 A francesa Louise Michel (1830- -1905), também conhecida como Enjolras, foi professora e escritora anarquista, participou da Comuna de Paris (1871), primeira experiência revolucionária de influência anarquista da história. 

3 Francisco Ferrer (1859-1909) foi um pensador anarquista e pedagogo, criador da Escola Moderna, um projeto de educação libertária. Foi executado pelo governo espanhol, acusado de ser um dos líderes de um movimento conhecido como Semana Trágica, em Barcelona, no ano de 1909. 

4 Liev Nikolayevich Tolstói (1828- -1910), autor de Guerra e paz (1869), foi um escritor russo de grande sucesso. Também adepto do anarquismo e preocupado com a precariedade da educação no meio rural de seu país, Tolstói criou, em Yasnaya Polyana, uma escola para os filhos de camponeses. Ele mesmo produziu parte do material didático e, procurando caminhos diferentes da pedagogia da época, propunha uma educação libertária, da qual os alunos pudessem participar ativamente. 

5 Trata-se de um periódico anarquista publicado em São Paulo a partir de 1902. Comandado por diversos imigrantes anarquistas – Neno Vasco, Benjamim Mota, Ricardo Gonçalves, Oreste Ristori, Giulio Sorelli, Tobia Boni, Angelo Bandoni, Gigi Damiani e Alessandro Cerchiai –, teve forte influência no movimento operário brasileiro durante a Primeira República. 

6 Trata-se de escolas criadas por anarquistas na Primeira República. Sobre elas, podem-se encontrar informações em JOMINI, Regina Celia Mazoni. Uma educação para a solidariedade: contribuição ao estudo das concepções e realizações educacionais dos anarquistas na República Velha. Campinas: Pontes, 1990.


Quem foi Alessandro Cerchiai ?


As informações sobre a vida de Alessandro Cerchiai são bastante escassas. Sabemos que nasceu em Pescia, na Itália, em 1877. Viveu na França entre 1884 e 1896, quando tomou contato com ideias anarquistas. Voltou para a Itália e lutou na Guerra Greco-Turca, em 1897, que se referia à disputa entre Grécia e Império Otomano pelo controle da ilha de Creta. 

De volta à Itália, Cerchiai se envolveu no movimento anarquista que tumultuou Milão, em 1898. Por conta dessa participação, foi detido e condenado a dois anos de prisão. Ao deixar o cárcere, Alessandro emigrou para o Brasil, onde se juntou aos imigrantes anarquistas dos bairros operários de São Paulo. 

Entre 1902 e 1904 se dedicou à Escola Libertária Germinal, que, aparentemente, encerrou as suas atividades por falta de recursos. Em 1903, fundou, com o também imigrante italiano Gigi Damiani, o jornal La Barricata. Colaborava escrevendo também para O Amigo do Povo e La Battaglia. Todos, evidentemente, jornais anarquistas que circulavam pelos bairros operários, principalmente na cidade de São Paulo. 

Ao que parece, entre 1914 e 1916, deixou a capital paulista e foi viver em Bauru, onde teria lecionado numa escola de caráter anarquista. Nesse local, ensinava sobre a ideia de solidariedade anarquista e pretendia incutir nos estudantes a relação entre liberdade e responsabilidade. 

Depois da Primeira Guerra Mundial (1914-18), Cerchiai colaborou em jornais antifascistas da Itália e do Brasil, liderando alguns deles, como La Difesa e Il Risorgimento. Até o fim de sua vida, manteve a militância anarquista e a defesa de uma educação libertária. Alessandro Cerchiai morreu em São Paulo, no mês de outubro de 1935.




La Battaglia, 1909, ano VI, n. 225. Jornal anarquista, editado por Alessandro Cerchiai, que circulava pelos bairros operários, principalmente na cidade de São Paulo.






sexta-feira, 22 de abril de 2016

A origem da anarquia antes do anarquismo, por Ulises Verbenas*



O primeiro anarquista? Prometeu, o rebelde que rouba o fogo de Zeus para entregar aos seres humanos


O velho ácrata Enrique Arenas fez a seguinte reflexão: “É possível ser rebelde e não anarquista; mas não se pode ser anarquista sem ser rebelde; a partir daí que afirmamos que a rebeldia não é anarquismo”. Um silogismo muito certo que se refere a uma característica essencial da Ideia anarquista e que, no momento de pensar naquelas figuras que antecederam a forma moderna do anarquismo, nos permite compreender as formas e princípios que impulsionaram quem, nos dias de hoje, poderíamos considerar como anarquistas antes do anarquismo.

É, justamente, Max Nettlau quem faz essa reflexão acerca da relação que existe entre a rebelião e a Anarquia nos tempos pré-históricos, assinalando que na mitologia podemos encontrar a memória das rebeliões:

“São os Titãs que assaltam o Olimpo; Prometeu desafiando Zeus, as forças sombrias que na mitologia nórdica provocam o crepúsculo dos deuses, é o diabo que na mitologia cristã não cede nunca e luta a toda hora e em cada individuo contra o bom Deus, esse Lúcifer rebelde que Bakunin respeitava tanto, e muitos outros”.

Nesse sentido, cabe perguntar: Qual era o conteúdo das rebeliões a que se refere Nettlau? Se trata de rebeliões originárias, mitológicas, que poderíamos situar nas antípodas da origem da humanidade e que, portanto, põe em dúvida sua própria condição e se enfrentam a criação como tal. Já o assinalou Albert Camus em sua obra “ O Homem Revoltado”: “(…) não posso duvidar do meu grito e tenho que acreditar, ao menos, no meu protesto”. Os caminhos que posteriormente tome a rebelião, enquanto movimento mesmo da vida, colocarão em tensão a possibilidade da destruição dos outros, ou bem sua capacidade de levantar um ser, como gesto de amor e fecundidade. Não obstante, como o homem é aquele ser que se nega a si mesmo, é capaz de esquecer suas generosas origens, e fazer da rebelião uma máquina mortífera em nome do poder e da história.

Refletir sobre a Anarquia antes do anarquismo supõe, então, pensar na origem generosa da rebelião. Daí que nos interessa os argumentos de Max Nettlau e, particularmente, a historia do titã Prometeu, memória de uma obstinada rebeldia, o relato de um desobediente amor pelos seres humanos.

Prometeu era primo de Zeus: o primeiro era filho do titã Japeto, enquanto que o segundo foi de Cronos. Como todo mito, a historia de Prometeu tem diversas versões. Por exemplo, conforme é apontada na Teogonia de Hesíodo, escrita entre os Séculos VII e VIII a.C., Prometeu nasceu de Japeto e Clímene, uma bela Oceanide. Enquanto que algumas versões relatam que Prometeu criou os homens moldando-os com argila, na versão de Hesíodo é, simplesmente, o bem feitor da humanidade, o titã filantropo. Certamente, este último é sua característica principal e é o que podemos encontrar nas suas diversas historias e versões, ademais de seu carácter manhoso e astuto.

A historia que nos referiremos na sequencia é, sem dúvida, a mais conhecida de todas. Tem como referencia variados autores gregos e latinos, como Ésquilo, Aristófanes, Luciano de Samosata, Virgilio e Ovidio, e outros mais modernos, como Percy Shelley e Nikos Kazantzakis.

Tudo começa em Mecona, durante uma celebração que termina com a separação entre deuses e homens. Ali, Prometeu ofereceu um boi dividido em duas partes: em um lado coloca a carne coberta pelo ventre do boi, e noutro os ossos dissimulados sob brilhante gordura branca. Oferece a Zeus sua parte, para que o resto fique para os homens. Zeus escolhe a brilhante gordura, sem perceber que no fundo eram somente ossos. Encolerizado, castiga os homens, beneficiados da astucia prometeica, tirando-lhes o fogo. É então quando, segundo a descrição de Esquilo em sua tragédia “Prometeu Acorrentado”, os homens, sem fogo, se assemelham a fantasmas de um sonho, com a vida entregue ao azar. Prometeu, em seu amor pela humanidade, rouba o fogo da “roda do Sol” dos deuses e corre para entregá-lo aos homens, para que fizessem o uso do fogo em beneficio deles.

A conotação deste fato é dupla: por um lado, o ato de rebeldia de Prometeu, e, por outro lado, o significado do fogo. No que diz respeito ao primeiro, ha que assinalar que Prometeu é duramente castigado por Zeus, quem o amarra a uma roca no alto do Cáucaso e o deixando abandonado, e lhe envia uma ave de amplas asas, que devora seu imortal fígado durante o dia, sendo que o mesmo cresce pelas noites nas mesmas proporções devoradas. Em que pese a tudo isso, e ainda quando se oferece sua libertação se diz como será a caída de Zeus (Prometeu tinha a faculdade de ver o futuro), Prometeu se mantém obstinado: “não mudaria meu sofrimento por teu servilismo”, diz na tragédia de Esquilo, ou “sabes bem que aborreço os deuses todos”, segundo Aristófanes escreve em sua comedia “Os Pássaros”. Daí podemos vislumbrar a segunda conotação do mito: o valor de seu ato, e as razões pelas quais Prometeu crê nele, é que o fogo não só é um elemento transformador, o motor da sofisticação da técnica, senão também é a arte. De fato, a palavra grega “téchne” se traduz como “arte”, “ciência” ou “profissão”, quer dizer, arte e técnica habitam juntas e, mais ainda, elas supõe a essência do homem: para deixar de viver como fantasmas de um sonho, necessitamos da arte.




Dessa forma, a rebeldia de Prometeu lhe deu ao homem uma faculdade única: a criação artística. Se os deuses não sofrem, eles não podem conhecer a criação artística. A rebeldia frente os deuses, portanto, é maior ainda: se encontrou aquilo que os deuses precisam. Uma tardia versão de Prometeu, de Luciano de Samosata (siglo II d.C.), versa: “Me parecia que algo lhe faltava a divindade no entanto não havia nada que opor-se”.

Uma mitologia em que podemos ver a luz fogosa das ideias anarquistas. Camus anotou em seu ensaio “Prometeu nos infernos”: “Os mitos não tem vida por si mesmos. Aguardam a que nós os encarnemos”. Este mito contém um saber intacto, pode ser uma possível ressurreição. Porque é certo, diz Camus, que se Prometeu voltasse a roubar o fogo seriam os mesmos homens quem o acorrentariam ao Cáucaso, pois eles não desejam mais a arte. Só necessitam a técnica.

A nós restaria perguntar: Se encarnamos o mito, a quem devemos roubar o fogo?, desde onde devemos extraí-lo?, pode a técnica supor uma arte, e vice-versa?, reorganizar os oficios, como diria Proudhon? Recordemos, ainda nessa avançada, mas contraditoriamente salvagem civilização: Ainda tudo está por ser feito, que será necessário voltar a pensar no fogo.


*Tradução: Paulo Marques

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Entrevista sobre a 1 Jornada de Educação Libertária de Pelotas: A Educação de Anarquistas



Entre os dias 17 e 20 de maio próximo,  o Grupo de Pesquisa Educação Libertária & Anarquista-GPEL&A da UFPel realizará a 1 Jornada de Educação Libertária de Pelotas- A Educação de Anarquistas. 

O evento que contará com convidados, apresentação de trabalhos, oficinas, shows, mesas redondas, painéis será realizado na Faculdade de Educação da Ufpel e nos dois espaços de vivências autogestionárias da cidade, a Okupa 171, e a OCA. Para falar um pouco sobre essa atividade o Blog entrevistou o prof. Paulo Marques, Coordenador do Grupo de Pesquisa e um dos organizadores da Jornada. 



De onde nasceu a ideia da 1 Jornada de Educação Libertária- a Educação de Anarquistas.

Estamos trabalhando com a temática da Educação Libertária na Faculdade de Educação desde 2014; Eu como professor e os estudantes de diferentes cursos que se interessaram pelo tema, principalmente a partir da Disciplina de Fundamentos Sócio-Histórico Filosófico da Educaçao que ministro nos cursos de licenciatura, na qual estudamos às ideias e filosofias da Educação entre elas as chamadas pedagogias antiautoritárias ou Libertárias, resolvemos criar o Grupo de Estudos sobre Educação Libertária. O objetivo do grupo foi aprofundar o estudo das ideias, autores, pensamentos, história dessa proposta educacional. Como a ideia foi não só estudar a educação libertária mas realizar ao mesmo tempo um exercício de educação libertária nada melhor do que realizar em espaços de vivência baseados na autogestão. Assim optamos por fazer os encontros na Okupa 171, que é um espaço de vivência autonoma e autogestionária existente em Pelotas à seis anos e onde vivem estudantes que estão no Grupo de Estudos. A ideia foi ótima, pois esse espaço com suas atividades culturais, a Biblioteca José Saúl que funciona dentro da Okupa,  constituem a expressão concreta e prática  do que compreendemos como Educação Libertária. Realizamos no anos passado 2 ciclos de Filmes, que denominamos "Educação e(M) Liberdade". Percebemos também a necessidade de criar uma disciplina optativa sobre Educação Libertária em face da quase total ausência da contribuição do pensamento libertário para a educação nos programas das disciplinas de pedagogia. Assim criei essa optativa  no Semestre passado, sendo oferecida para estudantes de todas os cursos, também abrimos para pessoas que sequer estavam matriculadas na Faculdade e participaram como alunos ouvintes. Foi uma experiência fantástica que continuaremos nesse ano no segundo semestre. Também desde o ano passado criamos um Grupo de Pesquisa sobre o tema que está realizando a pesquisa: "Memória, teoria e prática da Educação Libertária no Rio Grande do Sul", exatamente com a ideia de resgatar a memória dessa proposta educacional que ainda permanece desconhecida na acadêmia e estudar as experiências existentes hoje, sejam elas no campo teórico como prático. Não poderia deixar de mencionar que o modelo da nossa Jornada teve como base a Jornada de Pedagogia Libertária realizada pelos companheiros da Difusão Libertária, de Recife, que também reúne estudantes e professores da Universidade Federal de Pernambuco. A Jornada deles já irá esse ano para a quart edição e é um grande sucesso a cada ano. 


Por que o tema escolhido foi “A educação de anarquistas”. Existem Educação Libertária não anarquista?


Esse é um tema fundamental dos estudos sobre a Educação Libertária. Afinal o que é essa educação?, quem propõe?, quem fez?, quem faz ela?, se é que alguém a faz. Essa discussão  que motivou a ideia da Jornada e do tema. O conceito de Libertário, tanto na Europa como na América Latina sempre foi sinônimo de anarquista. A exceção é os EUA. A própria ideia e o conceito de Educação Libertária foi uma invenção dos anarquistas já no século XIX nos textos de Proudhon, Bakunin, Elisé Reclus, e posteriormente na prática de Paul Robin, um dos primeiros pedagogos anarquistas da história,; Sébastien Faure e Francisco Ferrer. Então Educação Libertária foi o nome dado pelos anarquistas a sua proposta educacional. Por isso a vinculação é profunda. Mas ao longo da história podemos ver que a discussão de uma educação livre, autogestionária, antiautoritária que são as premissas da Educação dos anarquistas não ficaram restritas a eles. Assim podemos dizer que se todo anarquista é libertário,  nem todos os libertários são anarquistas. Na Educação temos exemplos de educadores como Ivan Illich, Alexandre Neill e até de certa maneira Freinet que elaboraram ideias educacionais libertárias, no qual a liberdade e anti-autoritarismo estão no centro de suas proposições pedagógicas. Podemos agregar ainda os filósofos da chamada Filosofia da Diferença como Deleuze, Foucault inspirados em outro libertário não anarquista que é Nietzsche que tem uma enorme contribuição teórica para pensar a educação desde uma perspectiva libertária.

Bem, não é desses autores especificamente que a Jornada tratará. Mas isso não significa que não fará um diálogo com eles. Optamos por dar uma ênfase àqueles que se auto-identificaram com o pensamento político filosófico do anarquismo no campo da educação a partir do final do século XIX , século XX e atualmente e que exatamente por serem anarquistas foram historicamente perseguidos e marginalizados pelos poderes dominantes. Esses educadores anarquistas tem uma bela história não contada ainda, de construção da Educação Popular no Brasil durante a Primeira República. Foram eles que assumiram o desafio de educar os filhos dos operários e se auto-educar de forma autogestionária, sem qualquer tutela seja do Estado seja do Mercado ou da Igreja. Faziam dos seus sindicatos espaços para a educação, assim como seus jornais e revistas. Também construiram as próprias escolas. Uma história que precisa ser resgatada por sua importância.


Dentro dessa temática quais os pontos que serão abordados na Jornada.

A Jornada como eu falei é uma atividade do Grupo de Pesquisa e como tal é parte dos objetivos dessa Pesquisa, ou seja resgatar a memória daqueles e daquelas que na história ousaram criar uma proposta educacional de caráter libertário dentro do sistema autoritário que é o Estado-Nação. Os principais protagonistas dessa tarefa foram os anarquistas. 

Nesse sentido propomos quatro eixos temáticos para a Jornada: O primeiro é o eixo temático da História, onde queremos discutir o que foi feito em relação à teoria e a prática,  como e porque a historiografia oficial da Educação marginalizou a contribuição dos anarquistas para a educação, sendo eles pioneiros de muitas propostas pedagógicas que somente muito tempo depois será assimilada pelas demais correntes modernas da educação. O segundo eixo será o de Biografias, ou seja, estudos de histórias de vidas de educadores e educadoras anarquistas que durante os séculos XIX e XX realizaram experiências práticas de Educação Libertária. Muitos foram esquecidos e graças a pesquisas autodidatas, que é uma caracteristica da própria educação libertária, foi possível preservar materiais para futuras pesquisas hoje. O Terceiro eixo será voltado para as pesquisas atuais nas mais diversas áreas do conhecimento que se baseiam nos pressupostos libertários, seja a história, geografia, ciência e também temas interrelacionados como movimento social e questões de gênero. Hoje vemos um importante crescimento das pesquisas de gênero em perspectiva libertária como por exemplo as contribuições de Judith Butler e a teoria “Queer”. E o quarto eixo será sobre experiências atuais de Educação Libertária. Nesse ponto pretendemos discutir as ideias de pós escolarização, educação nômade, educação em espaços autogestionários e de vivências libertárias como nas Okupas e Bibliotecas Libertárias. Encerraremos a Jornada com uma Mesa de Experiências, reunindo diversas iniciativas existentes. 


Poderia nos adiantar quem são os convidados já confirmados?


Já confirmamos a presença do professor doutor Rodrigo Rosa da Silva da USP que é também um dos coordenadores da Editora Biblioteca Terra Livre de São Paulo que hoje é uma referência nacional em publicação de obras sobre o pensamento anarquista e libertário. Graças ao trabalho deles temos a primeira edição brasileira do livro “Escola Moderna” de Francisco Ferrer, escrita em 1909 e nunca editada no Brasil. Assim como o livro “A Colmeia” uma proposta pedagógica, de Sébastien Faure, lançada no final do ano passado. Uma edição que tivemos a satisfação de ajudar a fazer,  realizando a correção da edição brasileira de 1919. A Editora que nasceu como Biblioteca é um dos mais expressivas experiências de Educação Libertária da atualidade. Rodrigo fará o painel de abertura que abordará as experiências históricas de Educação Libertária e também participará do lançamento do Livro “A Colmeia” , ambas atividades estão marcadas para 17 de maio, as 19 no Auditória da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Ufpel. 



Livro "A Colmeia. Uma experiência Pedagógica, de Sebastién Faure editado pela Biblioteca terra Livre será lançado na abertura da Jornada, dia 17 de maio, as 19h no Auditório da FAURB.


Outro nome que nos orgulhará muito de sua presença será do jornalista e pesquisador autodidata João Batista Marçal que fará uma painel sobre pesquisa autodidata e história do anarquismo no Rio Grande do Sul. Marçal é  um nome de grande reconhecimento por ser o único pesquisador a publicar obras que resgatam a história dos anarquistas gaúchos. Foi graças aos livros “As primeiras Lutas Operárias no Rio Grande do Sul” de 1985 , “Anarquistas do Rio Grande do Sul” de 1992 e o “Dicionário da Esquerda Gaúcha” de 2008 que hoje é possível conhecermos a memória de muitos ativistas e educadores anarquistas do nosso Estado. 


Obra pioneira  de Marçal sobre ativistas  anarquista do Rio Grande do Sul, entre eles educadores libertários




Também contaremos com a participação do pesquisador Guilherme Schroder, que vem realizando pesquisas sobre desescolarização e educação pós-escolarizada, um tema significativo para a reflexão sobre as perspectivas atuais de uma Educação em perspectiva libertária.

Estamos ainda para confirmar a presença dos compas de recife da Difusão Libertária. 


E quanto aos locais? Onde serão as atividades?

Conforme falei a nossa ideia não é apenas estudar a Educação Libertária, mas de alguma forma buscar exercitá-la, o que é mais dificil com certeza, dado ao grau de institucionalização em que vivemos. Por isso optamos por realizar uma parte da Jornada nos espaços libertários de Pelotas, especialmente a OKUPA 171, e a OCA. Nada melhor para exercitar práticas libertárias do que espaços de vivência autogestionária. Por si só será um aprendizado conviver e conhecer formas de vida baseadas na autogestão, apoio mútuo e cooperação.
Também estamos organizando um show de encerramento que será na rua em frente a OKUPA na noite de sexta-feira, dia 20. 

Biblioteca José Saúl da Okupa 171. Seis anos de vivencia e atividades culturais libertárias na cidade de Pelotas.





OCA- Ocupação Coletiva de ArteirXs, completou seu primeiro aniversário no ano passado. Espaço libertário de arte, cultura e vida autogestionária.



Quais as expectativas para a Jornada no que diz respeito a público e objetivos?



Estamos com ótimas expectativas. A recepção da Jornada na página do Face assim como nas inscrições prévias e envio de resumos no site que criamos, superou nossas expectativas A interação com pessoas interessadas tem sido constante e isso nos deixa muito animado. Isso mostra que essa temática é bem mais interessante do que se imagina na academia, que tem pouquíssimos espaços ainda para os interessados nessa temática. 

Sobre os objetivos, como falei anteriormente, a Jornada é uma atividade do grupo de pesquisa, está direcionada para a pesquisa sobre Educação Libertária, só que de uma forma colaborativa, exercendo o que os anarquistas chamam de “Apoio Mútuo” para construir contato e relações com quem está realizando pesquisa nessa área ou quem quer vir a realizar. Por isso um dos objetivos é conhecer as pessoas, suas pesquisas, seus temas, e a partir daí estreitar relações para que possamos nos ajudar com reciprocidade. 

Será uma Jornada mais acadêmica?

É acadêmica no sentido que é direcionada para quem está fazendo pesquisa na academia, mas não só. Além de conhecer as pesquisas em andamento e os pesquisadores, o mais significativo será trocar ideias com  aqueles e aquelas que realizam na prática uma Educação Libertária, que muitas vezes não é identificada como educação nem mesmo por eles próprios. Isso é compreensível na medida em que sabemos que a educação ocidental moderna monopolizada pelo Estado só tem um único modelo, que é o modelo escolar. Qualquer experiência fora desse modelo é deslegitimado pelo Estado e também pela própria sociedade e suas instituições como a Universidade por exemplo. Por isso, discutir a Educação para além da Escola é algo que os anarquistas do passado já fizeram e os  anarquistas de hoje estão fazendo. Isso podemos verificar nas práticas realizadas nos espaços de vivências autônomas e autogestionárias, seja nos Centros de Cultura, nas Bibliotecas Libertárias, nas Okupas, nas diversas editoras libertárias, nas Comunidades de Aprendizagem etc. É sobre essas possibilidades, sobre o que os anarquistas, sempre rebeldes, realizaram no passado como Educação Libertária e o que realizam hoje que a Jornada tem seu maior interesse. 


Teria alguma informação a mais sobre a Jornada?


A Jornada como eu disse não só quer discutir a Educação Libertária, mas tentar experimentar um exercício de Educação Libertária nesses quatro dias de encontro. Para isso propomos que cada um que venha na Jornada procure exercitar a autogestão, o apoio mútuo, a solidariedade e a troca de saberes. Pois isso é a premissa da pratica da Educação Libertária. Por isso queremos que cada participante seja um construtor de sua própria participação. Não só participando dos debates mas na construção deles. A dinâmica será de Roda de Conversa, em alguns casos com um painel inicial realizado pelos convidados. No caso da apresentação de trabalhos também. 

Também, quem quiser trazer alguma alimentação que produziu para comercializar entre os participantes, algum artesanato, alguma criação sua, se quiser apresentar uma atividade cultural poderá fazer. A Jornada é gratuita. Faremos certificado para quem solicitar. A ideia não é que seja meramente um encontro “acadêmico” , de “especialistas”como os encontros tradicionais. Será um encontro de pessoas que estão estudando ou querem estudar a Educação Libertária como daqueles que querem conhecer quem está estudando e fazendo essa educação. Por isso ele se pressupõe livre e baseado na auto-organização de cada um que participe.

Maiores informações estão no site da Jornada : http://jeduliber.wix.com/educacaoanarquista

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Carta de Piotr Kropotkin a Francisco Ferrer i Guardia*


Nesta saudação a Francisco Ferrer i Guardia, Piotr Kropotkin expressa seus ideais acerca da educação anarquista, destacando os benefícios que levaria para o desenvolvimento de inteligencias livres a instalação de práticas pedagógicas propostas desde os princípios da educação racional e integral. O geógrafo russo e reconhecido teórico, faz menção a uma educação que não venha das classes acomodadas, mas que contenha o saber popular e cujo ensino seja economia de tempo.

A tradução foi retirada do Suplemento Literário, agregado mensal do periódico Solidaridad Obrera, órgão de difusão da C.N.T., que na época se encontrava no exílio em Paris. O suplemento data de novembro-dezembro de 1959, que foi um número monográfico dedicado a Francisco Ferrer i Guarda a propósito do centenário de seu nascimento e o 50° aniversario de sua execução no Castelo de Montjuic.



Sr. D. Francisco Ferrer.

Querido companheiro e amigo:

Vejo com prazer que você lança à publico L´Ecole Renové e sinto não poder dedicar a esta publicação todo o apoio que desejaria prestar-lhe.

Tudo está por ser feito na escola atual. Tudo na educação propriamente dita, quer dizer, a formação do ser moral, ou seja, o individuo ativo, cheio de iniciativa, empreendedor, valente, livre dessa timidez de pensamento que caracteriza o homem educado em nossa época, e ao mesmo tempo sociável, igualitário, de instinto comunista e capaz de sentir sua unidade com todos os homens do universo inteiro, e portanto, despojado das preocupações religiosas, estritamente individualistas, autoritárias, etc., que nos inculca a escola.

Em tudo isso, não há dúvida que a obra da Escola mais perfeita será dificultada sempre enquanto a família e a sociedade atuam em direção contrária; mas a escola há de reagir frente a esses dois fatores. E pode fazê-lo, pela influência pessoal dos que ensinam e pelo modo de ensinar. Para isto se necessitam evidentemente criar pouco a pouco novas exposições de todas as ciências concretas em lugar dos tratados metafísicos atuais, societários –“associacionistas”, me permita a palavra- em lugar de individualistas; e dos tratados “populares” feitos desde o ponto de vista do povo, em lugar do ponto de vista das classes acomodadas, que domina em toda a ciência atual e sobretudo nos livros didáticos.

A respeito da historia, e a economia social, é evidente, ninguém duvida. Mas o mesmo ocorre no que diz respeito à todas as ciências, a biologia, a fisiologia dos seres vivos em geral, a psicologia e até a respeito das ciências físicas e matemáticas. Tomemos como exemplo a astronomia: Que diferença quando é ensinada desde o ponto de vista geocêntrico, do que resulta concebido e ensinado desde o heliocêntrico, e da que será ensinada desde o ponto de vista dos infinitamente “pequenos” que recorrem os espaços, cujos choques em números infinitos produzem ao longe as harmonias celestes! Ou bem tome-se as matemáticas quando se ensina como simples deduções lógicas de signos que perdem seu sentido original e não são mais que signos tratados como entidades, e quando se ensina como expressões simplificadas de fatos que são a vida infinita e infinitamente variada da mesma natureza. Jamais esquecerei a maneira com que nosso grande matemático Tchebycheff nos ensinava na universidade de São Petersburgo o cálculo integral. Seus integrais, quando ao escrever os signos convenientes dizia: “Se tomamos, em tais limites, a soma de todas as variações infinitamente pequenas que podem sofrer as três dimensões de tal corpo físico, sob a influência de tais forças”. 


Quando falava assim seus integrais tornavam-se signos vivos de coisas vivas na natureza, enquanto que para outros professores esses mesmos signos eram matéria morta, metafísica, e careciam de todo sentido real.

Agora bem, o ensino de todas as ciências, desde as mais abstratas até as ciências sociológicas e econômicas e a psicologia e fisiologia do individuo e das multidões, exige ser reconstruída para por-se ao nível do que impõe já a mesma ciência atual.

As ciências progrediram de uma maneira imensa durante o último meio Século1 mas o ensino destas ciências não seguiram o mesmo desenvolvimento.

Marcharão ao mesmo passo, e isso, de uma parte para que a instrução não seja um obstáculo ao desenvolvimento do individuo, e também porque o ciclo da instrução necessária nesse momento se ampliou de tal modo, que com o esforço de todos é preciso elaborar os métodos que permitam a economia das forças e dos tempos necessários. 

Em outro tempo, os que se dedicavam a uma carreira de padre, de sábio ou de governante, eram os que estudavam, e não reparavam em empregar em seus estudos dez ou quinze anos. Agora todo o mundo quer estudar, deseja saber, e o produtor das riquezas, o operário, é o primeiro que o exige para si. Pois sim; pode estudar, deve saber.

Não deve ficar um só ser humano a quem o saber –não o semi/saber superficial, senão o verdadeiro saber- lhe seja negado por falta de tempo ou de meios.

Hoje, graças aos progressos inauditos do século XIX, podemos produzir todo o necessário para assegurar o bem-estar de todos. E, ao mesmo tempo, podemos dar a todos o prazer do verdadeiro saber. Mais para isso terão de reformar-se os métodos de ensino.

Na nossa escola atual, formada para fazer a aristocracia do saber, e dirigida até o presente por essa aristocracia sob a vigilância dos clérigos, o desperdício do tempo é colossal, absurdo. Nas escolas secundarias inglesas, o tempo reservado para o ensino das matemáticas são de dois anos para os exercícios sobre a transformação dos yards, perches, poles, miles, bushels e outras medidas inglesas. Em todas partes a historia na escola é tempo absolutamente perdido para aprender nomes, leis incompreensíveis para as crianças, guerras, mentiras convencionais… E para cada matéria, o desperdício de tempo alcança proporções vergonhosas.

Como última forma haveremos que recorrer ao ensino integral; ao ensino que pelo exercício da mão sobre a madeira, a pedra e os metais, fala ao cérebro e lhe ajuda a desenvolver-se. Se chegará a ensinar a todos o fundamento de todos os ofícios o mesmo que de todas as máquinas, trabalhando sobre o banco e o torno, modelando a matéria bruta, fazendo por si mesmo as partes fundamentais de todas as coisas e máquinas, o mesmo que os mecanismos e as transmissões de força a que se reduzem todas as máquinas.

Se deverá chegar a integração do trabalho manual com o trabalho cerebral que pregava já a
Internacional, e que se realiza já em algumas escolas, sobretudo nos Estados Unidos, e então se verá a imensa economia de tempo que se realizará com os jovens cérebros, desenvolvidos por sua vez pelo trabalho das mãos e do pensamento. Deste modo, enquanto se pense seriamente nisso, se conseguirá o meio de economizar o tempo em todo o ensino.

O campo do cultivo no ensino é tão extenso, que se necesita o concurso de todas as inteligencias livres das brumas do passado, inclinadas até o porvir. 

Todas encontrarão nele uma imensa tarefa a realizar.

Meus veementes desejos de êxito a L´Ecole Renové.

Saudação fraternal,


Piotr Kropotkin

1Se refere a finais do Século XIX ( N. T.)

* Tradução Português Paulo Marques


segunda-feira, 4 de abril de 2016

CONVOCAÇÃO I CONGRESSO INTERNACIONAL DE PESQUISADORES SOBRE ANARQUISMO






26, 27 e 28 de outubro de 2016 CeDInCI – IDAES
UNSAM
Buenos Aires, Argentina



Convocação


Embora dentro do arco das esquerdas o anarquismo tenha despertado sempre um constante interesse, recentemente nas últimas décadas a pesquisa acadêmica sobre o tópico tem tido um crescimento visível na diversidade das suas aproximações temáticas e metodológicas. Ao mesmo tempo, a recente organização das bibliotecas e os arquivos militantes gerou uma nova disponibilidade de fontes documentais estendida globalmente pelos meios digitais. Além disso, na mesma direção e nos diferentes países do mundo, a aparição das renovadas coleções editoriais libertarias tem dado lugar a uma importante circulação de textos, que buscou promover não só uma releitura histórica do seu itinerário ideológico, mas também um reinstalar-se nos debates e nas lutas contemporâneas.

O comitê organizador do I Congresso tem vivenciado de perto este processo, tanto na pesquisa quanto no ativismo, a edição, o arquivo e a docência. Grande parte dos seus integrantes levou adiante os cinco Encontros de Pesquisadores sobre Anarquismo, com seus programas é possível ilustrar este crescimento: em 2007, nós éramos apenas um punhado ao redor duma mesa até que, no ano 2015, aquelas mesmas jornadas transbordaram a sala do CeDInCi com dezenas de dissertações de várias cidades e países.

Esperamos que um primeiro congresso de caráter internacional nos ofereça a possibilidade de alcançar um maior contato entre os pesquisadores e, ao mesmo tempo, permita-nos manter as praticas de leitura mútua e discussão coletiva que caracterizaram as anteriores edições de nossos encontros. 

Com essa finalidade, convida-se aos pesquisadores, professores e estudantes a participar do I Congresso Internacional de Pesquisadores sobre Anarquismo organizado em conjunto pelo Centro de Documentación e Investigación de la Cultura de Izquierdas (CeDInCI-UNSAM) e o Instituto de Altos Estudios (IDAES-UNSAM) em Buenos Aires, nos dias 26, 27 e 28 de outubro de 2016.

Comitê Acadêmico

Dora Barrancos (Argentina, CONICET), Joel Delhom (Université deBretagne-Sud), Sergio Grez Toso (Chile, Universidad de Chile), Clara Lida (México, Colegio de México), Rodolfo Porrini (Uruguay, FHuCE/Universidad de la República), Agustina Prieto (Argentina, Universidad Nacional de Rosario), Margareth Rago (Brasil, Universida de Estadual de Campinas), Daniel Vidal (Uruguay, FHuCE/Universidad de la República), Juan Suriano (Argentina, IDAES/UNSAM), Horacio Tarcus (Argentina, CeDInCI/UNSAM, CONICET).

Comitê Organizador

Martín Albornoz; Luciana Anapios; Fernanda de la Rosa; Lucía di Salvo; Lucas Domínguez Rubio; Laura Fernadez Cordero; Fermanda Losso; Ivanna Margarucci; María Miguelañez Martínez; Armando Minguzzi; Pascual Muñoz; Adriana Palomera; Huascar Rodríguez García, Sebastián Stavisky.

Cronograma

Envio de resumos: até 15 de maio de 2016. 

Envio de relatórios: até 17 de julho de 2016.

Os resultados da avaliação e a cofirmação das dissertações a fazerem parte da programação do Congresso serão informadas a partir do dia 15 de agosto de 2016.
Contato
http://congresoanarquismo.cedinci.org/
programainvestigaciónanarquismo@cedinci.org
https://www.facebook.com/ICongresoAnarquismo

Memória e imagens da II JORNADA DE EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA DE PELOTAS

Nos dias 9, 10 e 11 de Outubro realizou-se na OCA, Ocupação Coletiva de ArteirXs a II Jornada de Educação Libertária de Pelotas. Essa...