quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A Educação Libertária de Ricardo Mella


Ricardo Mella(1861-1925) nascido em Vigo, foi um dos mais importantes anarquistas espanhóis. Mella não só foi um teórico brilhante do anarquismo mas também estudioso e entusiasta de vários temas. Dominava vários idiomas(francês, inglês e italiano) que lhe permitiram traduzir não só os textos de Bakunin mas também de Malatesta e Kropotkin. A anarquista Federica Montsenny disse sobre ele: "É considerado como o mais profundo, o mais penetrante e o mais lúcido dos pensadores anarquistas espanhóis". Como ativo jornalista anarquista Mella fundou em 1881 o semanário "La Propaganda" do qual foi diretor, trabalhou nas revistas Acrácia( Barcelona) e Revista Social(Madri) assim como no periódico barcelones El Productor . 
Mella como todo anarquista preocupou-se profundamente com o problema da educação. Sobre esse tema suas posições foram e ainda são pioneiras na concepção do que significa educação em uma perspectiva libertária.
Na matéria "Ricardo Mella e a pedagogia" do Periódico anarquista "Tierra y Libertad" que reproduzimos aqui com tradução de Paulo Marques, temos uma síntese da concepção de educação de Ricardo Mella que, assim como outros pensadores da educação libertária como Francisco Ferrer, Paul Robin, e Sebástien Faure mantém-se a frente não só do seu tempo como do nosso. 





Ricardo Mella e a pedagogia 
(Tradução Paulo Marques)





Ricardo Mella (1861-1925) realizava uma distinção entre "educar", que seria um modo determinado de conduzir-se, de ser e de pensar, e o ensino, o qual deveria ter como finalidade a independência intelectual e física da juventude. Se na época em que Mella viveu, já existia uma forte oposição à educação religiosa, as escolas laicas não tardariam em impor um civismo que substituiu Deus pelo Estado.

Entretanto, para o anarquista Mella a questão não estava em denominar a escola laica, neutra ou, inclusive, racionalista, já que isso constitui um mero jogo de palavras que traslada as preocupações políticas do adulto para as opiniões pedagógicas. Este autor ácrata realiza uma feroz crítica a todos aqueles, sejam quais forem suas ideias, que pretendam modelar às crianças a sua imagem e semelhança; não existe o direito para inculcar um dogma religioso a uma criança, e tampouco para ensinar-lhe uma opinião política nem um ideal social, econômico ou filosófico. Em outras palavras, a escola não tem que ser para Mella nem republicana, nem massônica, nem socialista, nem anarquista, da mesma forma que não deve ser religiosa.

A escola não deve ser nada mais que um lugar de ensino para que o individuo tenha um pleno desenvolvimento e um completo desenvolvimento; qualquer tentativa de transmitir uma ideia já pré estabelecida é uma mutilação e uma distorção daquelas faculdades que se pretendem estimular. Mella nos legou uma visão plenamente anarquista; ainda que possamos cair uma e outra vez na confusão entre os termos educar e ensinar, o mais importante é a questão de fundo: há que se erradicar todo doutrinarismo da pedagogia, ainda que tenha intenções revolucionárias.

Os indivíduos serão intelectualmente livres se, na escola, adquirirem as verdades comprovadas, produto do conhecimento e universalmente reconhecidas; Mella considera, porém, que deve-se pôr ao alcance dos indivíduos, previamente instruídos nessas verdades mencionadas, todos os sistemas metafísicos, teológicos e filosóficos para que escolham livremente, mas isso já não será função da escola.

É muito necessário que os professores expliquem tudo, ideias religiosas ou políticas, mas é muito diferente de ensinar um dogma seja do tipo que for, democrático, socialista ou anarquista. Para Mella, o anarquismo, ao colocar a liberdade de pensamento e de ação acima de tudo, não pode preconizar imposição alguma aos jovens e nenhum método doutrinário. A melhor escola desejada pelos anarquistas, portanto, é aquela que mais e melhor estimule nos jovens o desejo de saber por eles mesmos, de formar-se suas próprias ideias. Estas ideias de Mella sobre a pedagogia ficaram expostas em diversos números da publicação Ação Libertaria.

Mella insiste nessa postura sobre o ensino. Inclusive, denuncia aqueles supostts livres-pensadores, radicais e anarquistas que não atuam em questões pedagógicas de modo muito diferente do que os sectários religiosos. Os postulados de Mella são de uma atualidade inegável quando denuncia o uso que muitos coetâneos seus fazem da palavra racionalismo com a pretensão de impor em seu nome uma nova doutrina para a juventude; do mesmo modo, denuncia também toda pretensão de verdade absoluta em nome da ciência. Ricardo Mella critica que o racionalismo, ao proclamar a soberania da razão, gera erros e absurdos; a razão é meramente individual, porque não pode proclamar-se soberana, já que fazê-lo seria dar a todo o mundo o critério exato e a certeza da verdade.

O racionalismo, como sistema, tem assumido seu fracasso, ainda que tenha sido útil contra o dogmatismo e os absurdos das crenças. A ciência, baseada na experiência e nos fatos comprovados, se pode ter essa pretensão como sistema; ao contrário, as criações do pensamento, as razões em cada um, são diferentes em cada individuo, e tem um caráter frágil como para ter pretensões objetivistas, já que aquele é dado ao extraordinário e maravilhoso. Se há quem identifica ciência, racionalismo e anarquismo, para Mella isso equivale a insertar uma propaganda na educação, quer dizer, a uma nova forma de proselitismo.

Os anarquistas não tem mais direito que qualquer outro a formar os demais de um modo ou de outro, mas sim o dever de não impedir que cada um o faça a si mesmo como queira. O que os adultos entendemos como propaganda, uma criança o verá como imposição; insiste Mella em que uma coisa és instruir nas ciências e outra muito diferente é ensinar uma doutrina. Ainda que racionalismo e anarquismo tenham muito em comum, não temos direito a gravar nada dele nas mentes infantís; nenhuma crença deve impedir seu livre desenvolvimento.

Não pode existir um ato pedagogicamente menos libertário que imopr um modelo a uma criança, ainda que seja o mais belo ideal, já que com isso está cerceando a faculdade de pensar desde a mais tenra idade. Inclusive a liberdade absoluta, se é que esse conceito não seja impossível para o entendimento humano, não deve ser imposta, senão livremente aceita e buscada; é a criança que deve aceder as mais belas ideias, deduzidas dos conhecimentos gerais, e não opiniões, que se deve pôr a seu alcance.

Para chegar a este argumento, há que entender que Mella vê o anarquismo como um corpo de doutrina; por mais sólido, razoável e científico que sej em sua base, não deixa de pertencer ao terreno especulativo e, portanto, é tão questionável como qualquer outro. De novo Mella insiste em sua renuncia a uma verdade permanente, já que o devir converte em obsoletas as certezas do passado; já que o ser humano, inclusive o mais sábio, está cheio de prejuízos, de sofismas e de anacronismos, ninguém tem o direito de impor ideias às gerações seguintes.

"Como anarquistas, precisamente como anarquistas, queremos o ensino livre de toda classe de 'ismos', para que os homens do porvir possam fazer-se livres e ditos por si e não como meio de pretensos modeladores, que é como quem diz redentores" (Acción Libertaria 11, enero de 1911).

O anarquista trabalha pelo livre pensar, e este não se aplica únicamente por oposição teologia, também às imposições de partido, escola ou doutrina. A instrução da infância, e recordemos que Mella a opõe a ideia de "educar", deve ser neutra, estar isenta de qualquer tentativa de propaganda: "Descartada toda matéria de fé, a instrução da juventude ficaria reduzida ao ensino das coisas provadas e a explicação dos problemas cuja solução não tem mais que probabilidades de certeza" (Acción Libertaria 22, abril de 1911).

As crianças são propensas a perguntas metafísicas, podem perguntar-se perfeitamente qual é a origem do universo etc...O que pode fazer um professor? Existe a probabilidade de não ser feita a pergunta acerca da existência de Deus, mas se surgir é obrigado demostrar que em todo o conhecimento humano não há prova alguma de sua existência. Sobre as questões acerca da causa e da finalidade da existência, inevitáveis em algum momento do desenvolvimento do individuo, não há certeza alguma e de nada vale invocar a ciência; os que se referem ao materialismo, ao racionalismo ou ao evolucionismo seguirão falando em nome de uma opinião ou crença.

Para Mella, a honestidade intelectual do professor deve produzir-se através de uma exposição clara dos dados do problema e as diferentes hipóteses que tratam de aclará-lo; qualquer outra via, é cair na imposição de uma doutrina. O pequeno individuo deverá formar seu juízo por si mesmo ao pôr a seu alcance todos aqueles conhecimentos que possam ilustrar a questão; se trata de um "método de liberdade" respeitoso com a independência intelectual da criança que, para Mella, devem proclamar os anarquistas. É na realidade onde se encontra toda experiencia, base do conhecimento, e do ensino que deve reduzir-se a lições de coisas (não de palavras); com essa primeira adquisição, pode estabelecer-se o caminho para adquirir os melhores métodos para que a própria realidade, e não o professor, gere na consciência do individuo, que será o integrante de uma nova sociedade, os mais belos exemplos de bondade, amor e justiça. Pretende Mella erradicar todo discurso imposto no ensino, basear-se nos fatos, para que as crianças se questionem sobre o mundo que lhes rodeia e acabem se desenvolvendo de maneira intelectualmente adequada.

De novo observamos que na visão anarquista, também em questões pedagógicas, a liberdade é um fator central, Mella arremete contra a imposição e o verbalismo:
"E se na humanidade persiste a escravidão moral e material, é porque precisamente se há empregado no ensino o fator imposição. O instrumento desta imposição tem sido o verbalismo, o verbalismo teológico, metafísico ou filosófico. Queremos um ensino novo? Pois nada de verbalismo nem de imposição. Experiência, observação, análises, completa liberdade de juízo, e os homens do porvir não terão que impedir a continuação da cadeia que queremos romper" (El Libertario 7, septiembre de 1912).

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Vamos falar um pouco de Educação Libertária? por Paulo Marques




O que é Educação Libertária? Onde está? Seria uma uma teoria, doutrina, pedagogia, metodologia? Uma prática? uma utopia? uma heterotopia?Não é nada disso e ao mesmo tempo pode ser tudo isso. É, portanto, um ethos, um comportamento, uma relação, sobretudo,  baseada em uma ideia de ser humano. Ser humano como devir, como único na acepção de Stirner;  como experimentador, cujas possibilidades requerem e exigem uma educação capaz de possibilitar a cada um tornar-se, como disse Nietzsche, "aquilo que se é", e não aquilo que outro quer que seja.

Para isso Educação Libertária não começa nem termina em um espaço fechado e exclusivo, não é monopólio de Estado, de família, de religião, nem  educadores ou ideólogos. Educação na perspectiva libertária  é compartilhamento de múltiplos saberes encontrados na própria dinâmica da vida de cada um, seja individualmente, seja coletivamente.

Educação Libertária é generalizada, é  ação direta, sem intermediários, sem autoridades que determinem conteúdos, fins, objetivos, metas. Educação Libertária é autocriação do conhecimento, da própria vida como exercício de autoeducação.

A Educação Libertária nasceu como ideia dos pensadores iluministas que levaram às últimas consequencias o pressuposto  Kantiano do "sapere aude", tenha coragem de saber. Ao contrário dos "libertadores" que pregam a necessidade de alguém que "liberte" o oprimido; os libertários como m Willian Godwin, Max Stirner, Proudhon, Bakunin, os libertários por excelência, pioneiros na filosofia antiautoritária que adotaria a denominação "maldita" de ANARQUISTAS", advogam pela liberdade sem "Libertadores", a liberdade de cada um é obra de cada um, ou seja  não é necessária nenhuma autoridade.

Foram os anarquistas que no século XIX e XX colocaram em prática essas ideias de Educação Libertária pela primeira vez na Europa e depois no resto do mundo. Paul Robin, Sebastién Faure, Francisco Ferrer foram pioneiros. Demonstraram com suas experiências de Educação Libertária que ensino, conhecimento, saberes poderiam ser realizados sem prêmios e castigos, de forma livre, autogestionária, integral. Que a liberdade não era um conceito abstrato mais um atributo da ação, e do ethos. As ideias libertárias aportaram no Brasil nas primeira décadas do século XX, trazidas pelos milhares de operários imigrantes da Itália, Espanha, Polônia, que vieram servir de mão de obra para o nascente capitalismo tardio. Tratados como animais de cargas em fábricas no qual trabalhavam mulheres e crianças por mais de 14 horas sem nenhum direito, auto-organizaram-se e criaram suas próprias Escolas Libertárias para os operários e seus filhos. Foram pioneiros no que viria a ser chamado no Brasil de Educação Popular.

Cem anos depois a ideia de Educação Libertária, que ao contrário do que a história oficial sustenta, nunca morreu, ressurge com força em cada movimento libertário que avança.   Revive sempre e em cada ação no qual a prática seja da ação direta, do apoio mútuo e da Autogestão. É encontrada hoje em salas de aulas de Escolas e Universidades,  nas Okupas, nas Escolas ocupadas por estudantes na bela "Revolução dos secundas" de São Paulo, na ação de cada Grupo de Estudo ou coletivo libertário, cada Biblioteca libertária.

De forma rizomática a ideia e a prática libertária no campo da educação se espalha sem um centro propulsor ou organizador, sem qualquer "cartilha" , "Livro sagrado" . Daí a dificuldade de compreendê-la pois escapa das narrativas tradicionais e aceita dos muitos "ismos" que pretendem determinar sentidos. Educação Libertária é devir , é nômade. Não está em um lugar, está em mil platôs....

Falamos um pouco sobre nossa perspectiva de Educação Libertária no Programa Educação, realizado pela jornalista Maria Lucia Walerko Moreira da TV Câmara de Pelotas que mostrou também o trabalho que estamos realizando na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Pelotas-UFPel e o nosso Grupo de Estudos Educação Libertária.

Grupo de Estudos Educação Libertária agora integra o Projeto MULTIVERSIDADE AUTOGESTIONÁRIA DE APRENDIZAGENS LIVRES DA OCA

O Grupo de Pesquisa e Estudos  sobre Educação Libertária reinicia seus encontros nesse semestre incorporando-se como uma das ativida...