segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Ciclo de Cine-Debate Educação E(M) Liberdade


O Grupo de Estudos Educação Libertária está preparando para o primeiro semestre de 2015 a realização do Primeiro Ciclo de Cine -Debate Educação E (M) Liberdade . A proposta dessa atividade é realizar debates sobre a relação da educação com a liberdade a partir de filmes de ficção e documentários nacionais e estrangeiros, que contribuem para essa reflexão. O debate será realizado com convidados de diferentes áreas do conhecimento como filosofia, sociologia, antropologia, psicologia, letras, história, artes etc.. buscando uma abordagem interdisciplinar.

O lançamento do Ciclo será no dia  11/12/2014, quinta-feira, as 17h com a exibição do documentário brasileiro "Quando sinto  que já sei".

O documentário apresenta sete projetos não tradicionais de educação em sete cidades do Brasil a partir de entrevistas com com educadores responsáveis pelos projetos. 
A  atividade será realizada na sala de Video do Casarão 8 ( Museu do Doce) Pça Osório, Pelotas-RS




Abaixo publicamos alguns dos filmes que estaremos exibindo no Ciclo: 


 - A língua das mariposas ( ficção, Espanha, 1999)


Este belo filme retrata como funcionava a Escola Moderna baseada no modelo criado pelo educador libertário Francisco Ferrer y Guardia no início do século XX na Espanha e que foi implementado em todo o país por pedagogos anarquistas até o advento do franquismo. O filme se passa em um pequeno povoado da Espanha, no ano de 1936, as vésperas da Guerra Civil. É a história do menino Moncho, um garoto de 8 anos, que tem medo de ir para a escola porque ficou sabendo que os professores batem nas crianças. Até que seu novo professor, Don Gregório, vai buscá-lo em casa e mostra uma nova forma de educação que encanta o garoto pelo seu caráter e sabedoria. 


Cena do filme em que o professor Don Gregório ensina o pequeno Moncho  utilizando os métodos do geógrafo anarquista Elisé Reclus de aprendizagem a partir do contato direto com a natureza. 



SER e TER (Documentário. França, 2002)




O título do filme, traduzido literalmente como "Ser e Ter", os dois verbos auxiliares da língua francesa. O documentário acompanha a vida de uma escola primária na pequena comunidade rural francesa de Saint-Étienne-sur-Usson, Puy-de-Dôme, França, cuja população tem pouco mais de 200 pessoas. A escola é  uma pequena sala onde estudam juntas crianças de 4 a 12 anos de idade. O filme mostra o processo de formação do conhecimento entre os alunos , acompanhando o belo e emocionante  trabalho do dedicado  professor Georges Lopez.



Cena em que o professor  Georges Lopez conversa com Jojô um de seus alunos




Pequenas flores vermelhas ( China/Iátlia, 2006)



Pequim, 1949. Com apenas quatro anos, o pequeno Qiang é matriculado numa creche-internato onde dezenas de crianças  já forma "depositadas" antes. Durante todo o filme apenas um pai visita uma das crianças internada. Para o pobre Qiang ganhar algumas das florzinhas vermelhas  com que as professoras recompensam as crianças por bom comportamento bastava conformar-se com as incontáveis regras da instituição. Mas Qiang é uma criança rebelde e não consegue seguir as regras. Sua desobediência impede que ele ganhe as desejadas flores vermelhas, e acaba atraindo a antipatia da professora Sra. Li. Só que ele também consegue que outras crianças se juntem à sua rebelião particular ao convencê-las de que a professora é, na verdade, um monstro que come crianças.


O filme revela a (ainda) presente repressão a que as crianças são sujeitas e uma lógica de estímulo a competição desde cedo. Também destaca-se a falta de liberdade pessoal num regime de padronização, vigilancia e punição característico das instituições de controle. O filme faz uma uma  profunda crítica a essa dinâmica que é predominante nos estabelecimentos de ensino, independente do regime político.  

 A Educação Proibida ( Documentário, Argentina , 2012)




No documentário são apresentadas mais de 90 entrevistas com educadores, acadêmicos, autores e pais de alunos, envolvendo oito países da Ibero-América, passando por 45 experiências educativas não convencionais. O documentário que  teve mais de 25 mil seguidores nas redes sociais antes de sua estreia e um total de 704 coprodutores converteu a  “A Educação Proibida” em um projeto totalmente independente e inédito que mostra a necessidade de implementação de estratégias inovadoras na educação.




- O Substituto/Detachment ( ficção, EUA, 2011)


O título original expõe de forma rápida toda a problemática do filme e dos seus personagens, o que não aparece refletido na tradução ao português. A palavra inglesa “detachment” pode ser traduzida como ”desapego” ou “distanciamento”, mas também “indiferença”. Isso é o que o filme retrata, de forma diversa, positiva e negativamente. O protagonista, um professor que somente faz substituições sem nunca assumir uma vaga fixa, vive carregando uma história familiar tortuosa que não acaba de assimilar. Chamado para realizar uma substituição em uma escola pública em um estado completo de caos, encontrará professores/as que não sentem apego nenhum pela sua profissão, estudantes desencantados e aborrecidos da vida antes mesmo de começá-la, adolescentes à procura de adultos em quem confiar e com os quais substituir pais negligentes ou ausentes. Um retrato do que vem se tornando a escola na atualidade.




Os Incompreendidos,( França, 1959)


O que o cineasta francês Truffaut queria com este filme era mostrar ao mundo que os adolescentes não eram compreendidos pelos adultos. Embora não gostasse de falar no assunto, todo mundo sabia que o garoto protagonista do filme era o alter-ego de Truffaut  que também havia crescido em uma família pobre que não lhe dava atenção e também ele foi um delinquente juvenil , cometendo pequenos furtos pelas ruas de Paris e esteve internado em um reformatório.
O filme conta a história de um jovem de 15 anos que ninguém- pais, educadores, parentes ou policiais- entendia. Antoine Doinel não é bom nem mau,é só um adolescente. O cineasta contou esta história com uma gigantesca dose de carinho pelo personagem. O resultado final é um filme deslumbrante, poético e melancólico em alguns momentos, suave e cômico em outros, mas sempre compreensivo e caloroso.


O protagonista do filme mente para os professores e para os pais, rouba uma máquina de escrever, fica preso num reformatório, mas não é um menino malvado. Os adultos do filme não entendem. Não percebem que quando ele cita Balzac numa redação, não está tentando plagiar o escritor, mas homenageá-lo. A obra alcança uma unanimidade da crítica que afirma que Os incompreendidos permanece o melhor filme sobre adolescentes já lançado.





- Pro dia nascer feliz(Documentário,  Brasil , 2007)



Documentário brasileiro que aborda a realidade de profunda desigualdade existente na educação brasileira, mostrando o funcionamento das escolas públicas(dos pobres)  e das escolas particulares(dos ricos) com o foco na percepção dos estudantes de 14 a 17 anos. Foram ouvidos alunos de escolas da periferia de São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco e dois colégios particulares , um de São Paulo e outro do Rio de Janeiro. Pro Dia Nascer feliz tem o mérito de abordar a educação no Brasil sob forma documental, desmascarando o abismo que existe entre as escolas de elite e as escolas públicas bem como os estudantes de cada uma delas. 

Uma boa resenha crítica  sobre este filme pode ser lida em 
http://passapalavra.info/2010/02/19335





A Onda( Ficção, Alemanha, 2008, )





Rainer Wegner, professor de ensino médio, deve ensinar seus alunos sobre autocracia. Devido ao desinteresse deles, propõe um experimento que explique na prática os mecanismos do fascismo e do poder. Wegner se denomina o líder daquele grupo, escolhe o lema “força pela disciplina” e dá ao movimento o nome de A Onda. Em pouco tempo, os alunos começam a propagar o poder da unidade e ameaçar os outros. Quando o jogo fica sério, Wegner decide interrompê-lo. Mas é tarde demais, e A Onda já saiu de seu controle. Baseado em uma história real ocorrida na Califórnia em 1967. 






Educação( ficção, EUA, Reino Unido, 2009)



O filme trata da  história de  Jenny Carey , uma jovem estudante inglesa de 16 anos que vive com a família no subúrbio londrino em 1961. Ela  sofre com o tédio de seus dias de adolescente e aguarda impacientemente a chegada da vida adulta. Conduzida pelos seus pais a um comportamento disciplinado e correto, a garota tem como objetivo único ingressar na renomada universidade Oxford. 





Quando conhece David (Peter Sarsgaard), homem charmoso e cosmopolita de trinta e poucos anos, vê um mundo novo se abrir diante de si. Ele a leva a concertos de música clássica, a leilões de arte, e a faz descobrir o glamour da noite, deixando-a em um dilema entre a educação formal e o aprendizado da vida.

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The Edukators( Os educadores) (ficção, Alemanha, 2003)






Jan (Daniel Brühl) e Peter (Stipe Erceg) são dois jovens que acreditam que podem mudar o mundo. Eles se auto-denominam "Os Educadores", rebeldes contemporâneos que expressam sua indignação de forma pacífica: eles invadem mansões, trocam móveis e objetos de lugar e espalham mensagens de protesto. Jule (Julia Jentsch) é a namorada de Peter, que está passando por problemas financeiros e, por causa deles, está saindo de seu apartamento alugado. Tempos atrás Jule se envolveu em um acidente de carro, que destruiu o carro de um rico empresário. Condenada pela justiça, ela precisa pagar um novo carro no valor de 100 mil euros, o que praticamente faz com que trabalhe apenas para pagar a dívida que possui. Como Peter viaja para Barcelona, Jan vai ajudá-la na mudança. Eles se conhecem melhor e Jan termina por contar a ela a verdade sobre os Educadores. Empolgada com a notícia, Jule insiste que ela e Jan invadam a casa de Hardenberg (Burghart Klaubner), o empresário que a processou. 




Após uma certa resistência, Jan concorda. Na casa eles agem como os Educadores, mudando os móveis de lugar, mas cometem um grave erro: Jule esquece no local seu celular. No dia seguinte, com Peter já tendo retornado da viagem mas sem saber do ocorrido, Jan e Jule decidem invadir novamente a casa de Hardenberg, para recuperar o celular. Porém o que eles não esperavam era que o empresário os surpreendesse dentro da casa, o que os força a sequestrá-lo.


Os Infelizes( Ficção, Holanda, 2009) 






Este filme holandês  conta a história do garoto de 13 anos Gunther Strobbe que cresce rodeado por lixo, álcool e seu pai e tios completamente inúteis. Lenta mas seguramente, ele está sendo preparado para a mesma vida. Ele pode ser capaz de mudar seu destino? Uma abordagem crua  sobre as possibilidades da  "escola da vida". 






Vermelho como o céu ( ficção, 2006 , Itália)


Saga de um garoto cego durante os anos 70. Ele luta contra tudo e todos para alcançar seus sonhos e sua liberdade. Mirco (Luca Capriotti) é um jovem toscano de dez anos apaixonado por cinema, que perde a visão após um acidente. Uma vez que a escola pública não o aceitou como uma criança normal, é enviado para um instituto de deficientes visuais em Gênova. Lá, descobre um velho gravador e passa a criar histórias sonoras. Baseado na história real de Mirco Mencacci, um renomado editor de som da indústria cinematográfica italiana.

O filme mostra que rejeição é marca do Estado italiano de então, que segregava as crianças cegas e as deixava sob a responsabilidade de um diretor, que por também ser cego, supostamente entenderia a realidade dos meninos e poderia, teoricamente, mantê-las sob controle. Por meio de um programa centralizado e burocrático, as crianças eram doutrinadas a obedecer, rezar e aprender um ofício manual, como empalhar cadeiras.



Essa situação incomodava o padre e professor Giulio, inspirador de Mirco na escola e simpatizante dos novos ares que começavam a passar pela educação. Na verdade, este conflito entre diretor e professor, com posições tão francamente opostas, molda o grande debate do filme: qual é o papel da liberdade na evolução do indivíduo? Para o professor, o conceito de formação imposto de cima era cerceador da inventividade, simbolizada pelo talento incrível de Mirco, que contava histórias captando os sons da Natureza com um velho gravador da escola, convenientemente disponibilizado pelo professor.
O talento de Mirco acaba, felizmente, por envolver a todos, quando eles se reúnem para realizar uma grande narrativa de fim de ano, tendo os pais presentes a visitá-los. Recheado de personagens simpáticos, como vários amigos e a namorada, o filme capricha nas cenas cotidianas, como se estivéssemos andando por uma rua qualquer da Itália, além de, adequadamente, nos aproximar da nossa condição humana, independente das nossas capacidades e talentos.




Um dia, Um gato ( Tchecoslováquia, 1963) 






Este filme é uma fábula que conta a história de um gato mágico, cujos olhos dão as pessoas as cores de suas personalidades e sentimentos. Assim, os apaixonados ficam vermelhos, os hipócritas roxos, os infiéis amarelos e os desonestos cinzas. 

A resenha de Sergio Vaz quando o filme completou 50 anos descreve a beleza deste filme : 



Já começa brincalhão, completamente fora do tom da exaltação dramática da força do operariado: um senhorzinho de barba grisalha aparece em uma janela no relógio da torre mais alta de uma pequenina cidade interiorana, e se dirige aos espectadores:
Vou contar uma história. Com mais verdade que fantasia.”

Chama-se Oliva (Jan Werich, na foto, ele também um dos autores do roteiro, juntamente com o diretor Vojtech Jasný e mais Jirí Brdecka). Veremos que é um homem que já fez muita coisa na vida, e hoje exerce o ofício de observar a vida naquele microcosmo da sociedade que é a pequena e centenária cidade perdida no meio rural.






Oliva caminha para um terraço no alto da torre, diante da praça central belíssima de cidade checa muito antiga, centenária. Fala com os espectadores com uma pequena lente de aumento na mão, que fará as vezes de um poderoso binóculo através do qual a câmara focalizará as pessoas e as coisas de que o senhorzinho fala:


Observar a correria da vida é sempre motivo para reflexão. É divertido – quando se gosta das pessoas. Para isso, deve-se olhar as coisas de uma altura apropriada. Não tão alto quanto os cosmonautas. Eles não têm tempo de perceber o que acontece aqui. A altura de uma torre simples num povoado humilde serve perfeitamente – e você verá mais tragédias que nas trilogias.”

Vamos vendo imagens da praça enquanto ele fala.


Agora, vejamos o que o dia de hoje nos reserva. Ali vemos cinco carrinhos de bebês. Não! Já são seis! Estamos crescendo sem controle, e não há nada a fazer.”

Vemos um grupo de umas dez, 12 pessoas, andando pela praça.


Aqueles são turistas vindos das fazendas das cooperativas. Sempre aparecem, principalmente durante a colheita, para admirar nossas cúpulas renascentistas e saborear nossa cerveja.”

Vemos crianças desenhando com giz nas paredes. E o filme já abandona aí qualquer coisa parecida com realismo, porque Oliva fala com voz normal e a menina lá longe o ouve e responde para ele:
Hattie, pode me ouvir? Por que você só desenha com o giz azul?”

E a garotinha, feliz da vida: Só tenho esse giz, tio!”

Oliva, de novo para o espectador: E por que não? Picasso também teve sua fase azul…”

E nos apresenta a fofoqueira da cidade (Alena Kreuzmannová), uma velhinha serelepe que está sempre pulando, para tentar ver o que acontece dentro das casas. Naquele momento, a fofoqueira está tentando ver o que se passa numa casa em que um casal conversa. Oliva nos informa que eles não são casados, e vai em frente apresentando outros personagens, outras pessoas da cidade.

Um professor dedicado, querido pelos alunos. Um diretor de escola autoritário, crápula







O casal não casado, que Oliva nos mostrou bem en passant, será muito importante na história. Ele é Robert (Vlastimil Brodský), o professor do terceiro ano da escola. Ela é Julie (Jirina Bohdalová), funcionária da escola, secretária do diretor (Jirí Sovák). Namora Robert, parece querer casar com ele, já que é solteiro e disponível – mas não afasta com muita convicção os avanços do diretor da escola, que, naturalmente, é casado, e também autoritário, ditatorial, um perfeito crápula.

Robert sai da casa de Julie e dá uma passada rápida na sua própria casa, para alimentar os diversos bichos que tem lá, gatos, aves. E em seguida sai rumo à escola – mas, no caminho, usará uma pequena filmadora para gravar imagens dos pássaros que sobrevoam a cidade.

Entre os outros personagens que Oliva nos apresenta do alto da torre há Marjánka (Vlasta Chramostová), bela, sorridente trabalhadora no campo, e Janek (Karel Effa), o oposto dela, um sujeito preguiçoso, indolente, que está sempre pretextando alguma doença para fugir do trabalho.

E há o zelador da escola (Vladimír Mensík), puxa-saco emérito do diretor e seu pau para toda obra. Uma figura sabuja, asquerosa.

Robert, o professor dedicado, querido pelos alunos, que adora animais. O diretor autoritário, crápula, que tem licença das autoridades para caçar animais e empalhá-los. O bom e o mau.

Encontram-se no meio da praça central – Robert filmando os pássaros, o diretor matando um deles. Robert não consegue conter a palavra “Assassino!”, enquanto forma-se um grupo de gente em torno deles. Mais adiante, quando estão sozinhos os dois na escola, o diretor dirá para o professor seu desafeto:
Ouça, Robert, chamar o seu superior de assassino em público não parece uma crítica construtiva.”

Típica frase de um camarada para outro camarada sob o regime soviético e seus satélites.

Uma narrativa que voa para longe do realismo a cada instante

Num microcosmo, espelho da sociedade como um todo, gente boa, gente trabalhadora. Gente preguiçosa. Um dirigente que é um crápula. Temos aí os elementos básicos para o conto moral, a sátira política.

A narrativa voa para longe do realismo a cada momento. Os atores ensaiam pequenos passos de dança mesmo que sem qualquer música. Quando a cegonha abatida pelo diretor aparece empalhada pelo zelador, aquele manda que este dê uma rodada pela sala, como se o pássaro estivesse voando. A câmara do diretor de fotografia Jaroslav Kucera segue então o zelador, em círculos, sob a vista encantada do diretor, sua mulher e Julie, a secretária que ele bolinava momentos antes. Todos dançam, enquanto uma música circense realça a tragicomédia da situação.


Uma trupe circense com um gato de óculos escuros invade a cidadezinha






O professor Robert convida o velhinho Oliva para posar para seus alunos numa aula de desenho. O modelo senta-se diante dos garotinhos, e começa a contar para eles uma história fantástica que viveu muitos anos atrás, quando conheceu uma trupe de circo, com um mágico, a mulher mais bela que ele já havia visto na vida, chamada Diana, e um gato muito especial de que os dois cuidavam – um gato que usava óculos escuros.

Estamos com 25 minutos do filme quando a trupe circense da fantástica história contada por Oliva invade a cidadezinha.

A Diana da história fantástica é de fato linda, de uma beleza suave de coisa mágica. A atriz que a interpreta, Emílie Vásáryová (na foto), é uma absoluta gracinha.

O mágico é idêntico a Oliva – menos nas roupas, é claro, já que vem a caráter, de black-tie, e Oliva está sempre com seu macacão de brim. Naturalmente, os dois são interpretados pelo mesmo ator, o ótimo Jan Werich, já citado como um dos três autores do roteiro.

E aí vem a grande sacada do diretor Jasný, autor da história original, e de seus co-roteiristas. Claro que todo mundo que já ouviu falar de Um Dia, Um Gato está cansando de saber qual é a sacada – mas eu demorei um tantão para chegar a ela como se fosse um filme de suspense.

Quando alguém tira os óculos escuros do gato mágico, e ele olha para as pessoas ao redor, elas tomam as cores que revelam seu caráter.
Os mentirosos, hipócritas, ambiciosos, egoístas ficam roxos.
Os infiéis ficam amarelos.
Os ladrões ficam cinzas.
Os apaixonados ficam vermelhos.
Um balé fantástico, alucinante, alucinado. O filme tem algo dos velhos musicais americanos

E são esplendorosamente bem feitas as seqüências em que os olhos do gato desmascaram os habitantes da cidade, desnudam a cores o caráter de cada um.

É um balé fantástico, alucinante, alucinado – maravilhosamente encenado.

Um Dia, Um Gato tem algo dos velhos musicais de Hollywood, uma pitada grande de circo. As seqüências das crianças correndo pelas ruas, desenhando gatos em grandes folhas de papel, anteciparão o clima mágico que François Truffaut criaria em Idade da Inocência/L’Argent de Poche (1976), e Steven Spielberg refaria em algumas das cenas em que diversos garotos se reúnem em E.T. – O Extra-Terrestre (1982). E as seqüências de Robert e a bela Diana caminhando, correndo, dançando, levitando nos belos campos primaveris têm o clima de romance ideal, perfeito, onírico, que o sueco Bo Widerberg obteria poucos anos depois em Elvira Madigan (1967).

É mágico, é lindo, é fascinante.





As educadoras anarquistas individualistas: mulheres livres na Belle Époque, por Anne Steiner*

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