terça-feira, 13 de maio de 2014

Aos trabalhadores e outros escritos políticos de Lev Tolstói





A Intermezzo Editorial junto com a Editora Imaginário estarão lançando neste ano uma obra fundamental com os escritos políticos de Lev Tólstoi em português. O lançamento é parte da Coleção CLIVAGENS da recém criada  Intermezzo de Plínio Augusto Coelho, que se direcionará para publicação de  obras no âmbito da cultura como cinema, artes, literatura, música.

O livro "Aos trabalhadores e outros escritos políticos de Lev Tolstói" vem suprir esta lacuna que é a falta de traduções  das obras e ensaios políticos  deste grande pensador libertário para o português.


Texto da contracapa:

"Proteger a propriedade fundiária é ser causa das privações e dos sofrimentos de milhões de seres, daqueles que são mal alimentados e trabalham até ao esgotamento de suas forças, dos velhos e das crianças  que morrem antes da hora, unicamente porque lhes falta a terra que é monopolizada por outros.
Se as consequências da propriedade fundiária são essas, - e não se poderia negá-las- é evidente que aderir a essa instituição , seja como proprietário, seja como seu protetor, é uma ação lesiva da qual todos devem abster-se. Centenas de milhões de homens, sem se colocar em greve, consideram como maléfico: a usura, a devassidão, a violência contra os fracos, o roubo, o assassinato etc.,e abstêm-se de tais atos. Os operários deveriam observar a mesma atitude na questão da propriedade fundiária. Eles próprios veem  o quanto essa instituição é ilegitima, perniciosa, cruel. (Lev Tolstói)

sábado, 10 de maio de 2014

León Tolstói: O educador libertário dos camponeses, por Paulo Marques


Léon Tostói tinha um profundo amor pelas crianças 

Liev Nikoláievich ou simplesmente Léon Tolstói(1828-1910) este que é considerado um dos maiores escritores de todos os tempos, autor de Guerra e Paz, Ana Karenina entre outras obras primas eternas da literatura universal, foi também um pioneiro da educação libertária. Apartir da experiência pedagógica com crianças camponesas realizada em sua propriedade de Iásnaia Poliana, localizada na província russa de Tula, Tólstoi entrará para o rol dos grandes pensadores da Educação Libertária, que terá enorme  influencia nas propostas e projetos  de gerações de educadores anarquistas.

O Conde Tólstói, nascido de uma família aristocrática, ao longo de seus 83 anos de vida,  ganhará fama não só como o maior entre os maiores da literatura russa - em uma época em que foi contemporâneo de outros gênios como Dostoiévski, Gorki, Turgueniev e Tchecov por exemplo- mas como o anarquista-cristão e líder espiritual das massas camponesas da Rússia que viviam sob o jugo do Império tzarista.

Todavia, o que pouco será conhecido fora dos círculos libertários é seu legado para a educação. Da mesma forma que grande parte da contribuição teórica e prática da educação libertária tem sido, ao longo da história, ignorada e marginalizada por parte da academia e dos centros tradicionais de ensino, a experimentação pedagógica de Tolstói também enfrentará esse  problema, principalmente no Brasil onde  se tem acesso apenas a  seus romances clássicos.

O fato é que essa contribuição fundamental existe e é de uma enorme riqueza e atualidade para o campo da educação, se constituindo como uma das principais referências da pedagogia libertária ao lado de emblemáticas experiências como o Orfanato de Cempuis de Paul Robin, a “Colméia” de Sbastién Faure e a Escola Moderna de Ferrer Guardia, Summerhil entre outras. Neste breve artigo pretendemos resgatar um pouco dessa experiência levada a cabo por León Tostói na Rússia do final do século XIX.

Iásnaia Poliana e a educação libertária dos camponeses russos

Tolstói com crianças na inauguração da biblioteca pública de Iásnaia Poliana em 1909.

O trabalho pedagógico do grande escritor russo teve inicio com a primeira escola criada por ele para os camponeses e seus filhos na propriedade rural chamada Iásnaia Poliana, em 1859. Essa experiência serviu como pontapé inicial de modelo de ensino inovador para a época que seria multiplicado com a construção de várias outras escolas rurais criadas pelo escritor na região. Conforme a biógrafa Rosamundo Bartlett, na mais recente biografia de Tolstói(lançada no Brasil em 2013), o escritor assumiu para si, como objetivo de sua vida a educação dos camponeses. "Como os populistas, Tolstói começou a ver os camponeses como a melhor das classes sociais da Rússia e o futuro do país, e quando a servidão foi por fim abolida ele se lançou à tarefa de ensinar as crianças camponesas a ler e escrever(Bartlett,2013, p. 20).

Para além de um mero projeto educacional tradicional, Tolstói vai desenvolver ali seu próprio sistema de ensino, sua pedagogia libertária, com uma nova prática de educação, como expressão de sua forma de ver o mundo e os homens, o que irá se consolidar em um determinado período de sua maturidade.
O povo russo, em especial os camponeses, viviam ainda o sistema de servidão, ou seja, em um sistema no qual não haviam qualquer direitos e a educação não fazia parte de suas vidas:

Na década de 1850, menos de 6% da população rural era alfabetizada. Nas regiões rurais não existiam escolas públicas, nem mesmo no nível primário ou fundamental, e a pouca instrução que havia- oferecida por algum padre de vilarejo ou um soldado reformado ( aprender a ler e escrever estava entre os poucos benefícios do serviço militar)- era primitiva e paga. Os professores ensinavam de maneira mecânica e pouco imaginativa, sem incentivar o pensamento, a aplicavam punições corporais. Os senhores proprietários de terras não tinham a obrigação de educar seus servos, e em um país onde os camponeses eram tratados como espécie subumana, não surpreende que poucos o fizessem( Bartlett, p. 186)

A principio a iniciativa de Tolstoi foi vista com desconfiança pelos camponeses pois lhes era oferecido pela primeira vez ensino gratuíto(Tolstói custeava tudo), mas em 1860 a escola de Iasnáia Poliana já alcançava o número de 50 alunos: meninos, meninas e alguns adultos. Segundo Bartlett(2013) “ a principal missão de Tolstói como educador era introduzir a liberdade na experiência de aprendizagem: seus alunos tinham permissão para frequentar as aulas quando bem quisessem, e não havia castigos físicos” ( Bartlett, p. 185)

Ele elaborou também um sólido programa curricular com doze matérias, mas dava importância a flexibilidade, de modo que o professor se adequasse às necessidades de seus alunos, e não o contrário. Além das escolas Tolstói empreendeu um importante trabalho complementar com a elaboração de Cartilhas e livros de leitura para alfabetizar as crianças camponesas.

Ainda segundo Bartlett:

Foi a escola de Iásnaia Poliana que deu a Tolstói uma noção daquilo que o escritor julgava ser sua verdadeira vocação, uma vez que foi somente quando ele executou medidas práticas para redimir a enorme dívida da Rússia para com seu campesinato ignorante e incivilizado que a voz de sua consciência se apaziguou. Com o passar do tempo ele percebeu que seu destino era nadar contra a corrente, mas agora estava começando a se sentir mais confortável consigo mesmo(Bartlett, 2013, p. 185).

O trabalho pedagógico entre os camponeses avançou para além da fazenda Iásnaia Poliana. Utilizando seu cargo de Juiz de Paz, no outono de 1861, Tolstói já havia aberto mais 21 escolas rurais, todas funcionando a pleno vapor conforme seus fundamentos e princípios libertários. Muitas destas escolas eram  improvisadas em cabanas, em muitas delas não haviam mesas nem quadros,  mas as paredes eram tão sujas que se podia escrever nelas com giz, pois eram verdadeiros quadros-negros(Bartlett, p. 191).



Iásnaia Poliana, a propriedade rural de Tolstói que transformou-se em escola rural para camponeses

Os professores eram padres, mas haviam muitos ex-universitários que precisavam de emprego, principalmente depois das reformas no ensino universitário que aumentou enormemente as taxas dos cursos tornando-os impossíveis para muitos estudantes, levando a um aumento do número de expulsões das Universidades. Cada estudante-professor recebia 10 copeques por mês e mais um honorário por contribuição a revista Iásnaia Poliana, outra criação pioneira de Tólstoi.

A revista, criada em 1862 teve 11 edições, era composta por artigos dos professores e principalmente de Tolstói. Na primeira edição ele fez um relato do cotidiano da Escola Iásnaia Poliana no qual deixa muito claro sua visão de educação livre e o método aplicado no ensino no contexto de realidade específica dos camponeses:

Ninguém traz consigo alguma coisa, nem livros nem cadernos. Nenhum aluno é obrigado a fazer dever de casa. Além de virem de mãos vazias, os alunos não são obrigados a decorar lições, sequer a aula do dia anterior. Eles não se atormentam com o pensamento da tarefa por fazer. Trazem apenas a si mesmos, sua natureza receptiva, e a certeza de que hoje a escola será tão alegre quanto ontem[...] Ninguém jamais é repreendido por se atrasar. Eles se sentam onde querem: bancos, mesas, peitoris das janelas, poltronas. O horário prevê quatro aulas antes do jantar, que às vezes na prática se tornam três ou duas, e que podem ser sobre assuntos bastante diferentes[...] Na minha opinião essa desordem externa é útil e necessária, por mais estranha e inconveniente que possa parecer ao professor […] De inicio essa desordem, ou ordem livre, nos assusta, porque fomos educados de outras maneiras e estamos acostumados a algo diferente. Em segundo lugar, neste como em muitos casos semelhantes, a coerção só é usada por causa de pressa ou falta de respeito pela natureza humana[...] ( Tolstói, op.cit Bartlett, 2013, p. 192)

Além dos relatos do cotidiano da escola, Tolstói escrevia extensos artigos sobre seus métodos, com argumentos críticos ao sistema europeu de ensino que continha falhas e era impraticável na Rússia. As edições da revista eram acompanhadas de suplementos de leitura para crianças, contendo historias esritas pelos próprios alunos ou comentados pelos professores, assim como breves artigo, redigidos em linguagem clara e simplificada sobre temas históricos.

Segundo Bartlett, “Tolstói investiu uma enorme quantidade de tempo e esforço em suas escolas e amava seus alunos camponeses”. Nos anos de 1874 e 1875 Tolstói havia deixado de lado até mesmo sua produção literária de romances e se voltado totalmente para a educação, elaborando as novas cartilhas e assumindo pessoalmente a direção de 70 escolas em seu distrito(Bartlett, p. 298).

A partir dessa experiência educacional libertária e das transformações ocorridas no seu pensamento a cerca da religião, Tólstói romperá com a igreja ortodoxa russa e construirá sua própria interpretação do cristianismo, vinculando-o a uma ideia de liberdade que o aproxima fortemente do pensamento anarquista. Em uma anotação em seu diário Tólstoi escreveu “ A Igreja, desde o século III até os dias de hoje, não passa de uma longa fieira de mentiras, crueldade e decepção”(Bartlett, p. 350). Em 22 de fevereiro de 1901, o Santo Sínodo da Igreja Ortodoxa pronuncia a excomunhão de Tolstói. Segundo Préposiet em seu “A história do Anarquismo”, esta sansão provocou uma onda de protestos por todo o país. Em Moscou os estudantes organizaram manifestações que a polícia teve de dispersar( Prèposiet, 2007, p. 286) .



Suas novas concepções tem reflexo em sua via, convencido de que ninguém deve depender do trabalho alheio passou a limpar seus aposentos, lavrar o campo e produzir as próprias roupas e botas. Suas ideias comeram a atrair um séquito de seguidores, que se denominavam "tolstoianos". Decidiu abrir mão de receber os direitos autorais dos livros que viria a escrever, só voltou a querer utilizar o dinheiro quando precisou angariar fundos para transportar para o Canadá comunidade de camponeses perseguidos pelo governo. Com a divulgação de sua nova doutrina cristã, começam a surgir diversas colonias Toltoístas, que procuram colocar em prática o modo de vida de Tolstói.

A forte relação de Tolstói com o ideário anarquista que o tornou conhecido como um cristão-anarquista foi discutido e analisado por importantes historiadores do anarquismo como George Woodcock no seu livro “História das ideias e movimentos anarquistas”, onde o autor afirma que :

Um exame das ideias e ensinamentos de Tolstói nos últimos trinta anos de sua vida e das tendências maldisfarçadas dos grandes romances que escreveu antes de sua conversão deixam poucas dúvidas sobre a verdade que contém. Tolstói não chamava a si mesmo de anarquista, porque aplicava esse termo àqueles que desejavam transformar a sociedade utilizando métodos violentos; preferia considerar-se um cristão literal. Mesmo assim, não ficou totalmente descontente quando, em 1900, ao escrever uma pesquisa pioneira sobre várias correntes do pensamento anarquista, o sábio alemão Paul Eltzbacher nela incluiu suas ideias, demonstrando que, embora repudiasse a violência, sua doutrina básica e principalmente sua rejeição ao Estado e à propriedade seguiam as linhas gerais do padrão anarquista( Woodcock, 2002, p. 251).

É o mesmo Woodcock que destaca as influências que o anarquismo teve sobre Tolstói apartir do seu acesso as obras de Proudhon e o encontro dos dois em 1862, durante uma viagem de do escritor russo à Bruxelas. Na ocasião, afirma Woodcoock, “falaram de educação-uma das grandes preocupações de Tolstói na época, e mais tarde ele lembraria de Proudhon como sendo “o único homem do nosso tempo capaz de entender a importância do ensino público e da máquina impressora(Woodcoock, p.253).
O que permite o adjetivo de anarquista ou libertário dado ao escritor está no fato de que em suas obras literárias e suas crenças, mesmo que mantenha um caráter religioso, assim como sua visão sobre o mundo e os homens, é possível encontrar convergências e identidade com o pensamento anarquista, conforme Woodcoock:

Um dos aspectos principais da doutrina social de Tolstói é sua rejeição ao Estado, mas igualmente importante é o seu repúdio à propriedade. Na verdade, ele considera ambas interdependentes. A propriedade é o domínio de alguns homens sobre os outros, e o Estado existe para garantir a perpetuação das relações de propriedade. Portanto, ambos devem ser abolidos, para que os homens possam viver livremente, sem dominação, num estado de comunidade e de mútua paz que é o verdadeiro Reino de Deus na Terra( Woodcoock, 2002, p. 262)

Ou seja, a identidade das doutrinas de Tolstóis com os libertários é de uma profunda convergencia de significados e propósitos o que contribuirá para a construção do seu projeto pedagógico libertário. Essa aproximação não se dá apenas nas influências de leituras, conforme Tina Tomassi, no seu “Breviário do Pensamento Educativo Libertário” demonstra ao relatar que Tolstói não teve dúvida em colocar sua assinatura no “Manifesto pela liberdade de ensino” formulado em 1868 pelos “grupos de iniciativa pelas escolas libertárias” que tinham como participantes ilustres militantes do anarquismo internacional como Kropoktin, Elisé Reclus e Jean Grave. Tolstói, segundo Tomassi, manterá ainda correspondência com expoentes do movimento anarquista e aprovará as resoluções de seus congressos(Tomassi, 1988, p. 141).


Tolstói em seu escritório

O pesquisador francês da edução libertária Michel Antony em seu “Os Microcosmos, experiências utópicas libertárias”, da Editora Imaginário, tradução de Plínio Augusto Coelho, destacará também a influência marcante que Tolstói teve em sua experiência educacional de nomes como Proudhon, Rousseau, Pestalozzi e Froebel. Dessa forma a escola para ele deveria adquirir outro significado dietralmente oposto da escola tradicional,

[...]uma escola fundada na experimentação e na liberdade(de escolha, de ritmo), e privilegia a instrução à educação, pois, para ele, a segunda via busca formar, modelar, enquanto a instrução visa ajudar ao desenvolvimento pessoal fornecendo elementos que cada aprendiz vai apropriar-se, segundo seu ritmo, suas necessidades e suas próprias crenças ou sua própria moral( Antony, 2011, p. 83)

Da mesma forma, autores como Filippo Trasatti em seu livro “Actualidade de la Pedagogia Libertária” destaca o inicio da persepção de Tolstói acerca da necessida de de um novo modelo de educação que supere as deficiências e o impacto negativo nas crianças do ensino predominante tanto na Rússia como na Europa em seu conjunto:

Apartir da observação das escolas da Rússia, mas também na Europa, da tristeza cotidiana dos alunos, chega a conclusão de que há algo profundamente equivocado no método empregado e na estrutura. A escola, em certa maneira, mata a vida de onde surgem as demandas essenciais que suscitam a necessidade de educação. Tolstói, observador profético, afirma que se está realizando o intento de “mecanização da instrução”, de maneira que as pessoas, tanto os professores como os alunos, sejam substituíveis e que o método siga sendo o mesmo( Trassatti, 2004, p.178)

O processo se desenvolve na prática, Tólstoi vai construindo sua metodologia de ensino com uma escola diferente das tradicionais, com uma dinâmica inovadora em relação ao processo de aprendizagem com crianças, jovens e mesmo adultos camponeses:

A escola é gratuíta e os filhos dos camponeses chegam pela manhã desde suas casas, bem abrigados. Apenas entram, é evidente que se acham em outro mundo: um mundo em que as crianças e os jovens não só tem direitos, são escutados, encontram estímulos culturais vivos, mas sim que estão de acordo com o professor que, como alternativa, não usa nenhuma coerção sobre eles( Trassatti, p.178).

Na educação libertária de Tolstói encontramos uma relação entre professor e aluno baseada em processos de construção do conhecimento sem dominação, coerção ou hierarquia, o que não significa diminuir ou eliminar o papel do professor. Ao contrário, o papel do professor segue sendo fundamental, em primeiro lugar é central a relação direta entre professor e aluno; em segundo lugar porque com sua atividade o professor pode se converter em facilitador e catalizador dos processos de aprendizagem.

Para Tolstói, como bem afirma Trassatti(2004), a educação tradicional e predominante é uma forma de opressão, é a negação da liberdade do outro e a imposição de modelos, concepções , modos de viver que dirigem as crianças para um caminho, uma via decidida por outros anteriormente. A partir desse diagnóstico a ideia de uma educação baseada na liberdade é efetivada em processos, dinâmicas que rompem com as regras e restrições que estão acima e além da relação com a prática e a vida espontânea do estudante.

Tolstói junto a professores em encontro realizado em Moscou já nos últimos anos de vida.



Sobre essa nova dinâmica, Antony destaca o perfil do processo educativo proposto por Tolstói:

Programas, notas, castigos, disciplinas etc. são proscritos. O melhor método parece ser a ausência de método, adotado como dogma. De fato, dever-se-ia dizer que cada método é bom se ele respeita o aprendiz. Portanto, um pragmatismo, adaptado a cada condição pessoal ou local perticular, é proposto com modéstia por Tolstói. O ensino deve ser lúdico, atrativo, e partir antes de tudo das necessidades das crianças e da realidade de suas vidas( o que explica parcialmente seu famoso conceito de escola da vida) ( Abtony, 2011, p. 83)

É ainda, nas palavras de Trassatti, “o caminho empreendido por Tolstói que, além da fama conquistada por ele como escritor, moralista e anarquista, converterá sua pedagogia em ponto de referência essencial em todas as experiências de escolas libertárias nos séculos XIX e XX”(Trassatti,p. 180). O lugar conquistado pelo pioneirismo de Tólstoi na educação lbertária é salientado, da mesma forma por Antony(2011) ao afirmar que “com o anarquista cristão Tolstói, assistimos, assim, à primeira importante experiência pedagógica libertária”. E ainda,

Com Tolstói, a criança é, portanto, valorizada, considerada pelo que é, um ser autônomo a ser respeitado e compreendido. Isso significa a absoluta necessidade, para todo educador libertário, de não ocultar sua própria infância, assumi-la, ao contrário, para estar em melhor diapasão com novas vidas que ele tem por tarefa ajudar a formar(Antony, 2011, p. 84)


Trassati(2004) conclui descrevendo o que ele chama de um breve “catecismo” da Educação libertária de Tolstói para os professores, resumido em três questões fundamentais e suas respectivas respostas:

1) É necessário para ensinar a adesão voluntária do aluno? Sim, e para fazê-lo é necessário suscitar o interesse vivo do aluno, ou seja, ganhá-lo com o que temos a dizer.

2) Como e o que se deve ensinar? Tudo pode ser ensinado, mas o centro do ensino está no aluno com suas necessidades, seus ritmos e suas capacidades.

3) Professor não é aquele que sabe, mas sim aquele que ama o que faz com seus alunos(Trassatti, 2004, p. 180)

Essas questões constituem uma síntese do projeto pedagógico libertário que o escritor russo buscou construir, em um contexto histórico de extrema dificuldade, pois não podemos esquecer que nesse período a Rússia vivia ainda sob o domínio da monarquia tzarista. O intento pedagógico de Tolstói somente foi possível pelo enorme reconhecimento e admiração mundial que obteve não só como gênio da literatura mas como sábio e homem de ação, fato que muitos historiadores reconhecerão no papel fundamental de Tolstói na construção do espirito revolucionário do povo russo que o levaria a grande revolução que derrubou a dinastia tzarista.


As Obras pedagógicas de Tólstói


Tostói manteve até o final da vida um enorme vigor intelectual, escrevendo sobre religião, política, educação bem como reflexões sobre o mundo em que vivia e suas utopias de um mundo de paz e fraternidade.



Ao mesmo tempo que realizava sua experimentação prática de educação libertária em Iásnaia Poliana, Tolstói manteve uma profícua produção teórica sobre educação.

Segundo Bartlett, em janeiro de 1874 Tolstói teve a oportunidade de defender suas ideias pedagógicas perante o Comitê Literário de Moscou, que aceitou sua proposta de realizar um experimento comparando seus métodos pedagógicos aos procedimentos adotados pela rede oficial de ensino. Tão logo os resultados da experiência foram considerados inconclusos, ele publicou, no respeitável periódico “Notas da pátria”, que contava com grande público leitor, uma profession de fé de cinquenta páginas acerca de seus métodos, o que por fim suscitou um amplo debate público. “Sobre educação popular” é o sincero manifesto pegagógico de Tólstoi”( Bartlett, 2013, p. 256):

Nele, Tolstói discute com extraordinária quantidade de detalhes suas ideias pedagógicas e demostra profundo conhecimento da educação disponivel em sua região. Ele resumiu assim as falhas da educação elementar na Rússia: 1) falta de conhecimento do povo; 2. fascínio por ensinar coisas que os alunos já sabem; 3) a tendência de emular os alemães; 4) a crítica aos velhos princípios sem o estabelecimento de novos”. Tolstói tinha ideias fortes acerca de como as crianças russas deviam ser ensinadas a formar letras e silabas, e argumentava com veemência que o método fonético adotado a partir do modelo alemão não era praticável na Rússia, e certamente não era adequado para os despossuídos camponeses russos. Em certo sentido, Tolstói estava à frente de seu tempo, na medida em que defendia o que mais tarde viria a se tornar um axioma na educação remedial do século XXI( Bartlett, 2013, p. 257)

Todavia, da mesma forma que temos uma enorme defasagem de publicações em português acerca do pensamento pedagógico libertário em geral as obras de Tólstoi nessa área também praticamente inexistem no Brasil. Continuamos sem ter acesso a essa contribuição fundamental para a educação que são as obras pedagógicas de Léon Tólstói, produzidas a mais de um Século.
As excessões são as fundamentais publicações da Editora Imaginário que, diga-se, está programando novos lançamentos dos escritos pedagógicos de Tolstói para este ano.

No seu  "Breviário del Pensamiento educativo libertário", Tina Tomassi, informa ainda sobre referências bibliográficas que a maioria dos escritos pedagógicos de Tolstoi estão nos volumes XII e XIV das Obras completas, Editados na França em 1905. Sobre Tolstói educador, Tomassi, cita as obras de G. Vitali, Tolstoi Pedagogista, Palermo, 1915; C. Baudouin, Tolstói Educateur, Paris, 1921; L. de Castro, Tolstói maestro elementare, Roma, 1929; P. Alberti, “Il problema educativo nel pensiero di Leone Tolstói, Teoresi, 1964; Giuseppe Calogero, Pedagogia Nuova di Tolstói, Reggio Calabria, 1952”. Toda essa fundamental bibliografia permanece infelizmente ainda inacessivel para os atuais educadores e estudantes brasileiros.

As mais recentes biografias de Tólstoi (lançadas no Brasil em 2013)contam sua vida, mas com pouco aprofundamento sobre a rica experiência pedagógica libertária construída em Iásnaia Poliana.


Da morte para a eternidade






Os últimos anos de vida de Tolstói foram marcados por profundos conflitos com suas esposa Sônia com quem era casado ha 48 anos. Sônia de origem aristocrática como Tóstói nunca aceitou as novas doutrinas anarco-cristãs de Tolstói. O ápice do conflito se deu quando ele redige um testamento em que entregava para domínio público todas as suas obras escritas após 1881 e cedia seus manuscritos a Tcherkóv, seu fiel amigo e editor de suas obras.

Depois de 48 anos casada com Tolstói, ocupando o posto de pessoa mais importante da vida do escritor, agora era insuportável ouvir o marido dizer que a pessoa mais próxima dele era Tcherkóv. Sônia não se comportou bem nos últimos meses de vida do grande escritor, e inúmeros médicos diagnosticaram paranoia e histeria, mas ela não estava com transtornos mentais. Simplesmente estava fora de controle, usurpada e desesperada. Temia a pobreza e temia ver seu nome denegrido( Bartlett, p. 594).

Vivendo uma situação insuportável com sua esposa e após descobrir que Sônia havia vasculhado seu escritório, na madrugada de 28 de outubro de 1910, aos 82 anos, Tolstói decide fugir de casa. Conforme Bartlett “havia muito ele ansiava ir embora, a pé, levando consigo algumas roupas numa mochila, como um andarilho”. Junto com seu médico Dr. Makovicky e sua filha Sacha, Tólstói embarca em um trem em direção ao sul da Rússia, entretanto, com a saúde muito frágil adoece no meio do caminho e desce no vilarejo de Astópovo, sendo acolhido pelo agente da estação ferroviária que o leva para sua casa. Dez dias após sua fuga em 7 de novembro de 1910, em meio ao frenesi de populares e imprensa Tolstói vem a falecer.

O filme "A última estação" de Michael Hofmann de 2009, conta a história da fuga e últimos dias de Tolstói. 






Segundo Bartlett “Sônia só teve permissão para ver o marido depois de ele perder a consciência”. Não houve conciliação com a igreja, todas as tentativas que tentaram fazer para reconciliá-lo com a igreja foi em vão. O padre que foi enviado ao local ficou do lado de fora, Tolstói não recebeu a extrema-unção e foi enterrado em 9 de novembro.

Quando o caixão de Tolstói chegou a Iàsnaia Poliana foi recebido por mais de 5 mil pessoas, um multidão, eram camponeses, aristocratas, intelectuais, operários, velhos, jovens, crianças. Dois camponeses locais trouxeram uma faixa em que pintaram a seguinte inscrição “Liev Nikoláievich! A memória da sua bondade não irá morrer entre os camponeses órfãos de Iásnaia Poliana”.

Filme com cenas inéditas de Tolstói em 1908, quando estava com 80 anos de idade e de seu funeral.






Iásnaia Poliana hoje: Imediatamente após a morte de Tolstói, sua fazenda Iásnaia Poliana, onde desenvolveu sua experiência educativa libertária que seria conhecida em todo o mundo, foi transformada em museu. A última filha de Tolstói, Aleksandra Tolstáya, foi a primeira diretora do museu. O diretor atual do museu também é um descendente de Tolstói. O museu contém os móveis pessoais de Tolstói, junto com sua biblioteca de 22.000 volumes. Foi aí onde Tolstói escreveu seus livros celebrados Guerra e Paz e Ana Karenina e seus escritos pedagógicos.


Independente dos adjetivos que foram colocados em Tolstói, cristão, livre-pensador, religioso, anarquista, o mais importante como legado deixado para as gerações futuras foi sua atitude libertária de  realizar aquilo que acreditava, que no seu caso eram as possibilidades da liberdade e da emancipação humana. Uma das lições fundamentais para toda e qualquer ação pedagógica que se pretenda libertária.



Referências:

ANTONY, Michel. Os microcosmos. Experiências utópicas libertárias. Sobretudo Pedagógicas: “utupedagogias”, Trad. Plinio Augusto Coelho. São Paulo, Editora Imaginário, 2011.

BARTLETT, Rosamund. Tolstoi a biografia, Trad. Renato Marques, São Paulo, Globo, 2013.

PRÈPOSIET, Jean. História do anarquismo. Lisboa, Edições 70, 2007.

TOMASSI, Tina. Breviário del pensamiento educativo libertário. Madrid, ediciones Madre Tierra, 1988.

TRASATTI, Filippo. Actualidade de la Pedagogia Libertaria. Madrid, Editorial Popular, 2004.


WOODCOCK, George. História das ideias e movimentos anarquistas, Vol. 1 . A Ideia. Porto Alegre, L&PM Pocket, 2002.  

domingo, 4 de maio de 2014

A pedagogia Libertária para romper com o falso princípio da nossa educação

(Livro que recebi essa semana do amigo Plínio Coelho e socializo neste post para divulgação e estudo)

Existem obras que se destacam pela riqueza de conteúdo em detrimento do tamanho da obra. Esse é o caso do pequeno grande ensaio “O falso princípio da educação” de Max Stirner, publicado no Brasil em 2001, pela Editora Imaginário, do grande  Plínio Augusto Coelho, um dos maiores divulgadores do pensamento libertário no Brasil, cuja tradução é de sua responsabilidade também.

A obra é parte da coleção “Pedagogia Libertária”, organizada pela Editora Imaginário, sob coordenação de Maria Oly Pey, no qual foram lançados ainda outros títulos de grande valor como a Coletânia “ Pedagogia Libertária” com artigos de Josefa Matín Luengo, Encarnación Garrido Monteiro, Maria Ely Pey e Guilherme Corrêa e “Corpos dóceis, mentes vazias, corações frios: Didática. Discurso científico do disciplinamento”, de Ierecê Rego Beltrão.

O livro “O falso princípio da Educação” , traz o ensaio com o mesmo título, de Max Stirner e um prólogo de Christina Ferrer sobre a vida e obra do autor: “Max Stirner, autor de um único livro” e a Introdução de Jean Barré com o titulo de “Da Educação”, que aborda o contexto e o alcance dessa contribuição de Stirner para a educação libertária.

O livro inicia com a apresentação da Coleção Pedagogia Libertária, realizada por Maria Oly Pey, organizadora da mesma, que reproduzimos aqui, principalmente por ser um rico texto de grande clareza, que faz uma síntese muito bem construída a cerca da significado da Pedagogia Libertária de raiz anarquista, e o necessário conhecimento que se faz necessário para os educadores da atualidade, sobre os limites e possibilidades de uma educação da e para a liberdade.


Apresentação da Coleção Pedagogia Libertária, por Maria Oly Pey


Não é comum encontrar análises sobre pedagogia libertária nos compêndios que abordam assuntos de educação. Isso colabora para um relativo desconhecimento sobre o tema. Os pedagogos em formação ou já formados academicamente obtêm referências teóricas sobre pedagogias tituladas como tradicional, escolanovista, crítico-social dos conteúdos, libertadora, mas as poucas alusões feitas à pedagogia libertária a vincula a um laissez-faire pouco atraente à maioria dos educadores.

Assim como as demais, a pedagogia libertária tem uma história cujos valores norteiam seus enunciados, que se constituem em uma política de verdade que fala sobre educação.

A história da Pedagogia Libertária se mistura com a história de outras alternativas pedagógicas não-autoritárias. Entre essas é possível mencionar a tradição liberadora, inspirada em Wilhem Reich, interessado no fenômeno da repressão sexual. O seu ideário radical anti-autoritário vai influenciar práticas alternativas famosas e existentes até hoje. Entre elas há a Escola Summerhill, orientada pela família Neill, na Inglaterra, bem como inúmeras experiências vinculadas a essa e outras tradições.
A tradição à qual começo me referindo é a que tem sua gênese no anarquismo, cuja história pode ser contextualizada no Brasil.

O anarquismo, enquanto doutrina político-social, expressada no bojo das discussões célebre entre Marx e Bakunin, na Primeira Internacional, na Europa, teve um curto período de efervescência no Brasil. Trazido no século XIX pelos imigrantes, difundido através de numerosos periódicos e outras iniciativas sócio-culturais, teve seu silenciamento definido pela repressão às suas ideias nas décadas de 20 e 30 deste século.

Entre essas iniciativas sócio-culturais, as educativas encontraram seus lugar em práticas pedagógicas radicalmente diferenciadas daquelas da época. Onde e quando a religião funcionasse como exercício de poder, de submetimento, a pedagogia anarquista foi anticlerical. Onde e quando a organização política e a representação parlamentar constituíssem mais uma armadilha do abuso da elite jurídico-parlamentar no poder, a pedagogia anarquista foi anti-estatal. Onde e quando trabalho representasse a exploração das energias de muitos em favor de privilégios para poucos, a pedagogia anarquista rebelou-se contra o trabalho assalariado. Onde e quando uma determinada moral fizesse funcionar esquemas repressivos das vontades soberanas, a pedagogia anarquista foi amoral. Em síntese: a pedagogia anarquista tem mantido suas balizas nun ideário não hierarquizante.

Entre essas iniciativas educacionais esteve a manutenção de espaços culturais designados pelos militantes anarquistas por escolas, mas que pouco lembram a instituição escolar regular com que estamos familiarizados, ou seja, a escola pública estatal, ou privada confessional, ou ainda empresarial.

O que distingue e separa o ambiente institucional da escola regular e os ambientes educacionais dos anarquistas é justamente a não institucionalização de tudo o que uma escola regular requer para existir.

As escolas requerem obrigatoriamente, programas e rotinas previstas e determinadas, professores especialistas para conduzir o ensino, distribuição dos frequentadores por níveis de adiantamento, sistemas de avaliação e correspondente emissão de certificado.

As chamadas escolas anarquistas, e especialmente os centros de cultura e universidades livres, não possuíam vários destes atributos, ou seja, não mantinham frequência obrigatória, não tinham programas ou atividades fixas que devessem ser repetidas nas mesmas doses para todos os seus alunos, dispunham de pessoas com autoridade meramente funcional e provisória para desenvolver aulas, não se preocupavam em definir níveis de adiantamento e enquadrar os alunos dentro deles, e muito menos separar aprovados que merecessem certificação dos não aceitos.

Portanto, a tradição anarquista é muito mais a da promoção da educação pela auto-formação em coletivos educativos, do que a formação escolar organizada, por lei, em agrupamentos compulsórios mantidos por interesses de prestígio, obtido através da titulação, e econômicos, em função de acesso ao trabalho assalariado.

Relativizada a ideia de que pedagogias libertárias têm necessariamente que se realizar numa prática escolar regular, é possível admitir uma certa coerência entre os valores de liberdade, solidariedade e apoio mútuo libertários que essa pedagogia pretende desenvolver, e a sua possível realização em coletivos educativos não institucionalizados.

Estes valores, que balizam o desafio libertário de educação, são amplamente explicitados pelos ideólogos do anarquismo, desde os clássicos, como Proudhon, Godwin, Bakunin, Kropoktin e Malatesta, até os contemporâneos, como Castoriadis, Bookchin e Chomsky, entre outros.

Os discursos pedagógicos oriundos desta tradição, desde Ferrer y Guardia, Paul Robin e Sébastien Faure, e tantos outros pedagogos libertários do final só século passado e início deste, representam, para a época em que aconteceram, as rupturas possíveis com o pensamento pedagógico vigente no que se refere a organização e relações, o que de certa forma caracterizou e caracteriza outras perspectivas anti-autoritárias.

As rupturas produzidas pela educação libertária representam, num primeiro momento, a contraposição, da ótica da educação confessional com a educação laica, e a contraposição da educação estatal com a da popular.

Com base em elaborações teóricas de Foulcault, Deleuze e Illich, entre outros, na realidade atual e nas condições de possibilidade ontemporâneas, pensar outra lógica para o intento educativo, que não a escolar, é experimentar-se, invertendo a lógica da ordem estabelecida, e aproximar-se das perspectivas libertárias de realidade possível.

Assim sendo, numa perspectiva libertária contemporânea, a escolarização pode ser analisada enquanto dispositivo de poder em funcionamento, repetindo até à exaustão rotinas de pensamento e de ação que atualizam normas e leis que só permitem pensar dentro do até então pensado, e agir nos limites do até então realizado.

Nesse sentido, a escola regular consagra com suas práticas um regime de verdade no qual a liberdade é liberdade para cumprir a Lei, seja a de Deus, do Estado ou da normalidade, tênue linha que separa, para o especialista, o comportamento normal do anormal. A partir daí, a igualdade só existe perante a leis, que por si só são injustas; e o apoio mútuo é um artifício do qual o interesse se vale para o exercício da competição econômica, social e/ou política.

Deste ponto de vista anarquista, os valores de liberdade, igualdade e solidariedade que a escola regular vive, estão dentro de uma ordem hierárquica cuja lógica é desenvolvida por aqueles que não a determinam. O que a escola regular faz, entre outras instituições modernas, é atualizar esta hierarquia nos mínimos detalhes, ou seja, proceder à naturalização da lógica da Lei, do cumprimento das regras do jogo social, da ordem hierárquica. Dizendo de outra maneira, a escola regular participa da institucionalização da cabeça dos escolares, enquanto faz educandos pensarem e agirem por padrões e normas hierárquicos, que podem ser modificados dentro da mesma lógica, mas jamais suspensos.

Ao se fazer essa crítica radical, aponta-se para outras possibilidades educativas, nas quais a regra desapareça para que o desejo flua. Esta é a pretensão desta Coleção de Pedagogia Libertária que a Imaginário lança no Brasil: apresentar ao público leitor limites e possibilidades de pensamentos e práticas libertárias atuais em educação, sem furtar-se também à sua severa crítica, ou seja, dar lugar ao instituinte em matéria de educação.

O mais importante que uma pedagogia libertária possa pretender é desnaturalizar a Lei, seja ela religiosa, moral, jurídica, parlamentar ou científica. No âmbito dos saberes, implica contar a história da norma, regra ou lei, ou seja, como e por que determinados procedimentos adquiriram o estatuto de lei. No âmbito dos fazeres, tentar construir espaços de liberdade, vivendo outras lógicas, inventando a vida. Nisso estamos comprometidos ao publicar essa coleção.

É possível fazer um inventário minucioso das hierarquias que as instituições fazem funcionar, mas, de maneira geral, pode-se categorizá-las em hierarquias: nas relações interpessoais, com relação ao conhecimento e no âmbito da organização.

Modernamente, a naturalização destas hierarquias como lei na escola e pela escola vem “enformando” escolares, subjetividades dóceis a organizações políticas de dominação, úteis a organizações econômicas de exploração e dependentes o suficiente para se submeterem voluntariamente aos apelos do mercado voltado ao consumo de necessidades produzidas por especialistas. Nestas subjetividades vislumbram-se máscaras de apatia nas relações afetivas, depressão no ambiente social, estresse no trabalho e indiferença para com o político.


Apostamos que o exercício educativo da auto-organização e da auto-formação coletivas, bem como a autonomia individual, possam romper com a produção de subjetividades institucionalizadas e abrir espaços para o desejo de competência e paixão na arte de construir felicidade.  

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