terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Revista Educação Libertária




A Revista Educação Libertária, criada pela Editora Imaginário é uma iniciativa de enorme valor  para a divulgação da teoria e prática, histórica e contemporânea da  educação libertária. A Editora lançará neste ano de 2014 as edições de número 2 e 3.

Abaixo transcrevemos a apresentação da revista feita pela Editora Imaginário:

Em 1990 a Editora Imaginário publicou sua primeira obra concernente à Educação Libertária. De 1990 à hoje, foram publicadas doze obras relativas ao tema.

Além das Edições a Imaginário engajou-se na organização de Colóquios Internacionais, em especial o Colóquio Internacional de Educação Libertária realizado em São Paulo e no Rio de Janeiro em 2007 em parceria com o IEL-Instituto de Estudos Libertários.

É mister ressaltar que desde a criação do IEL, tivemos, Imaginário e IEL , a preocupação de erguer a bandeira da luta em prol da difusão do ideal libertário, em particular, alargando caminhos a serem trilhados para a construção de uma "Educação emancipadora", no sentido pelloutiano. E, nisso, convenhamos, quem mais do que os libertários tem a oferecer um passado extremamente rico em teoria e experimentações nos quatro cantos do mundo?

Resgatar, tornar conhecidas as teorias e práticas libertárias em educação é absolutamente fundamental para servir de reflexão e ferramenta à construção de uma educação que contemple, a um só tempo, a autonomia da esmagadora parcela da classe trabalhadora e a conscientização da necessidade de combater as forças domesticadoras do Estado e do Capital. 

A retomada da Educação libertária concorre para esses objetivos.( texto da orelha da Revista)

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Lançamentos de obras sobre Educação Libertária da Editora Imaginário em 2014

A Editora Imaginário é atualmente a principal editora brasileira de livros libertários no Brasil. Responsável pela edição de obras clássicas e contemporânea do pensamento anarquista nas mais diferentes áreas como sociologia, filosofia, educação, história, antropologia, psicologia, literatura.

Ao completar 30 anos em 2014,  a Editora  Imaginário está programando uma série de lançamentos inéditos para este ano. No que diz respeito à educação libertária destacamos as seguintes obras:


 Revista Educação Libertária número 2, que traz diversos artigos sobre a temática da Educação: 





Compendio de Educação Libertária de Hugues Lenoir 
Lançamento Março/abril de 2014





Autogestão Pedagógica e Educação Popular: A Contribuição dos anarquistas

Lançamento :Primeiro semestre de 2014



"Mas porque então os anarquistas, mas do que qualquer outra corrente do socialismo, sempre se interessaram pela educação? Este curto texto propõe-se a trazer, não uma resposta exaustiva, mas alguns elementos de reflexão relativa a essa questão central nas práticas e teorizações libertárias.

A primeira razão desse interesse permanente é a inscrição do movimento libertário numa tradição humanista radical e filosófica na filiação de Rabelais, Montaigne, Rousseau, Pestalozi, Condorcet, Godwin..., na sequencia por uma reflexão educacional engajada por Fourier, Considerent, Le français etc...o que teve como consequencia direta que a maioria dos teóricos anarquistas interessou-se pela educação e produziu em relação a ela algumas reflexões como fizeram Proudhon, de início, depois Bakunin, Kropoktin, Reclus e muitos outros. Tradição intelectual e revolucionária que deu lugar a fortes reflexões  pedagógicas tais como aquelas de Guillaume, Pelloutier, Thieri, Robin, Faure, Ferrer, e as significativas realizações emblemáticas como o orfanato de Cempuis, La Ruche, as Escolas Modernas, ou outras menos conhecidas como as Escolas Libertárias de Hamburgo Ou Lavenir Social animadas por Madeleine Vernet. Tradição e interesse jamais desmentidos e perdura até hoje com a Escola Bonaventure, ha alguns anos, o Liceu Autogerido de Paris(LAP) ou o Dionyversité em Saint Denis Hoje( texto contra-capa do livro)

Escritos Pedagógicos de Sébastien Faure




sábado, 8 de fevereiro de 2014

Sébastien Faure e a Educação Libertária da Colmeia, por Paulo Marques




[...]o corpo, o espírito e o coração da criança para o educador devem ser como um espaço sagrado, jamais desencorajado, por mais rude que seja a tarefa, pois ele tem o dever de limpar, capinar, cavar , semear, arar, transplantar, aparar , podar apoiar, proteger, regar, colher, a fim de que, como responsável por esse jardim, desabrochem as flores perfumadas e amadureçam as frutas saborosas[...]” Sebastién Faure, 1910


Sébastien Faure foi pedagogo, escritor, poeta, jornalista e ativista libertário, um dos grandes pensadores do anarquismo europeu. Foi um continuador das idéias de Paul Robin no campo da educação libertária através da experiência educacional realizada em sua comuna de “La Ruche” (Colmeia). 

Faure nasceu no dia 06 de janeiro de 1858 na ciade de Saint- Etienne, província francesa de Loire. De família burguesa, conservadora , seu pai Auguste Faure, era católico fervoroso, um negociante de seda e partidário do império. Inicia sua educação em um colégio jesuíta, destacando-se por sua inteligência e capacidade de expressão, aos dezessete anos Sebástien foi indicado pela direção do colégio para seguir estudando para ser padre, entrando assim para o seminário na qualidade de noviço. Por um ano e cinco meses foi um noviço exemplar se aprofundando nos estudos de teologia e agarrando-se a fé cristã de forma cega e rigorosamente.

Até que num dia Sébastien recebeu um telegrama dizendo que seu pai estava gravemente doente. Apressou-se para visitá-lo encontrando-o em seu leito de morte. Seu pai disse-lhe que devia deixar a vida religiosa, voltando para sua família que agora precisava dele para auxiliar em seu sustento.

Após a morte de seu Pai, Sébastien Faure voltou para a casa de sua família, abandonando a vida religiosa. Em pouco tempo teve contato com os círculos progressistas do movimento “Livre Pensar” , identificando-se inicialmente com esta filosofia. Mais tarde voltou-se para a política tornando-se membro do partido socialista operário vindo mesmo a se candidatar para deputado nas eleições de 1885. Entretanto, em 1888, abraça o anarquismo como sua filosofia, e segundo Antony(2011) torna-se uma referencia moral enorme para a corrente anarquista: 

Sua posição de “síntese”, entre as diferentes correntes reivindicando o anarquismo é sempre um dos eixos principais dos movimentos “ortodoxos” do anarquismo. Sua sólida cultura adquirida parcialmente entre os jesuítas, permite-lhe escrever profundas críticas da religião, e, sobretudo, adquirir uma visão crítica da educação(Antony, 2011, p. 119). 

Em 1894, Faure torna-se tutor de Sidonie Vaillant após a execução de seu pai, Auguste Vaillant, pelo atentado a bomba que executara contra a câmara de deputados em 9 de dezembro de 1893. Seis meses depois Faure acaba sendo julgado junto com muitos outros anarquistas no julgamento que ficou conhecido como “Processo dos Trinta” ("Procès des trente").

Enquanto parte dos acusados preferiu abandonar o país, Faure junto com Jean Grave, Charles Chatel, Louis Armand Matha e Félix Fénéon foram aos tribunais responder às acusações as quais lhes eram imputadas. Este seria um julgamento histórico em que o anarquismo, mais do que os réus foram colocados em uma posição de culpa.

A imprensa foi proibida de reproduzir os interrogatórios de Jean Grave e Sébastien Faure, levandoochefort a escrever no jornal L' Intransigeant, que a associação criminosa não se referia aos acusados, mas aos magistrados e ministros que os acusavam. Os acusados presentes provaram facilmente sua inocência frente a acusação de "associação criminosa" já que a um bom tempo o movimento anarquista francês havia rejeitado a idéia solo de associação e ação exclusivamente individual.

Em 16 de novembro de 1895, Sébastien Faure passa a re-editar sozinho o famoso periódico semanário Le Libertaire. A partir de agosto de 1899 , é lançado um suplemento “ilustrado” neste mesmo diário.Durante toda sua duração Faure faz questão de lançar o periódico a um preço acessível as classes operárias, nunca ultrapassando o valor de dez centavos.

La Ruche”:   A Educação Libertaria da Colméia



Sebastién Faure e seus colaboradores de La Ruche( A Colméia) 


Assim como Paul Robin, Faure era igualmente adepto de provar pelo exemplo, e dessa forma em 1904, na cidade francesa de Pâtis, ele ocupa 25 hectares com cerca de 20 pessoas, em um local que denomina de “La Ruche” (A Colméia) onde busca aplicar as ideias de Paul Robin sobre Educação Integral e libertária, com algumas modificações mas conservando o essencial delas. 

Conforme Antony(2011) Faure queria criar um meio comunitário, uma microsociedade autenticamente livre, desde o começo da experiência. Dessa forma La Rouche lembrava a grande família desejada por Robin, mas com menos centralidade em torno do líder: 

Faure, tão carismático quanto Robin, tem, contudo, menos peso sobre sua comunidade do que seu modelo. Em todo caso, a vontade utópica de sociedade alternativa, fora de toda a instituição, está mais na linhagem de Ferrer do que naquela de Cempuis, porquanto o Orfanato gerido por Robin era integrado e reconhecido no sistema escolar francês"

Em relação à dinâmica da Escola “Cólmeia”, seu objetivo principal foi desenvolver integralmente a capacidade de cada estudante, a partir dos princípios e concepções da educação integral/Libertária de Bakunin e principalmente de Paul Robin, cuja experiência realizada no Orfanato de Cempuis foi o principal referênca para Faure .





A Colméia, segundo Antony(2011) foi uma especie de falanstério pedagógico, no meio da natureza, com seus locais coletivos, seus jardins e pomares, e suas oficinas( tipografia, encadernação, marcenaria) e casas especializadas, que vivem uma espécie de comunismo autogestionário e de autoprodução. As decisões são tomadas coletivamente, e a assembléia geral, igualitária, reúne-se uma vez por semana, com a presença das crianças maiores( em geral a partir dos 12 anos). 

La Ruche, sobrevive com permanente déficit. Graças aos aportes externos e a renda proporcionada pela atividade de Conferencista de Faure é possível manter a experiência em funcionamento. Como destaca bem Antony(2011) , devemos ter clareza que a dimensão utópica de La Ruche, é bem mais importante que aquela de uma simples experiência pedagógica. Ou como afirma Codello(2007) “ uma comunidade igualitária educativa” , uma “pequena república sem hierarquia nem autoridade constituída que pratica também, mas não só, a educação”.

Em seu apogeu, La Ruche conta com aproximadamente 60 pessoas, das quais duas dezenas de adultos. As crianças tem entre 6 e 16 anos. É rapidamente um sucesso e vai receber em dez anos quase 4 mil pedidos de adesão. Essa “família”, segundo Antony(2011) “vivia praticamente em autogestão em todos os planos”. A Educação é livre, mista e integral. O Ensino profissional é amplamente realizado, aproximando mais das ideias de Proudhon do que de Robin neste aspecto. 

Passetti e Augusto(2008) no seu livro Anarquismo e Educação, em referência a educação praticada em La Ruche afirmam : 


Era preciso coragem para inventar “La Ruche”, uma escola autogestionária, uma “cooperativa integral”, como Faure gostava de chamá-la. Nela, a autonomia da criança era valorizada e oposição à concepção capitalista de criança como adulto em miniatura; estava voltada para fortalecer a coragem dos pequenos(Passetti e Augusto, 2008, p.78)

Crianças educadas em uma perspectiva livre e autogestionária, essa era a proposta de Faure para efetivar uma sociedade povoada de cooperativas integrais, o que ele chamaria de uma ecologia social anarquista(PAssetti, Augusto, 2008). 

Em sua obra L enfants( As crianças) Faure destaca que é de novas ideias, conhecimentos e métodos, processos usados em educação da criança que dependerá , mais tarde a vida intelectual do adulto. Para isso a educação praticada na Cólmeia propunha uma educação integral, onde a cultura física envolvia alimentação sadia e higiênica, acompanhada de exercícios físicos ao ar livre. Em relação à cultura, voltava-se para liberar a criança da escola como prisão, da severidade, do sistema de punição e recompensas, e dissolver a competitividade própria ao agrupamento de crianças em classe; buscava trazer o gosto pelos estudos que deveriam começar com um programa bastante leve, de conhecimentos básicos fundamentais como escrita, leitura, cálculo, primeiras noções de desenho, noções elementares de ciência. Faure pretendia com isso fortalecer a inteligência entendida como capacidade de compreender, memória, imaginação e julgamento. 



Sala de aula na Colméia

Conforme destacaram Passetti e Augusto(2008) , decorria assim, de maneira lógica a aproximação da cultura física e intelectual da cultura moral do estudante formado em meio a muitas conversas voltadas para se aprender a lidar com dificuldades; uma educação própria aos que se associam libertariamente, avessos aos constrangimentos relativo ao sistema de recompensa e punição. 

Para Faure, comentam Passetti e Augusto(2008), a criança é o efeito do meio em que ela vive; então, para mudar o mundo é preciso transformar o lugar onde se vive. Não basta uma escola, é preciso uma associação que acolha a escola. Não basta um lugar para instalar a escola, é preciso inventar espaços de educação, e a imaginação, que é própria das crianças, deve ser potencializada. 



Em 1914 Faure lança do Boletim de La Ruche, que chega a dez edições com informações sobre o processo ali vivido, demostrando especialmente as características da escola aberta, acolhedora, seja para os pedagogos e visitantes em geral que procuram conhecer de perto a experiência. 

Antony(2011) destaca ainda que outro aspecto de abertura da escola para o mundo se dá na formação linguistica, sobretudo no ensino do inglês e esperanto. Esta língua internacional sempre representou para os libertários uma forma de internacionalismo ativo, e por isso são muito os praticantes. 

La Ruche, mesmo sendo uma experiência diferenciada não está isolada do mundo concreto e sofre as consequências de processos conjunturais como a eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914. O engajamento pacifista de Faure, a crise financeira de La Ruche, as perseguições policiais e a dispersão forçada de companheiros são fatores que contribuem para o desaparecimento de La Ruche em 1917 . 

Em 1921, Faure publica “Mon communnisme. Le bonheur universel, apresentando seu projeto utópico no qual aponta a primazia do ato pedagógico antiautoritário. A educação, defende Faure, "deve de início preceder a revolução a fim de proporcionar-lhe princípios libertários e ajudá-la a lutar contra toda degeneração autoritária"( op.cit.Antony, 2011, p.122) 

Antony(2011) lembra ainda que Faure escreve em 1925 na importante Revista Internacional Anarquista, o artigo “Antes da Revolução: gestação”, afirmando que a Educação deve preceder mas igualmente dominar” as outras obras do anarquismo. Isso significa que a revolução deveria imediatamente desenvolver a educação libertária para acompanhá-la e reforçar suas caracterísiticas anarquistas, mas no reconhecimento do livre debate e das outras posições anunciadas. 

Em 1914 com o início da Primeira Guerra Mundial Faure passa a difundir panfletos pacifistas e antimilitaristas, defendendo o não-alistamento a deserção entre os soldados. Passa a ser duramente perseguido pelo aparato repressor estatal até mesmo sofrendo ameaças a sua família. Em 1916 lança um novo periódico O que falta ser dito (Ce qu'il faut dire), denunciando o esforço do estado francês para difundir o nacionalismo para garantir quadros para a guerra. Em 1918 é preso por organizar uma reunião sem o aval das autoridades.








A Enciclopédia Anarquista







Em 1934 Faure foi um dos co-autores da Enciclopédia Anarquista, composta por mais de três mil páginas, junto com diversos militantes libertários de sua época. É considerada uma "obra de educação libertária(Antony,2011). Foram publicados apenas três dos quatro volumes previstos. Essa obra é segundo Codello(2007) uma obra única em seu gênero porque reúne em si o melhor da produção libertária da época.

Segundo o próprio Codello(2007) o conceito de Educação, entendido em sentido amplo e articulado, ocupa na Enciclopédia um lugar notável e significativo. Não apenas porque toda a obra constitui, de fato, uma grandiosa experiência de instrução e formação, de divulgação e de aprofundamento, mas também porque a possibilidade de uma mudança radical da sociedade no sentido libertário e igualitário passa exatamente por uma emancipação cultural, uma auto-educação significativa de todo ser humano. Dessa forma afirma Codello, "de modo coerente com essa premissa, todo o grupo de intelectuais que está por trás dessa experiência única de trabalho divulgador e sistemático, confere e atribui ao termo "educação", um significado fundamental".

Além da Enciclopédia, Faure escreveu outras obras sobre diferentes temas de caráter filosófico e político, tais como "A dor Universal" de 1895, "Doze provas da inexistência de Deus" de 1908 e "Meu comunismo" de 1921.
Sebastién Faure como homem de ação parte em 1936 para a Espanha para lutar junto aos republicanos libertários na guerra contra o fascismo, tomando parte da Coluna Durruti. Faure morre em 1942 na França aos 84 anos.















Coluna Durruti, formada por militantes anarquistas de diversos países que foram para a Espanha defender a República contra o fascismo e lutar pela Revolução Social. Faure se integrará a essa coluna que homenageia o revolucionário anarquista espanhol Buenaventura Durruti. 

O resgate do legado de Sebastién Faure no Brasil 


No Brasil temos ainda poucas obras traduzidas seja sobre a vida como a obra teórica de Sébastien Faure. Uma lacuna que é também relativa a outros educadores libertários. Essa marginalização do pensamentto educacional anarquista na academia não é gratuíto, o predomínio da corrente marxista no campo da educação no Brasil tem contribuído para manter a vasta obra dos libertários esquecida.

Todavia, os próprios anarquista vem fazendo um enorme esforço para romper com essa lógica. Um exemplo disso é o da Editora Imaginário, que completou 30 anos em 2014 e se destaca pelo resgate dos pensadores libertários e suas obras com edições inéditas em português.

Também desde 2006 a Editora Biblioteca Terra Livre vem no mesmo caminho ou seja,  resgatando e divulgando o pensamento libertário no Brasil.

No ano de 2015 em um esforço  da Editora Biblioteca Terra Livre de São Paulo foi encontrada a primeira edição brasileira da principal obra de Faure, "A Colmeia: Uma experiência pedagógica" , com tradução realizada por Alberto Canellas no ano de 1919. Com esse material raro realizou-se uma revisão coletiva com nossa contribuição. Junto com o companheiro e professor da USP Rodrigo Rosa elaboramos a apresentação e foi lançado em dezembro de 20015 esta bela obra, que esttá disponível para todXs interessados na história da Colmeia de Sèbasttién Faure. 




Escrita quase trinta anos após o fim da experiência da Colmeia, Faure expressa nessa obra, de maneira emocionante, sua esperança de que as novas gerações poderão construir outras experiências do tipo "A Colemia", como forma de concretizar a utopia de uma sociedade libertária:

"Em fevereiro de 1917, La Ruche morreu, vítima, como tantas obras amorosamente edificadas, da Guerra para sempre execrada. Se eu estivesse na idade em que é razoavelmente permitido encarar o futuro com confiança, eu não hesitaria em lançar as bases de uma nova Ruche.
Eu tinha 46 anos quando fundei essa obra de solidariedade e educação. Quase trinta anos separam-me dessa época, e não é na minha idade que se pode aventurar-se em tal empresa. Mas nutro a esperança de que outros, mais jovens, um dia desses, revolvendo as cinzas dessas lembranças sobre as quais meu velho coração descansa, ali encontrarão ainda algum calor, farão delas surgir algumas brasas, reavivarão a chama e tentarão construir e bem conduzir uma nova Ruche.
A experiência que eles tentarão ser-lhes-á facilitada pelas indicações que encontrarão aqui; torço para que sejam ajudados por circunstâncias mais favoráveis, e que La Ruche de amanhã será o cadinho precioso onde se elaborarão, em pequena dimensão, as formas da sociedade de bem-estar, liberdade e harmonia ao advento da qual os militantes libertários consagram o melhor de si mesmos".

Referências :
Referências Bibliográficas:

ANTONY, Michel. Os Microcosmos. Experiências Utópicas Libertárias, sobretudo Pedagógicas: Utupedagogias. São Paulo, Editora Imaginário, 2011.

CODELLO, Francesco. A Boa Educação”.Experiências libertárias e teorias anarquistas na Europa,
de Godwin a Neill. Volume 1, São Paulo, Editoa Imaginário, 2007.

PASSETTI, Edson, AUGUSTO, Acácio. Anarquismos & Educação. Belo Horizonte, Autêntica. 2008.

Página sobre Sébastien Faure na Wikupediahttp://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A9bastien_Faure

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Paul Robin: o primeiro pedagogo libertário, por Paulo Marques

Paul Robin(1837-1912)

Dentre os principais pensadores anarquistas europeus, precursores das experiências de Educação Libertária, está o educador francês Paul Robin(1837-1912), junto a ele também podemos identificar o educador catalão Francesc Ferrer i Guàrdia(1849-1909) e o francês Sebastién Faure(1853-1942). Todos eles terão seus nomes lembrados na história da Educação Libertária por serem os primeiros à passar da teoria (do qual também serão referências fundamentais) à prática com a construção das primeiras experiências educacionais de caráter libertário. Neste post daremos início a uma série de breves perfis destes três pioneiros, iniciando com Paul Robin, considerado o primeiro pedagogo libertário. Apresentaremos uma breve contextualização do movimento libertário de onde emerge o jovem pedagogo francês para posteriormente apresentar sua biografia.

O movimento anarquista e a educação

A história do movimento anarquista mostra que educação foi uma questão que esteve no centro do pensamento libertário desde seu nascimento no século XIX. Para os primeiros anarquistas estava claro que a educação não era o único ou mesmo o principal instrumento responsável pela revolução social, mas que sem mudanças profundas no modo de pensar das pessoas, efetivadas a partir da educação, a revolução não teria condições de ser realizada. Portanto, a educação tinha um papel fundamental na formação de homens e mulheres libertários. Foi com essa compreensão que diversos pensadores anarquistas se debruçaram sobre essa temática, debatendo e propondo alternativas aos modelo então predominantes.

É importante destacar que existiram diferentes formas de atuação do primeiros teóricos anarquistas no que tange a questão da educação. Alguns se ocuparam sistematicamente do tema e outros apenas de forma mais difusa. Da mesma forma é posíivel identificar as diferentes ações de cada um, ou seja, enquanto alguns direcionam sua preocupação para a crítica à educação burguesa e a propor genéricas reformulações no sistema escolar, outros autores se preocupavam com os fundamentos de uma educação libertária e estimulavam a criação e até se vinculavam à experiências concretas de escolas, no qual seria possível praticar um ensino condizente com os princípios da educação libertária.

Pode-se dizer que no primeiro grupo estão os também fundadores da filosofia anarquista como Proudhon(1809-1865) e Bakunin(.1814-1876), que foram protagonistas da primeira fase da relação do movimento anarquista com o tema da educação que se deu no Contexto das discussões da Primeira Internacional no período 1840 a 1882. Essa fase se caracterizou pela crítica ao sistema educacional vigente no qual se denunciava a submissão das instituições de ensino aos interesses da classe capitalista em perpetuar o seu sistema político e econômico. Proudhon denunciava: “ Nossas escolas quando não são estabelecimentos de luxo ou pretextos para sinecuras, são seminários da aristocracia” ( Luizetto, 1987, p. 48) .

Preocupado , principalmente com a situação da classe operária, excluída totalmente de qualquer tipo de educação, Proudhon defende a generalização do ensino politécnico e o acesso de todos a todos os graus do ensino, pois isso seria um importante passo no processo de emancipação dos trabalhadores. Com a morte de Proudhon a discussão foi retomada por Bakunin.

Segundo Luizetto(1987) foi com o Programa Educacional , elaborado em por um grupo de militantes em 1882, reunidos no Comitê para o ensino anarquista, que pode ser considerado o marco inicial da segunda fase da construção de uma ideia de educação anarquista, que avançava para a além da crítica e apresentava proposições para uma educação libertária, uma discussão que se prolongará até o século XX. Entre os principais protagonistas deste período e considerado o precursor da pedagogia libertária, está o educador francês Paul Robin.


Paul Robin, o teórico da Educação Integral




Paul Robin nasceu em 3 de abril de 1837 em Toulon, Distrito francês. Filho de família católica praticante ele recebeu uma educação bastante rígida. Conforme Passetti e Augusto(2008), estes precursores da educação anarquista eram todos eles descendentes de famílias católicas que romperam com a religião e se voltaram para a educação experimental libertária como maneira de ultrapassar a família monogâmica, o sagrado, a obediência aos superiores, o sistema de castigos e recompensas. A escola integrada à educação anarquista passou, então, a ser compreendida no interior do exercício da vida associativa livre, em preparação para a revolução” (Passetti e Augusto, 2008, p. 38).

Paul Robin em sua juventude chega a iniciar o curso de Medicina, que acaba trocando pela Pedagogia da École Normale (Escola Normal Superior). Irá exercer a docência a partir de 1861 até 1865 quando abandona a profissão e começa a viajar pela Europa, iniciando pela Bélgica. Em Liège, no Congresso Internacional dos Estudantes, ele expõe, publicamente, pela primeira vez, suas ideias pedagógicas e esboça sua concepção de educação integral, que será no futuro reconhecida como uma das principais contribuições de Robin para a teoria pedagógica libertária. Michel Antony (2011) destaca que Robin, é um teórico antes de ser um prático, ao contrário do que descrevem muitos historiadores que fazem referência a este precoce militante e pensador da educação libertária apenas por sua experiência na coordenação do Orfanato de Cempuis.

Conforme Gallo(2007) com espírito crítico e rebelde, Robin sempre foi um incômodo para as instituições; sua paixão pela educação o leva a criticar duramente o ensino religioso em sua infância e juventude, e abandonando as tradições familiares aproxima-se cada vez mais dos socialistas, em particular dos libertários. Por ser o primeiro educador a materializar as teorias educacionais baseadas nos princípios formulados por Proudhon, Paul Robin será considerado como o primeiro pedagogo libertário.

Foi através da militância na Associação Internacional dos Trabalhadores (Primeira Internacional) que Paul Robin vai aderir definitivamente aos postulados libertários. Neste período de militância Robin dirigirá diversos cursos e palestras para trabalhadores, sendo também redator e diretor de diversos periódicos anarquistas da imprensa operária. Em 1866 é publicada sua primeira obra pedagógica importante, o “Método de Leitura”. Ele adere à “Liga do Ensino pela instrução popular”. Convidado por Marx, será membro do Conselho Geral da Associação Internacional dos Trabalhadores, AIT, da qual participa em diferentes Congressos. Em 1867 funda na Bélgica um jornal pedagógico “Le Soir” , e colabora no periódico L Éducation Moderne. Neste mesmo ano, em Lousanne é encarregado do relatório sobre o ensino integral, que é exposto no terceiro Congresso da AIT realizado em Bruxelas em setembro de 1868( Antony, 2011, p. 86).

Expulso da Bélgica em 1869, passa pela Suiça e vincula-se fortemente a Bakunin e James Guillaume, e é um dos redatores do texto do 4 Congresso da AIT realizado na Basiléia que aprovará a primazia da “Educação Integral” como proposta da entidade. Em seguida, vai para a França e depois para o Reino Unido. Em seu exílio londrino, trabalha como professor e participa de inúmeros trabalhos sobre educação. Conforme Antony(2011) “fiel a Bakunin, Robin é expulso da AIT em outubro de 1871, o que o leva a juntar-se, definitvamente ao movimento anarquista que se solidificará no Congresso em Saint-Imier em 1872( Antony, 2011, p. 87).

Entre 1869 e 1872, Robin publica Lenseignement intégral ( Ensino Integral) na Revue de Philosophie Positive, publicada por seu amigo Littré. Em relação a amizade de Robin com Littré, Antony(2011) destaca que a biógrafa deste, Nathalie Brémand fala de “positivismo de esquerda” para essa época da vida do pedagogo Littré. Sua posição, a partir de 1865, amadureceu consideravelmente em função das relações internacionais de Robin.

Com James Guillaume participa do Dictionaire de Pédagogie et Instruction Publique(Dicionário de Pedagogia e Instrução Pública) por volta de 1878, para o qual redige aproximadamente 17 artigos, a maioria nos campos científicos e técnicos. Em 1880, em Blois, Robin criou o primeiro Cercle Pedagógico de France( Antony, 2011, p. 89).

Em 1882 Robin será um dos redatores do Programa Educacional do Comitê para o ensino anarquista, no qual seus trabalhos sobre Educação Integral serão incorporados ao programa(Luizetto, 1987). Neste Comitê participavam várias personalidades do movimento libertário do final do século XIX, entre os quais Kropoktin, Elisée Reclus, Louise Michel, Jean Grave e Charles Malato.

De acordo com o Programa Educacional, o esforço inicial dos militantes e simpatizantes, ao se envolverem em assuntos educacionais, deveriam estar voltados para a supressão de três práticas habituais nas escolas e que eram muito nocivas, na visão dos anarquistas, para a formação do indivíduo: a disciplina, os programas, e as classificações.

A disciplina deverá ser suprimida, pois causa dispersão e mentira entre os alunos. Os programas deveriam ter o mesmo destino, porque anulam a originalidade, a iniciativa e a responsabilidade das crianças. Por fim a escola deverá deixar de ser fonte de comportamentos baseados na rivalidade, na inveja, e no rancor, e , para tanto, deverão ser abolidas as classificações destinadas a distinguir os alunos entre si ( Luizetto, 1987, p. 49).

Nesta fase os anarquistas demostraram uma grande disposição também para desafiar os métodos das escolas tradicionais através da criação de experiências como os “Centros de Estudos”, “Ateneus Libertários”, Escolas Livres, “Modernas” ou “Racionalistas” e Universidades “Livres” ou “Populares”
(Luizetto, 1987, p. 52). É a partir dessa disposição que Paul Robin também será pioneiro, ao assumir a coordenação de um Orfanato público na França, o que lhe possibilitará colocar em prática suas teorias sobre Educação integral e experimentações pedagógicas de caráter libertário.


Orfanato de Cempuis, a experiência prática de educação libertária de Paul Robin




Como Coordenador do Orfanato Prévost de Cempuis, na cidade de Oise, no norte da França, Paul Robin será protagonista, segundo Antony(2011) de “uma das mais profundas experiências pedagógicas libertárias, que vai influenciar fortemente o catalão Ferrer i Guardia e Sébastién Faure”, pois “a utopia expressa desde 1867 vai poder ser amplamente realizada, e , o que é alguma coisa, escolhendo tentá-la em meio público, não à margem”( Antony, 2011, p. 88). Ou seja,

No orfanato, erguido como parte da herança de um certo senhor Prévost e administrado pela prefeitura, Paul Robin levou adiante sua maneira de educar libertariamente, recebendo entre 120 e 180 crianças de ambos os sexos, a partir de 6 anos de idade na formação geral e que, entre os 12 e 16 anos, se iniciavam na formação específica( Passetti, Augusto, 2008, p. 42).



Paul Robin dirige a instituição de Cempuis de 1880 a 1894, data em que é destituído após uma campanha de difamação sobretudo ligada às suas idéias neomalthusianas. No orfanato viviam um grupo de adultos e crianças em quase comunidade de afinidade, que Robin denominava de “família societária”. A proximidade ideológica e pedagógica, o senso de devotamento e o respeito pela infância constituem o minimo comum entre todos. Segunso Antony:

Eles terão de se responsabilizar por quase 600 jovens até 1894, numa gama que vai de 4 a 17 anos. Em todo o caso, os educadores, os funcionários, suas famílias(esposas e esposos, crianças...), os alunos formam uma atêntica família ampliada e convivial, o mais igualitário possível, pois todos estão no mesmo plano, inclusive no que concerne aos trajes. Cempuis é uma comuna no sentido de meio de vida alternativo. Mas a autoridade de Robin é evidente, e a dimensão coletiva, autogestionária , é de fato, muito reduzida
(Antony, 2011, p. 89)


Robin em Cempuis vai buscar implementar principalmente os pressupostos de sua teoria da Educação Integral que foi elaborada a partir de seus encontros com Bakunin, Kropoktin e Elisée Reclus, durante o tempo em que militou na AIT( Passetti, Augusto, 2008, p.42). Segundo Passetti e Augusto(2008), Paul Robin foi o primeiro a levar a diante a escola anarquista, implantando um método de convivência com saberes que contemplava , simultaneamente, os aspectos intelectuais, físicos e morais na formação de crianças e jovens, de ambos os sexos, , por professores homens e mulheres. A dinamica de ensino de Cempuis fica explicito nesta descrição de Antony:

Nesse espaço livre, as crianças evoluem em toda a liberdade e em regime de co-educação. A saúde e a higiene são colocadas em primeiro plano: alimentação variada, atividades ao ar livre, banhos, ginástica, natação e ciclismo, práticas de manutenção corporal, aprendizagem dos cuidados e da higiene, etc... Desde 1882 ele conduz o grupo em férias à beira-mar(Mers -les-Bains), o que é sem dúvida uma das primeiras colônias de férias no meio educativo. A educação integral é uma evidência: teoria e trabalhos manuais alternam-se. As experimentações, os trabalhos práticos, o papel das oficinas são muito importantes. A vida esportiva e artística é muito desenvolvida (boxe, canto, fanfarra, teatro, etc.), e a imprensa na escola ( e a máquina de escrever) é uma novidade que inúmeros movimentos pedagógicos posteriores vão reutilizar
como Freinet claramente mais tarde(Antony, 2011, p. 89-90).

A experiência do Orfanato possibilitou a Robin colocar em prática as suas concepções de Educação Integral, que havia elaborado no seio do movimento operário. Segundo afirmou Robin, citado por Lipiyanski(2007):
Por esse termo Educação Integral entendemos aquela que tende ao desenvolvimento progressivo e bem equilibrado do ser por inteiro; ela contém e reúne os três fatores habituais, a saber: a educação física, intelectual e moral... Não se deve esquecer que a educação física e intelectual ou instrução deve compreender a ciência e a arte, o “saber e o “fazer”. Um verdadeiro ensino integral é ao mesmo tempo teórico e prático(Lipianski, 2007, p. 45)


Como descreve Lipiansky em seu livro “Pedagogia Libertária”, em Cempuis, as crianças, meninos e meninas, vivem na maior parte do tempo ao ar livre, nos jardins e no campo. Praticam todo o tipo de esportes, da natação à equitação e dança. Outra parte do ensino se dá nos espaços de atividade prática, para isso são organizadas no Orfanato uma fazenda, uma oficina de sapato, uma tipografia, uma marcenaria e um ateliê de costura, no qual os alunos trabalham com madeira, ferro, aprendendo a costurar couro e tecido para a confecção de sapatos. Até os treze anos praticam “la paillone”, expressão criada por Fourier para identificar o processo de passagem de uma oficina para outra, e somente após conhecer as diferentes atividades produtivas se direciona para uma especialização. Outra característica é que meninos e meninas tem as mesmas ocupações. Segundo Lipiansky “Robin recomenda deixar as crianças fazerem suas descobertas e contentar-se com responder às suas perguntas. O meio deve levar à curiosidade ciêntífica”(Lipiansky, 2007, p. 46). Robin ainda cria em Cempuis um jardim botânico, um museu de matemática, um laboratório de física e química, e uma estação meteorológica.

Sua pedagogia funda-se, sobre o respeito da liberdade da criança e ao mesmo tempo põe em prática fragmentos de uma autogestão, onde todos os sentidos das crianças devem ser despertados e a brincadeira amplamente utilizada. Esse novo modelo de educação terá para os libertários uma finalidade de caráter revolucionário, pois é preciso formar um homem novo, antiautoritário, visando ao apoio mútuo e à autogestão federalista, mesmo que isso ainda não seja profundamente aplicada na experiência do Orfanato de Cempuis. Como destacou Antony, “ Robin sempre foi consciente, e ele disse e escreveu que Cempuis também era uma 'obra de experimentação e propaganda', no bom sentido dos termos, evidentemente. Estamos totalmente no coração do “agir utópico” de um libertário convicto”( Antony, 2011, p.90).

Conforme Antony(2011) esse “micromundo” de Cempuis não estava voltado para si mesmo nem fechado, não foi uma “Ilha utópica” fechada e isolada, pois os jovens e adultos podiam sair , convidados eram aceitos. Pedagogos, escritores, libertários visitam o Orfanato. Robin dá Conferências, escreve multiplos artigos, organiza exposições. Neste periodo de funcionamento sob a coordenação de Robin, o Orfanato esteve no centro de toda reflexão sobre educação, em particular a libertária. Desde novembro de 1882 é publicada a revista Bulletin de L Orphelinat Prévost(Boletim do Orfanato de Prévost) para descrever seus métodos, e difundir seus sucessos e projetos. No Orfanato, uma exposição permanente e um museu pedagógico afirmam a abertura das escola para o exterior. Em 1893 cria-se a Association Universitaire d Éducation Integrale, (Associação Universitária de Educação Integral) cuja sede se localiza em Bruxelas. Cempuis, nas palavras de Lipiansky(2007) “tendeu a ser cada vez mais um centro de reflexão pedagógica”.

Todavia como toda ideia ou prática revolucionária, o Orfanato de Cempuis não esteve imune a perseguição por parte dos setores conservadores e reacionários da sociedade francesa, recebendo ataques por parte dos meios católicos e autoridades escolares. Enfim, em 1894 o ministro da educação cede às pressões e exonera Paul Robin do cargo de coordenador do orfanato. Como demostra Lipiansky(2007) a noticia sobre a exoneração publicado no Jornal “Libre Parole” afirmava: O Sr. Robi, diretor da porcaria municipal de Cempuis, foi exonerado ontem em pleno Conselho de ministros. É o desmoronamento do sistema pornográfico da co-educação dos sexos”.


Ao mesmo tempo, Robin receberá a solidariedade de muitos educadores. Segundo Antony(2011) Octave Mirbeau, é o primeiro pensador que esgue-se contra a expulsão de Robin ao escrever sobre o fato em um periódico de grande circulação, Le Journal. Ele aproveita a oportunidade para elogiar a educação libertária e sua força utópica, pois entendeu muito bem que aí se encontra o objetivo principal, que para ele significava que:

Pela primeira vez, tive a impressão de uma infância e de uma juventude realmente jovens e entusiastas, e compreendi que poderia emanar dali autênticos homens e autênticas mulheres, isto é, seres admiravelmente armados para o trabalho e a para a vida social, e que, protegidos contra as disciplinas escravagistas da autoridade, contra as decepções enervantes das religiões, e de toda a mentira, saberão talvez, encontrar a felicidade em si mesmos e realizar a beleza da vida(Antony, 2011, p.92).


Mesmo afastado do Orfanato, sua pioneira experiência, Paul Robin continuou atuando na construção da Educação Libertária. Realizou pesquisas musicais, estenografia, lecionou na Universidade Nouvelle de Bruxelas, realizou pesquisas em torno da proposta de uma “lingua universal”, todas atividades que segundo Antony92011), o “mantém em combate”.

Paul Robin lança ainda em duas ocasiões (1895; 1903-1905) o boletim La Education Integrale. Escreve inúmeros artigos pedagógicos na Revue Generale de Bibliographie Française”. Em 1905, apoia a criação de “La Rouche” ( A Colméia) , de Sebástien Faure. Em 1907, apoia Ferrer i Guardia e participa da criação da Ligue Internationale pour L èducation Rationnelle de L Enfance”( Liga Internacional pela Educação Racional e a Infância) , ao lado de outros anarquistas de grande expressão como Malato, Sebástien Faure, Luigi Fabri e Anatole France. Escreve na revista da Liga, L École Renové. Após 1910, entrega uma grande parte de seu material pedagógico à Escola Ferrer, de Lausanne.

Em 1908, durante uma viagem a Nova Zelaâdia tenta criar, sem sucesso, uma experiência utópica de uma comunidade ideal. Vive como uma asceta, em um meio muito modesto, mesmo com as imensas relações internacionais. Doa seu corpo à ciência e deseja que suas cinzas sejam espalhadas na natureza. Entre os bens que ele distribui, está Lencyclopedia de Diderot que é entregue a CGT sindicalista revolucionária e a tipografia do Orfanato é doada a Sébastién Faure para sua “Colméia”.

O legado de Paul Robin para a educação libertária



Fiel a toda sua vida, Paul Robin suicida-se por envenenamento no verão de 1912, o que segundo Antony(2011), foi seu “último ato de autonomia que havia legitimado anteriormente em um artigo importante, fria e cientificamente intitulado Technique du Suicide( Antony, 20110, p.93)

A obra de Paul Robin, infelizmente pouco conhecida no Brasil, é uma referência fundamental para a Educação Libertária, não só porque foi ele o responsável pela primeira experiência de uma prática de ensino libertário, mas porque elaborou teoricamente sobre a prática, pensou sobre o concreto e contribuiu para outras experiências como a “Colméia” de Faure e fundamentalmente as “Escolas Modernas” de Ferrer i Guardia na Espanha .Posteriormente suas contribuições teóricas continuaram sendo referência para todos os educadores que, no campo da educação, constroem novas sínteses e propostas de caráter libertário. Conforme destaca Antony(2011) sua “Pedagogia ativa” marcou amplamente a pedagogia progressista ulterior, tanto anarquista ou racionalista, quanto “moderna”(Montessori, Freinet reconheceram a importância de Robin).





Por fim, podemos dizer que o educador Paul Robin foi um pioneiro, o primeiro pedagogo libertário, que abriu caminhos no campo teórico e prático para a efetivação de muitas utopias, tais como a possibilidade de uma educação capaz de contribuir para a formação de homens e mulheres livres e autônomos, um projeto ainda inconcluso, que ainda permanece como desafio para os libertários de hoje. Conhecer sua obra e seu legado é fundamental como munição teórica para novos projetos de educação libertária de hoje e de amanhã.


Referências:


ANTONY, Michel. Os Microcosmos. Experiências Utópicas Libertárias, sobretudo Pedagógicas: Utupedagogias. São Paulo, Editora Imaginário, 2011.

GALLO, Sílvio. Pedagogia Libertária. Anarquistas, Anarquismos e Educação. São Paulo, Editora Imaginário, 2007.

LIPIANSKY, Edmond. A Pedagogia Libertária. tradução Plínio Augusto Coelho. São Paulo, Editora Imaginário, 2007.

LUIZZETTO, Flávio. Utopias Anarquistas. São Paulo, Brasiliense, 1987.

PASSETTI, Edson, AUGUSTO, Acácio. Anarquismos & Educação. Belo Horizonte, Autêntica. 2008.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Estudo dos grandes pensadores libertários da Educação




O Grupo de Estudos Educação Libertária-UfFPel definiu que realizará como dinâmica o estudo de um autor e suas obras principais em cada semestre. Serão os "Estudos dos grandes pensadores libertários da Educação" que terão início neste ano com o educador Ivan Illich e seu livro "Sociedade Desescolarizada", que será utilizada como base para o estudo de outros textos deste autor. A proposta também prevê que ao final do semestre o Grupo promoverá um Seminário sobre o autor e sua obra.




Quem é Ivan Illich: 


Ivan illich foi um dos maiores educadores do século XX. Nascido em 1926 em Viena na Áustria, estudou teologia e filosofia na Universidade gregoriana do Vaticano; trabalhou como padre em Nova York e em 1956 vai para Porto Rico,  onde assume como Vice-Reitor da Universidade Católica de Porto Rico. Em 1961 funda o Centro Intercultural de Documentação(CIDOC) em Cuernavaca no México. Depois de 10 anos de funcionamento o Centro começa a entrar em conflito com o Vaticano e é fechado e Illich abandona a vida religiosa. A partir dos anos 1980, Illich viajou muito, repartindo seu tempo entre os EUA,México e Alemanha. Foi nomeado professor visitante de filosofia e ciência, tecnologia e sociedade na Universidade Estadual da Pensilvania, e também professor visitante da Universidade de Bremen. Escreveu diversos livros e artigos  sobre educação entre eles sua mais famosa obra lançada em 1971 “ Sociedade Desescolarizada” . Neste livro Illich faz uma uma crítica radical à institucionalização da educação nas sociedades contemporâneas. Através de exemplos sobre a natureza ineficaz da educação institucionalizada, ele se mostrava favorável à auto-aprendizagem, apoiada em relações sociais intencionais, e numa intencionalidade fluida e informal, realizada com o uso das novas tecnologias de informação em uma época em que a internet nem mesmo existia. A partir do que fez e do que pensou sobre educação, seja na análise rigorosa e radical seja nas proposições que apresentou  é possível dizer que Ivan Illich é um dos mestres cujo pensamento esteve e ainda está a frente do seu e do nosso tempo....


A Obra Principal : Como feito em outros trabalhos, Ivan Illich propõe em sua obra já clássica “A Sociedade Desescolarizada” uma crítica radical das verdades que assumimos como lugar-comum como o fato da Educação ser sinônimo de Escola. Em muitos casos, coloca a questão em termos de contabilidade: o quanto custa a escolaridade obrigatória e o sistema escolar? e como esse sistema beneficia a população (nível cultural das pessoas, aumento da qualidade de vida), para onde vai o dinheiro que investimos na escola?, quem recebe o quê? e quem se beneficia dela? São as próprias crianças que recebem? ou, na verdade, são recursos que se perdem na manutenção de todo o aparato institucional? Illich denuncia as assimilações que fazemos de forma ordinária, confundindo ensino com saber, a promoção de "cursos' com educação, o "diploma" com competência para determinada atividade, "fluência' com a capacidade de dizer algo novo, e "serviço' com valor. Confundimos, no paroxismo da perversidade, as necessidades não-materiais com demanda por bens. Uma obra fundamental para todos que buscam uma discussão sobre educação a partir das raízes dos problemas que a engendraram e uma perspectiva de Educação realmente libertária, livre da jaula de ferro da sociedade cada vez mais burocrática e desigual.


Neste site é possível encontrar em PDF as obras de Ivan Illich : 

Lembrando os Encontros do Grupo são realizados quinzenalmente, nas terças, às 15h na Sala 314, da Faculdade de Educação da Ufpel.



As educadoras anarquistas individualistas: mulheres livres na Belle Époque, por Anne Steiner*

Nos trabalhos que reconstroem a gênese do movimento feminista apenas são citadas as figuras das mulheres anarco-individualistas do pr...