segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Ciclo de Cine-Debate Educação E(M) Liberdade


O Grupo de Estudos Educação Libertária está preparando para o primeiro semestre de 2015 a realização do Primeiro Ciclo de Cine -Debate Educação E (M) Liberdade . A proposta dessa atividade é realizar debates sobre a relação da educação com a liberdade a partir de filmes de ficção e documentários nacionais e estrangeiros, que contribuem para essa reflexão. O debate será realizado com convidados de diferentes áreas do conhecimento como filosofia, sociologia, antropologia, psicologia, letras, história, artes etc.. buscando uma abordagem interdisciplinar.

O lançamento do Ciclo será no dia  11/12/2014, quinta-feira, as 17h com a exibição do documentário brasileiro "Quando sinto  que já sei".

O documentário apresenta sete projetos não tradicionais de educação em sete cidades do Brasil a partir de entrevistas com com educadores responsáveis pelos projetos. 
A  atividade será realizada na sala de Video do Casarão 8 ( Museu do Doce) Pça Osório, Pelotas-RS




Abaixo publicamos alguns dos filmes que estaremos exibindo no Ciclo: 


 - A língua das mariposas ( ficção, Espanha, 1999)


Este belo filme retrata como funcionava a Escola Moderna baseada no modelo criado pelo educador libertário Francisco Ferrer y Guardia no início do século XX na Espanha e que foi implementado em todo o país por pedagogos anarquistas até o advento do franquismo. O filme se passa em um pequeno povoado da Espanha, no ano de 1936, as vésperas da Guerra Civil. É a história do menino Moncho, um garoto de 8 anos, que tem medo de ir para a escola porque ficou sabendo que os professores batem nas crianças. Até que seu novo professor, Don Gregório, vai buscá-lo em casa e mostra uma nova forma de educação que encanta o garoto pelo seu caráter e sabedoria. 


Cena do filme em que o professor Don Gregório ensina o pequeno Moncho  utilizando os métodos do geógrafo anarquista Elisé Reclus de aprendizagem a partir do contato direto com a natureza. 



SER e TER (Documentário. França, 2002)




O título do filme, traduzido literalmente como "Ser e Ter", os dois verbos auxiliares da língua francesa. O documentário acompanha a vida de uma escola primária na pequena comunidade rural francesa de Saint-Étienne-sur-Usson, Puy-de-Dôme, França, cuja população tem pouco mais de 200 pessoas. A escola é  uma pequena sala onde estudam juntas crianças de 4 a 12 anos de idade. O filme mostra o processo de formação do conhecimento entre os alunos , acompanhando o belo e emocionante  trabalho do dedicado  professor Georges Lopez.



Cena em que o professor  Georges Lopez conversa com Jojô um de seus alunos




Pequenas flores vermelhas ( China/Iátlia, 2006)



Pequim, 1949. Com apenas quatro anos, o pequeno Qiang é matriculado numa creche-internato onde dezenas de crianças  já forma "depositadas" antes. Durante todo o filme apenas um pai visita uma das crianças internada. Para o pobre Qiang ganhar algumas das florzinhas vermelhas  com que as professoras recompensam as crianças por bom comportamento bastava conformar-se com as incontáveis regras da instituição. Mas Qiang é uma criança rebelde e não consegue seguir as regras. Sua desobediência impede que ele ganhe as desejadas flores vermelhas, e acaba atraindo a antipatia da professora Sra. Li. Só que ele também consegue que outras crianças se juntem à sua rebelião particular ao convencê-las de que a professora é, na verdade, um monstro que come crianças.


O filme revela a (ainda) presente repressão a que as crianças são sujeitas e uma lógica de estímulo a competição desde cedo. Também destaca-se a falta de liberdade pessoal num regime de padronização, vigilancia e punição característico das instituições de controle. O filme faz uma uma  profunda crítica a essa dinâmica que é predominante nos estabelecimentos de ensino, independente do regime político.  

 A Educação Proibida ( Documentário, Argentina , 2012)




No documentário são apresentadas mais de 90 entrevistas com educadores, acadêmicos, autores e pais de alunos, envolvendo oito países da Ibero-América, passando por 45 experiências educativas não convencionais. O documentário que  teve mais de 25 mil seguidores nas redes sociais antes de sua estreia e um total de 704 coprodutores converteu a  “A Educação Proibida” em um projeto totalmente independente e inédito que mostra a necessidade de implementação de estratégias inovadoras na educação.




- O Substituto/Detachment ( ficção, EUA, 2011)


O título original expõe de forma rápida toda a problemática do filme e dos seus personagens, o que não aparece refletido na tradução ao português. A palavra inglesa “detachment” pode ser traduzida como ”desapego” ou “distanciamento”, mas também “indiferença”. Isso é o que o filme retrata, de forma diversa, positiva e negativamente. O protagonista, um professor que somente faz substituições sem nunca assumir uma vaga fixa, vive carregando uma história familiar tortuosa que não acaba de assimilar. Chamado para realizar uma substituição em uma escola pública em um estado completo de caos, encontrará professores/as que não sentem apego nenhum pela sua profissão, estudantes desencantados e aborrecidos da vida antes mesmo de começá-la, adolescentes à procura de adultos em quem confiar e com os quais substituir pais negligentes ou ausentes. Um retrato do que vem se tornando a escola na atualidade.




Os Incompreendidos,( França, 1959)


O que o cineasta francês Truffaut queria com este filme era mostrar ao mundo que os adolescentes não eram compreendidos pelos adultos. Embora não gostasse de falar no assunto, todo mundo sabia que o garoto protagonista do filme era o alter-ego de Truffaut  que também havia crescido em uma família pobre que não lhe dava atenção e também ele foi um delinquente juvenil , cometendo pequenos furtos pelas ruas de Paris e esteve internado em um reformatório.
O filme conta a história de um jovem de 15 anos que ninguém- pais, educadores, parentes ou policiais- entendia. Antoine Doinel não é bom nem mau,é só um adolescente. O cineasta contou esta história com uma gigantesca dose de carinho pelo personagem. O resultado final é um filme deslumbrante, poético e melancólico em alguns momentos, suave e cômico em outros, mas sempre compreensivo e caloroso.


O protagonista do filme mente para os professores e para os pais, rouba uma máquina de escrever, fica preso num reformatório, mas não é um menino malvado. Os adultos do filme não entendem. Não percebem que quando ele cita Balzac numa redação, não está tentando plagiar o escritor, mas homenageá-lo. A obra alcança uma unanimidade da crítica que afirma que Os incompreendidos permanece o melhor filme sobre adolescentes já lançado.





- Pro dia nascer feliz(Documentário,  Brasil , 2007)



Documentário brasileiro que aborda a realidade de profunda desigualdade existente na educação brasileira, mostrando o funcionamento das escolas públicas(dos pobres)  e das escolas particulares(dos ricos) com o foco na percepção dos estudantes de 14 a 17 anos. Foram ouvidos alunos de escolas da periferia de São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco e dois colégios particulares , um de São Paulo e outro do Rio de Janeiro. Pro Dia Nascer feliz tem o mérito de abordar a educação no Brasil sob forma documental, desmascarando o abismo que existe entre as escolas de elite e as escolas públicas bem como os estudantes de cada uma delas. 

Uma boa resenha crítica  sobre este filme pode ser lida em 
http://passapalavra.info/2010/02/19335





A Onda( Ficção, Alemanha, 2008, )





Rainer Wegner, professor de ensino médio, deve ensinar seus alunos sobre autocracia. Devido ao desinteresse deles, propõe um experimento que explique na prática os mecanismos do fascismo e do poder. Wegner se denomina o líder daquele grupo, escolhe o lema “força pela disciplina” e dá ao movimento o nome de A Onda. Em pouco tempo, os alunos começam a propagar o poder da unidade e ameaçar os outros. Quando o jogo fica sério, Wegner decide interrompê-lo. Mas é tarde demais, e A Onda já saiu de seu controle. Baseado em uma história real ocorrida na Califórnia em 1967. 






Educação( ficção, EUA, Reino Unido, 2009)



O filme trata da  história de  Jenny Carey , uma jovem estudante inglesa de 16 anos que vive com a família no subúrbio londrino em 1961. Ela  sofre com o tédio de seus dias de adolescente e aguarda impacientemente a chegada da vida adulta. Conduzida pelos seus pais a um comportamento disciplinado e correto, a garota tem como objetivo único ingressar na renomada universidade Oxford. 





Quando conhece David (Peter Sarsgaard), homem charmoso e cosmopolita de trinta e poucos anos, vê um mundo novo se abrir diante de si. Ele a leva a concertos de música clássica, a leilões de arte, e a faz descobrir o glamour da noite, deixando-a em um dilema entre a educação formal e o aprendizado da vida.

.


The Edukators( Os educadores) (ficção, Alemanha, 2003)






Jan (Daniel Brühl) e Peter (Stipe Erceg) são dois jovens que acreditam que podem mudar o mundo. Eles se auto-denominam "Os Educadores", rebeldes contemporâneos que expressam sua indignação de forma pacífica: eles invadem mansões, trocam móveis e objetos de lugar e espalham mensagens de protesto. Jule (Julia Jentsch) é a namorada de Peter, que está passando por problemas financeiros e, por causa deles, está saindo de seu apartamento alugado. Tempos atrás Jule se envolveu em um acidente de carro, que destruiu o carro de um rico empresário. Condenada pela justiça, ela precisa pagar um novo carro no valor de 100 mil euros, o que praticamente faz com que trabalhe apenas para pagar a dívida que possui. Como Peter viaja para Barcelona, Jan vai ajudá-la na mudança. Eles se conhecem melhor e Jan termina por contar a ela a verdade sobre os Educadores. Empolgada com a notícia, Jule insiste que ela e Jan invadam a casa de Hardenberg (Burghart Klaubner), o empresário que a processou. 




Após uma certa resistência, Jan concorda. Na casa eles agem como os Educadores, mudando os móveis de lugar, mas cometem um grave erro: Jule esquece no local seu celular. No dia seguinte, com Peter já tendo retornado da viagem mas sem saber do ocorrido, Jan e Jule decidem invadir novamente a casa de Hardenberg, para recuperar o celular. Porém o que eles não esperavam era que o empresário os surpreendesse dentro da casa, o que os força a sequestrá-lo.


Os Infelizes( Ficção, Holanda, 2009) 






Este filme holandês  conta a história do garoto de 13 anos Gunther Strobbe que cresce rodeado por lixo, álcool e seu pai e tios completamente inúteis. Lenta mas seguramente, ele está sendo preparado para a mesma vida. Ele pode ser capaz de mudar seu destino? Uma abordagem crua  sobre as possibilidades da  "escola da vida". 






Vermelho como o céu ( ficção, 2006 , Itália)


Saga de um garoto cego durante os anos 70. Ele luta contra tudo e todos para alcançar seus sonhos e sua liberdade. Mirco (Luca Capriotti) é um jovem toscano de dez anos apaixonado por cinema, que perde a visão após um acidente. Uma vez que a escola pública não o aceitou como uma criança normal, é enviado para um instituto de deficientes visuais em Gênova. Lá, descobre um velho gravador e passa a criar histórias sonoras. Baseado na história real de Mirco Mencacci, um renomado editor de som da indústria cinematográfica italiana.

O filme mostra que rejeição é marca do Estado italiano de então, que segregava as crianças cegas e as deixava sob a responsabilidade de um diretor, que por também ser cego, supostamente entenderia a realidade dos meninos e poderia, teoricamente, mantê-las sob controle. Por meio de um programa centralizado e burocrático, as crianças eram doutrinadas a obedecer, rezar e aprender um ofício manual, como empalhar cadeiras.



Essa situação incomodava o padre e professor Giulio, inspirador de Mirco na escola e simpatizante dos novos ares que começavam a passar pela educação. Na verdade, este conflito entre diretor e professor, com posições tão francamente opostas, molda o grande debate do filme: qual é o papel da liberdade na evolução do indivíduo? Para o professor, o conceito de formação imposto de cima era cerceador da inventividade, simbolizada pelo talento incrível de Mirco, que contava histórias captando os sons da Natureza com um velho gravador da escola, convenientemente disponibilizado pelo professor.
O talento de Mirco acaba, felizmente, por envolver a todos, quando eles se reúnem para realizar uma grande narrativa de fim de ano, tendo os pais presentes a visitá-los. Recheado de personagens simpáticos, como vários amigos e a namorada, o filme capricha nas cenas cotidianas, como se estivéssemos andando por uma rua qualquer da Itália, além de, adequadamente, nos aproximar da nossa condição humana, independente das nossas capacidades e talentos.




Um dia, Um gato ( Tchecoslováquia, 1963) 






Este filme é uma fábula que conta a história de um gato mágico, cujos olhos dão as pessoas as cores de suas personalidades e sentimentos. Assim, os apaixonados ficam vermelhos, os hipócritas roxos, os infiéis amarelos e os desonestos cinzas. 

A resenha de Sergio Vaz quando o filme completou 50 anos descreve a beleza deste filme : 



Já começa brincalhão, completamente fora do tom da exaltação dramática da força do operariado: um senhorzinho de barba grisalha aparece em uma janela no relógio da torre mais alta de uma pequenina cidade interiorana, e se dirige aos espectadores:
Vou contar uma história. Com mais verdade que fantasia.”

Chama-se Oliva (Jan Werich, na foto, ele também um dos autores do roteiro, juntamente com o diretor Vojtech Jasný e mais Jirí Brdecka). Veremos que é um homem que já fez muita coisa na vida, e hoje exerce o ofício de observar a vida naquele microcosmo da sociedade que é a pequena e centenária cidade perdida no meio rural.






Oliva caminha para um terraço no alto da torre, diante da praça central belíssima de cidade checa muito antiga, centenária. Fala com os espectadores com uma pequena lente de aumento na mão, que fará as vezes de um poderoso binóculo através do qual a câmara focalizará as pessoas e as coisas de que o senhorzinho fala:


Observar a correria da vida é sempre motivo para reflexão. É divertido – quando se gosta das pessoas. Para isso, deve-se olhar as coisas de uma altura apropriada. Não tão alto quanto os cosmonautas. Eles não têm tempo de perceber o que acontece aqui. A altura de uma torre simples num povoado humilde serve perfeitamente – e você verá mais tragédias que nas trilogias.”

Vamos vendo imagens da praça enquanto ele fala.


Agora, vejamos o que o dia de hoje nos reserva. Ali vemos cinco carrinhos de bebês. Não! Já são seis! Estamos crescendo sem controle, e não há nada a fazer.”

Vemos um grupo de umas dez, 12 pessoas, andando pela praça.


Aqueles são turistas vindos das fazendas das cooperativas. Sempre aparecem, principalmente durante a colheita, para admirar nossas cúpulas renascentistas e saborear nossa cerveja.”

Vemos crianças desenhando com giz nas paredes. E o filme já abandona aí qualquer coisa parecida com realismo, porque Oliva fala com voz normal e a menina lá longe o ouve e responde para ele:
Hattie, pode me ouvir? Por que você só desenha com o giz azul?”

E a garotinha, feliz da vida: Só tenho esse giz, tio!”

Oliva, de novo para o espectador: E por que não? Picasso também teve sua fase azul…”

E nos apresenta a fofoqueira da cidade (Alena Kreuzmannová), uma velhinha serelepe que está sempre pulando, para tentar ver o que acontece dentro das casas. Naquele momento, a fofoqueira está tentando ver o que se passa numa casa em que um casal conversa. Oliva nos informa que eles não são casados, e vai em frente apresentando outros personagens, outras pessoas da cidade.

Um professor dedicado, querido pelos alunos. Um diretor de escola autoritário, crápula







O casal não casado, que Oliva nos mostrou bem en passant, será muito importante na história. Ele é Robert (Vlastimil Brodský), o professor do terceiro ano da escola. Ela é Julie (Jirina Bohdalová), funcionária da escola, secretária do diretor (Jirí Sovák). Namora Robert, parece querer casar com ele, já que é solteiro e disponível – mas não afasta com muita convicção os avanços do diretor da escola, que, naturalmente, é casado, e também autoritário, ditatorial, um perfeito crápula.

Robert sai da casa de Julie e dá uma passada rápida na sua própria casa, para alimentar os diversos bichos que tem lá, gatos, aves. E em seguida sai rumo à escola – mas, no caminho, usará uma pequena filmadora para gravar imagens dos pássaros que sobrevoam a cidade.

Entre os outros personagens que Oliva nos apresenta do alto da torre há Marjánka (Vlasta Chramostová), bela, sorridente trabalhadora no campo, e Janek (Karel Effa), o oposto dela, um sujeito preguiçoso, indolente, que está sempre pretextando alguma doença para fugir do trabalho.

E há o zelador da escola (Vladimír Mensík), puxa-saco emérito do diretor e seu pau para toda obra. Uma figura sabuja, asquerosa.

Robert, o professor dedicado, querido pelos alunos, que adora animais. O diretor autoritário, crápula, que tem licença das autoridades para caçar animais e empalhá-los. O bom e o mau.

Encontram-se no meio da praça central – Robert filmando os pássaros, o diretor matando um deles. Robert não consegue conter a palavra “Assassino!”, enquanto forma-se um grupo de gente em torno deles. Mais adiante, quando estão sozinhos os dois na escola, o diretor dirá para o professor seu desafeto:
Ouça, Robert, chamar o seu superior de assassino em público não parece uma crítica construtiva.”

Típica frase de um camarada para outro camarada sob o regime soviético e seus satélites.

Uma narrativa que voa para longe do realismo a cada instante

Num microcosmo, espelho da sociedade como um todo, gente boa, gente trabalhadora. Gente preguiçosa. Um dirigente que é um crápula. Temos aí os elementos básicos para o conto moral, a sátira política.

A narrativa voa para longe do realismo a cada momento. Os atores ensaiam pequenos passos de dança mesmo que sem qualquer música. Quando a cegonha abatida pelo diretor aparece empalhada pelo zelador, aquele manda que este dê uma rodada pela sala, como se o pássaro estivesse voando. A câmara do diretor de fotografia Jaroslav Kucera segue então o zelador, em círculos, sob a vista encantada do diretor, sua mulher e Julie, a secretária que ele bolinava momentos antes. Todos dançam, enquanto uma música circense realça a tragicomédia da situação.


Uma trupe circense com um gato de óculos escuros invade a cidadezinha






O professor Robert convida o velhinho Oliva para posar para seus alunos numa aula de desenho. O modelo senta-se diante dos garotinhos, e começa a contar para eles uma história fantástica que viveu muitos anos atrás, quando conheceu uma trupe de circo, com um mágico, a mulher mais bela que ele já havia visto na vida, chamada Diana, e um gato muito especial de que os dois cuidavam – um gato que usava óculos escuros.

Estamos com 25 minutos do filme quando a trupe circense da fantástica história contada por Oliva invade a cidadezinha.

A Diana da história fantástica é de fato linda, de uma beleza suave de coisa mágica. A atriz que a interpreta, Emílie Vásáryová (na foto), é uma absoluta gracinha.

O mágico é idêntico a Oliva – menos nas roupas, é claro, já que vem a caráter, de black-tie, e Oliva está sempre com seu macacão de brim. Naturalmente, os dois são interpretados pelo mesmo ator, o ótimo Jan Werich, já citado como um dos três autores do roteiro.

E aí vem a grande sacada do diretor Jasný, autor da história original, e de seus co-roteiristas. Claro que todo mundo que já ouviu falar de Um Dia, Um Gato está cansando de saber qual é a sacada – mas eu demorei um tantão para chegar a ela como se fosse um filme de suspense.

Quando alguém tira os óculos escuros do gato mágico, e ele olha para as pessoas ao redor, elas tomam as cores que revelam seu caráter.
Os mentirosos, hipócritas, ambiciosos, egoístas ficam roxos.
Os infiéis ficam amarelos.
Os ladrões ficam cinzas.
Os apaixonados ficam vermelhos.
Um balé fantástico, alucinante, alucinado. O filme tem algo dos velhos musicais americanos

E são esplendorosamente bem feitas as seqüências em que os olhos do gato desmascaram os habitantes da cidade, desnudam a cores o caráter de cada um.

É um balé fantástico, alucinante, alucinado – maravilhosamente encenado.

Um Dia, Um Gato tem algo dos velhos musicais de Hollywood, uma pitada grande de circo. As seqüências das crianças correndo pelas ruas, desenhando gatos em grandes folhas de papel, anteciparão o clima mágico que François Truffaut criaria em Idade da Inocência/L’Argent de Poche (1976), e Steven Spielberg refaria em algumas das cenas em que diversos garotos se reúnem em E.T. – O Extra-Terrestre (1982). E as seqüências de Robert e a bela Diana caminhando, correndo, dançando, levitando nos belos campos primaveris têm o clima de romance ideal, perfeito, onírico, que o sueco Bo Widerberg obteria poucos anos depois em Elvira Madigan (1967).

É mágico, é lindo, é fascinante.





quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Grupo de Estudos Educação Libertária realiza lançamento de obra de Francisco Ferrer em parceria com Biblioteca Terra Livre de São Paulo





No dia 14/11, sexta-feira, nosso  Grupo de Estudos Educação Libertária realizou uma bela atividade aberta ao público que foi  de Lançamento da primeira edição brasileira da obra "A Escola Moderna" do educador libertário catalão Francisco Ferrer y Guardia, escrita a mais de cem anos e nunca publicada em português. A atividade contou com a presença do pesquisador Rodrigo Rosa que é integrante do Coletivo Biblioteca Terra Livre de São Paulo, que produziu essa edição histórica. A Editora Biblioteca Terra Livre vêm realizando a bastante tempo um trabalho fundamental de divulgação  de obras clássicas do pensamento libertário em geral e sobre educação em particular.

O Laboratório de Educação Anarquista é um espaço de estudos e produção de experiências de educação libertária criado pelo Coletivo Biblioteca Terra Livre




Através do Laboratório de Educação Anarquista, a Biblioteca, constituiu  um espaço de estudos sobre  educação libertária e produção de obras a serem editadas. Neste ano a Editora já lançou os livros  "Escritos sobre Educação e geografia", de Élisée Reclus e Piotr Kropotkin e o primeiro livro infantil "Um dragão no reino de Orb" de Federico Zenoni. Nos meses de outubro e novembro a Biblioteca realizou diversas atividades de lançamento do livro de Ferrer, além de organizar o Colóquio Internacional Bakunin e a AIT, na USP,  nos dias 10, 11, 12 e 13 de novembro.  


Primeiro lançamento de livro infantil pela Biblioteca Terra Livre

 A atividade de lançamento que realizamo em Pelotas, se deu na Casa Okupa, 171, que é um espaço libertário de vivência, cultura e experimentação libertária de Pelotas que está  completando  5 anos e tem sido o espaço para os encontros do nosso  Grupo de Estudos. 

Na ocasião realizamos um bate-papo com Rodrigo sobre a experiência do Coletivo Terra Livre como espaço de ação e divulgação do pensamento libertário. Rodrigo destacou a importância dos Grupos de Estudo, Bibliotecas, assim como os Centros Sociais e Ateneus como as formas que criadas pelos anarquistas para efetivar uma educação libertária e que tiveram na experiência da Escola Moderna de Francisco Ferrer uma das mais significativas referências. Logo após o debate exibimos o documentário "Ferrer y Guardia uma vida para a liberdade",  realizado na Catalunha em lembrança aos 100 anos do fuzilamento do educador, ocorrido em outubro de 1909. A biblioteca Terra Livre legendou o filme e vêm divulgando este importante legado da Escola Moderna como a mais significativa experiência de educação libertária ocorrida na história.  O debate foi muito proveitoso reunindo não só os participantes do  nosso Grupo mas novX amigXs  que vieram conhecer tanto a história de Francisco Ferrer como nossa  experiência de Grupo de Estudos.  



(foto de Camila Hein)

Esta foi a primeira atividade pública do Grupo de Estudos Educação Libertária de Pelotas que, a partir do próximo período, pretende ampliar as  atividades  bem como divulgar o espaço do grupo para todXs que queiram somar-se a construção de uma educação libertária.

Por fim , agradecemos ao compas da Biblioteca Terra Livre, em especial o Rodrigo Rosa que realizou uma contribuição fundamental para o Grupo, abrindo perspectivas de novas parcerias e intercâmbios  daqui para frente.


(Foto de Camila Hein) 


terça-feira, 4 de novembro de 2014

Grupo de Estudos Educação Libertária/UFPel promove, em Pelotas, o Lançamento Livro "A ESCOLA MODERNA" do educador libertário Francisco Ferrer





O Grupo de Estudos Educação Libertária/UFPel, criado no ano passado,  surgiu com o objetivo de aprofundar os estudos acerca da teoria e práticas libertárias em educação, resgatando os autores clássicos do anarquismo como Paul Robin, Sébastién Faure, Francisco Ferrer, Bakunin, Reclus bem como os mais contemporâneos como Maurício Tragtemberg, Hugues Lenoir, Francisco Codello,  entre outros. São autores que tem permanecido à margem do ensino "oficial" da educação. Também incluímos  no campo libertário  autores que mesmo não se identificando como acratas propõe uma educação libertária como José Pacheco, Ivan Illich, Paulo Freire, Ruben Alves, Alexandre Neill.. Da mesma forma  também direcionamos  nossos estudos para os educadores e pesquisadores que hoje realizam seu trabalho teórico/ prático na perspectiva da Educação Libertária, possibilitando um espaço de troca de informações, de colaboração e compartilhamento de saberes a partir de uma prática libertária, ou seja, baseando os encontros do Grupo em uma dinâmica de autonomia do saber cooperativo e autogestionário. Foi com esse intuito que o Grupo abriu-se este ano para fora da Universidade, buscando construir-se como experimentação libertária com sujeitos libertários.




Foi a partir dessa ideia que encontramos Xs amigXs libertários da Casa Okupa 171, que tem na Casa um espaço libertário de convivência,  de arte, cultura  que neste ano completa 5 anos de existência. A integração dXs amigXs da casa ao Grupo de Estudos é um passo fundamental não só para  para a ampliação e fortalecimento do Grupo Educação Libertária mas sobretudo para que essa Ideia de Educação Livre e contra-hegemônica saia do esquecimento e seja conhecida e estudada por todXs  os libertários que atuam no âmbito da educação ou se interessem pelo tema, estejam ou não em alguma instituição de ensino.






Foi a partir desse objetivo que construímos essa atividade aberta de divulgação do Grupo de Estudos Educação Libertária na Casa OKUPA 171, junto com a 4 FLIA , Feira do Livro Independente e Autônoma de Pelotas(15 e 16 de novembro, também na Casa OKUPA, 171) .



A Atividade será o lançamento da primeira edição brasileira da clássica obra "A Escola Moderna" do educador libertário Francisco Ferrer y Guardia, realizada pela Editora Biblioteca Terra Livre de São Paulo neste ano. A Editora  vêm realizando um belo trabalho de estudos e divulgação das obras mais significativas do pensamento libertário. Desde 2010 a Editora mantém o Grupo de Estudos "Anarquismo e Educação" e recentemente fundou o Laboratório de Educação Anarquista(LEA).


Para esta atividade convidamos o pesquisador e integrante da Editora, Rodrigo Rosa, que trará ainda o documentário sobre a vida de Francisco Ferrer, produzido em Barcelona,  para realizarmos uma sessão comentada e debate. A Editora Terra Livre está nesses meses de outubro e novembro realizando uma série de Lançamentos e debates sobre a vida e obra de Francisco Ferrer.


Divulgação do Mês Ferrer, organizado pela Biblioteca Terra Livre 




A obra e seu autor




O Educador catalão Francisco Ferrer y Guardia é considerado como uma das principais referências do pensamento pedagógico libertário. Assim como outros educadores anarquistas, permaneceu e ainda permanece desconhecido para grande parte dos educadores ou estudantes de educação. Essa realidade pode ser comprovada pelo fato de que seu livro "A Escola Moderna",  escrito quando Ferrer estava preso em 1909, somente agora, mais de cem anos ganha uma edição brasileira.


Capa do livro publicado em espanhol em 1909, após o fuzilamento de Ferrer 



Conforme destaca o educador Silvio Gallo no prefácio da edição brasileira:

"O livro que o leitor tem em mãos levou muito tempo para chegar entre nós. Escrito em 1909 por Ferrer y Guardia nos fossos da fortaleza de Montjuic, em Barcelona, encarcerado pelo governo espanhol,  autor decidiu narrar aqui sua experiência com a criação e condução da Escuela Moderna de Barcelona, entre 1901 e 1906, bem como suas reflexões sobre uma educação antiautoritária, orientada para o desenvolvimento das potencialidades de cada ser humano. Seria publicado em espanhol pouco tempo depois do fuzilamento de Ferrer e o livro correria o mundo, como testemunho do criador da Escola Moderna" ( Gallo, 2014, p. 11)

O livro é o relato da experiência educacional da Escola Moderna, inaugurada por Francisco Ferrer  em Barcelona na data de 9 de setembro de 1901 e que durará até 1906, quando o governo fecha a escola e prende Ferrer com a acusação de que teria participado do atentado contra Alfonso XIII, Rei da Espanha que estava em visita na França. Sem obter provas contra o educador ele é posto em liberdade depois de mais de um ano encarcerado. Ao sair prisão  Ferrer não consegue reabrir a Escola, mas a Ideia já havia se espalhado não só pela Espanha mas para o mundo.Uma significativa quantidade de escolas racionalistas e laicas do modelo de Ferrer são abertas e começam a funcionar em diversos países. Ferrer torna-se um perigo para a igreja que até então mantinha o monopólio da educação e também é uma ameaça ao sistema quando a educação libertária chega aos trabalhadores que começam  a se auto-organizar e lutar contra as opressões do Estado e da Igreja.




Foto de uma turma da Escola Moderna de Porto Alegre, que funcionou na capital gaúcha entre 1916 e 1917, ano da foto. A Escola foi criada por militantes anarquistas e se localizava no Bairro operário do Bom Fim.


Em 1909 Ferrer é novamente preso e acusado pela igreja e polo governo de ser o mentor da rebelião popular ocorrida em Barcelona naquele ano, conhecida como a "Semana trágica". Desta vez , mesmo sem prova alguma, a condenação está definida. O governo quer "dar o exemplo" para que não surjam mais outros educadores como Ferrer.

A Escola Moderna de Francisco Ferrer tinha um claro objetivo: a emancipação dos trabalhadores, e para isso resgatava o exemplo da experiência do Orfanato de Cempuis, coordenado pelo educador anarquista Paul Robin. Eis o grande perigo que ameaçava o status quo. Conforme este trecho de uma carta de Ferrer enviada em 1900 para seu amigo J. Prats sobre a Ideia da Escola:

"Meu plano é que a escola seja de ensino primário(...), mista , quer dizer, de meninos e meninas juntos, como em Cempuis, e tal como entendo que haverá de ser a escola do porvir. Se durante o dia servirá a escola para as crianças, servirá a noite para os adultos dando cursos de francês, inglês, alemão, taquigrafia e contabilidade. Ao mesmo tempo serão dadas conferências e terá um local a disposição dos sindicatos e grupos de operários, sociedades de resistência que não se ocupem de eleições nem de melhorar sua classe, trabalhando para chegar a sua completa emancipação"( Jarré, 2006, p.97)

 O educador é fuzilado naquele ano de 1909. Entretanto o que os poderes não entendiam é que as Ideias são maiores que seus criadores. A Escola Moderna transformou-se no grande exemplo prático das possibilidades de uma Educação Libertária, ganhou o mundo e permanece viva até hoje.


Protestos na França em repúdio ao fuzilamento de Ferrer



O Legado de Francisco Ferrer y Guardia



O fuzilamento de Francisco Ferrer foi a tentativa de matar as ideias revolucionárias de construção de homens e mulheres livres. Ideias que continuam vivas assim como o projeto da Educação Libertária.     
Na apresentação da edição brasileira do livro a Editora Biblioteca Terra Livre destaca o significado da Escola Moderna para a educação em perspectiva libertária:

"Ferrer buscou aplicar seus princípios integralmente. Ele acreditava que a educação devia ser voltada para as crianças, pais , mães e para toda a sociedade, pois a atuação política de cada indivíduo acontece, principalmente, para além dos muros da escola. Compreender a importância da luta, levada adiante em várias frentes, abrindo sempre novas trincheiras para se avançar na constituição de um pensamento político-pedagógico libertário foi, talvez, uma das grandes qualidades do projeto da Escola Moderna"( trecho da apresentação do livro pela Editora Terra Livre)

Por fim destacamos esse trecho do prefácio de Silvio Gallo que diz muito em relação ao cada vez mais necessário conhecimento sobre a experiência da Escola Moderna para nossa  reflexão e transformação da educação atual  :

"Mais de cem anos nos separam da época em que esse livro foi escrito. Não obstante, a crítica contundente de Ferrer contra uma escola que não forma e não educa, apenas molda os estudantes segundo aquilo que um Estado autoritário deseja para manter um sistema de dominação e de exploração, continua atual. Também são atuais as propostas de Ferrer para uma "escola moderna". Se algumas foram incorporadas pelas escolas, inclusive por escolas autoritárias, que, ao tirarem  essas práticas de seu contexto, as modificaram segundo seus interesses, muitas outras seguem sendo uma novidade absoluta, esperando para mudar as práticas cotidianas nas escolas de nosso tempo. Enfim, as ideias de Ferrer ressoam e permanecem à espreita, aguardando aqueles indignados com a situação do mundo que estejam dispostos a atualizá-las, produzindo novas práticas educativas e sociais"(Gallo, 2014, p. 12)

Capa e contracapa da Edição brasileira lançada em agosto deste ano pela Editora Biblioteca Terra Livre




Com este recado  aos(s) IndignadXs,  convidamos todXs para a LANÇAMENTO da Edição Brasileira da obra A ESCOLA MODERNA" de Francisco Ferrer em PELOTAS.

A atividade será no dia 14/11/2014- Sexta-feira, às 17h30min na Casa OKUPA 171, na Rua XV de Novembro, 171, centro de Pelotas. 





Cartaz da atividade elaborado pelXs amigXs da Casa OKUPA, 171, que estará na cidade de Pelotas a partir dessa semana para divulgação 

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Cultura e Educação Libertária em Pelotas :Os 100 anos do Grupo Iconoclasta, por Paulo Marques



A historiografia sobre o movimento operário no Rio Grande do Sul reconhece que os municípios de Rio Grande e Pelotas foram pioneiros na auto-organização política dos trabalhadores, a partir da fundação de sindicatos, Centros Sociais e jornais operários na segunda metade do século XIX e inicio do Século XX. O pesquisador João Batista Marçal identifica Pelotas como  “berço do sindicalismo gaúcho”. Marçal destaca esse fato “não só pelo pioneirismo das lutas operárias como pela força que ali , nas duas últimas décadas do século XIX, ganhou a classe trabalhadora em força e pujança reivindicatória( Marçal,1985, p.109) . É de 1887 o ano de surgimento da “Liga Operária” de Pelotas que segundo a historiadora Silvia Petersen é “a mais antiga sociedade operária do Rio Grande do Sul”.

No contexto deste pioneirismo um fato que tem tido pouco destaque é o papel dos anarquistas bem como suas iniciativas no campo da cultura e da educação. Isto se dá muito pela hegemonia da historiografia marxista que mantém à margem ou simplesmente ignora a contribuição dos libertários. São poucos os livros que resgatam a história dos anarquistas gaúchos. Cabe destacar os estudos de João Batista Marçal, pioneiro neste resgate , assim como Edgar Rodrigues.

Obra pioneira de João Batista Marçal sobre os libertários gaúchos 

Os estudos de Edgard Rodrigues sobre os anarquistas no Brasil destacam a história do primeiro ativista ácrata que chegou no Rio Grande do Sul por Pelotas, o italiano José Saul, nos anos de 1880 que teria vindo da Colônia Cecília, a mais conhecida experiência de Colonia anarquistas criada por imigrantes italianos no Paraná. José Saul dará inicio a um trabalho de divulgação das idéias libertárias e vai ganhando adeptos. Conforme Edgar Rodrigues: 

"suas ideias escandalizavam os reacionários, preocupavam as autoridades e deixavam confusa a maioria dos trabalhadores pouco esclarecida. Apesar disso, firme em suas convicções libertárias, inicia um trabalho paciente de douttrinação e vai ganhando seguidores. O seu progresso ideológico cresce e não tarda a organizar os primeiros Grupos Libertários, mas as autoridades preocupadas com o avanço de suas ideias, resolvem expulsá-lo de Pelotas( Marçal apud Rodrigues, 1987, p.111)"

Todavia as sementes plantadas não tardaram a germinar com o surgimento dos primeiros Grupos Libertários de Pelotas que atuarão no meio sindical com inovadoras iniciativas de caráter político-cultural e educacional. Uma das mais significativas experiências foi desenvolvida pelo Grupo Iconoclasta, criado em 1914, ou seja, a cem anos.


O Grupo Iconoclasta de Pensadores Livres, constituiu-se como um dos primeiros coletivos de cultura libertária da cidade de Pelotas. Foi criado por um coletivo de ativistas anarquistas cujos principais nomes eram o jovem anarquista anti-clerical Victor Russomano, Zenon de Almeida,   Lemos de Almeida, Pedro Bischoff e Santos Barbosa . O nome Iconoclasta é simbólico para o movimento libertário, na media em que significa literalmente “quebrador de imagem” e tem origem no grego eikon(ícone ou imagem) e klastein (quebrar), ou seja, ser um iconoclasta quer dizer um indivíduos que não respeitam tradições e crenças estabelecidas ou se opõem a qualquer tipo de culto ou veneração seja de imagens ou outros elementos como as instituições opressivas como o Estado, a religião, a família monogâmica patriarcal, a propriedade privada, as hierarquias e opressões de todo o tipo.


Zenon de Almeida, O "Espartaco do sul", educador anarquista que atuou em Pelotas entre 1914 e 1916


Uma das figuras emblemáticas do Grupo Iconoclasta é Zenon Budaszewiski de Almeida militante anarquista conhecido nacionalmente. Nascido em Porto Alegre em 1892, foi jornalista, intelectual autodidata, teatrólogo, poliglota. Participou da criação e foi editor dos periódicos "Terra Livre" e "A Luta" ambos de Pelotas. Também foi o principal animador do Grupo Teatral 1 de Maio" e fundou o Ateneu Sindicalista Pelotense. Conforme estudo de Marçal no seu "Os anarquistas no Rio Grande do Sul". Zenon de Almeida lecionava no Ateneu às segundas e quartas feiras. Como educador anarquista e apaixonado pelo teatro Zenon de Almeida realiza em 13 de outubro de 1914, na atividade  que lembra o quinto aniversário da morte do educador catalão Francisco Ferrer, a apresentação de sua peça "Ideal Fecundo" sobre a vida de Ferrer, em dois atos. Zenon será conhecido como o Espártaco do Sul. Atuará em Pelotas, Porto Alegre. Na capital do Estado será fundador e professor da Escola Moderna de Porto Alegre junto com Polidoro Santos. Zenon terá papel dastacado nas greves de 1917. 

Conforme pesquisa de João Batista Marçal, no seu livro “Primeiras Lutas operárias do Rio grande do Sul” , o Grupo Iconoclasta será responsável por um conjunto de iniciativas e ações de agitação cultural e política na cidade de Pelotas a partir da realização de pesquisas sobre o movimento operário, a divulgação do ideário anarquista, fundação de jornais semanários como o “A Luta” , realização de comícios contra a guerra e organizador de ciclos de palestras com importantes ativistas anarquistas do Estado .

O Grupo funda o “Ateneu Sindicalista Pelotense”  que tinha a função de garantir educação para os trabalhadores;  o “Grupo de Teatro Social 1 de maio”, que funcionará na sede da Liga Operária. Segundo Edgard Rodrigues, a estréia deste grupo de teatro se dá com a peça “ Ideia Fecunda, Volta e Turcatos”. O Grupo Iconoclasta também participará de eventos nacionais como o Congresso Internacional da Paz , organizado pela Confederação Operária Brasileira, no Rio de Janeiro de 14 a 16 de outubro de 1915 do qual participaram dois membros do Grupo Iconoclasta, Pedro Bischoff e Santos Barbosa, representando os anarquistas Pelotenses.

Cem anos depois, podemos verificar que a cultura libertária em Pelotas renasce a partir de ações e atividades de grupos autogesttionários libertários que constróem espaços auttonômos de vivência e cultura-educação libertária como a Okupa 171, que já completa 6 anos de atividades, entre elas a Biblioteca José Saul, com acervo de obras raras sobre anarquismo. Nesse espaço, desde 2014 funciona o Grupo de Estudos sobre Educação Libertária que vem realizando um resgate dessa história. 






Referências

MARÇAL, J. B.  Os anarquistas no Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Palmarinca, 1995.
_______________Primeiras Lutas operárias no Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Globo, 1985. 
RODRIGUES, E. Os anarquistas trabalhadores italianos no Brasil. São Paulo, Global Editora, 1984.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Biblioteca Terra Livre lança a primeira edição brasileira da obra "Escola Moderna" de Francisco Ferrer y Guardia




Neste mês a Biblioteca Terra Livre (http://bibliotecaterralivre.noblogs.org) presenteou todXs os educadores com lançamento, de forma inédita,  da edição em português da obra "A Escola Moderna" do Educador catalão Francisco Ferrer y Guardia(1859-1909)  É um trabalho também histórico pois o livro, escrito em 1909,  ainda não havia sido editado no Brasil. Conforme destaca Silvio Gallo no belo prefácio a primeira edição brasileira o livro,  escrito quando Ferrer estava preso,  nasce quando ele  "decidiu narrar a experiência com a criação e condução da Escuela Moderna de Barcelona entre 1901 e 1906, assim como suas reflexões sobre uma educação antiautoritária, orientada para o desenvolvimento das potencialidades de cada ser humano".


Capa da primeira edição em espanhol do livro de Francisco Ferrer



O projeto da Escuela Nova, malgrado tenha existido por poucos seis anos, deixou um enorme legado que se espalhou por diversos países, inclusive o Brasil, como uma das mais significativas experimentações de educação libertária. Esse avanço do projeto se deu pelo enorme esforço de divulgação do próprio Francisco Ferrer que ainda criou uma Editora "LA Editorial" para publicar livros a serem usados nas escolas e editou um Boletim para divulgar as atividades da escola e suas propostas pedagógicas.





Boletim da Escola Moderna de São Paulo dirigida por João Penteado. 



Silvio Gallo no prefácio citado,  destaca as características da Escuela Nova de Francisco Ferrer:

"A escola criada por Ferrer foi o exato contraponto da escola em que ele estudou e que abominava: uma escola centrada nos dogmas religiosos, com os alunos fechados entre quatro paredes, em condições insalubres e sem higiene, organizada segundo um sistema meritocrático, que premiava os acertos e castigava os erros e falhas. A Escuela Moderna era um local amplo e arejado, com salas bonitas e bem decoradas, espaços múltiplos e pátios externos para atividades ao ar livre. Além disso eram frequentes as atividades fora da escola: visitas a fábricas, passeios pela praia para estudar a geografia local e assim por diante".

A Ideia da Escola Moderna ganhou adeptos em diversos países , sendo criada por militantes anarquistas, principalmente após o assassinato de Francisco Ferrer, acusado e condenado a morte pelo governo Espanhol que o acusou de ser o mentor da "Semana Trágica" , levante popular contra o envio de tropas espanholas para lutar no Marrocos.

No Brasil tivemos a criação de Escolas Modernas no modelo de Ferrer no Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre. Criadas por militantes anarquistas nas décadas entre as décadas de 10 e 20 do século passado, eram as únicas possibilidades de educação que a classe  trabalhadora tinha naquele período,onde as escolas existentes eram privilégios da classe dominante.


Foto de 1917 dos  alunos da Escola Moderna número 1 de Porto Alegre



Em Porto Alegre, conforme estudos de Silvia Petersen no seu "Antologia do Movimento Operário Gaúcho-1870-1937" e Edgar Rodrigues no seu "Alvorada Operária" , foi a partir da iniciativa de  um grupo de  libertários militantes da FORGS(Federação Operária do Rio Grande do Sul) que que foi criada a primeira Escola Moderna em 1914 no Bairro Navegantes. A Escola contava com 96 alunos menores e 25 adultos e tinha como diretor  J. Ervard. Uma ano depois mais uma escola seria criada com o nome de  Instituto de Educação e Ensino Racionalista, que seria conhecida como a Escola Moderna número 1, localizada na  Rua Ramiro Barcelos, 197 no Bairro Bom Fim que na época era conhecido como uma colônia africana em Porto Alegre, habitada por negros e judeus pobres, operários das mais diversas profissões. A Escola chegou a ter quatrocentos estudantes. A partir dessa iniciativa foi constituída a  Sociedade Pró-Ensino Racionalista fundado em 2 de abril de 1916.

O fim das escolas modernas do Brasil não foi diferente do que ocorreu na Espanha, foram perseguidas e fechadas pelo governo pois a educação racional, integral, libertadora dos preconceitos religiosos e estatais era um perigo para o sistema e a ideologia dominante.

Estas ricas experiências brasileiras podem ser conhecidas apenas  através de  estudos acadêmicos, pois são poucas as obras editadas em português sobre essas ricas experiências educacionais que marcaram o período de nascimento da organização política da classe trabalhadora no Brasil. Dessa forma podemos dimensionar a enorme  importância dessa edição brasileira da obra de Ferrer y Guardia para  futuras e necessárias pesquisas  sobre a educação libertária no Brasil.

Ao saudar essa grande iniciativa, fizemos nossa a afirmação da  Biblioteca Terra Livre na  apresentação do livro : " O projeto da Escola Moderna é, para nós, uma espécie de lanterna que ilumina, com sua incandescência rebelde, as trevas em que vivemos atualmente. 




Manifestação na França após o assassinato do Educar Francisco Ferrer em outubro de 1909. Na faixa da foto está escrito: " Francisco Ferrer, vitima da intolerância é um símbolo para os livre-penadores" 


Que este seja apenas o primeiro de muitos outros lançamentos que possibilitem o acesso de nossos educadores às revolucionárias ideias e experiências dos libertários para a educação.


Documentário do Coletivo Cinestesia sobre os projetos educacionais dos operários anarquistas de São Paulo no início do século XX, como alternativa à educação oferecida pelo Estado e pela Igreja.






Abaixo postamos o Documentário "Viva la Escuela Moderna" , realizado pela TVE espanhola sobre aa história de Francisco Ferrer y Guardia e seu projeto educacional libertário.


Memória e imagens da II JORNADA DE EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA DE PELOTAS

Nos dias 9, 10 e 11 de Outubro realizou-se na OCA, Ocupação Coletiva de ArteirXs a II Jornada de Educação Libertária de Pelotas. Essa...