sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Lançada a II JORNADA DE EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA de PELOTAS



II JORNADA DE EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA de PELOTAS 

9, 10 E 11 de Outubro de 2017

Local : OCA : Ocupação Coletiva de ArteirXs

Na Primeira Jornada de Educação Libertária de Pelotas realizada entre os dias 17 e 19 de maio de 2016 apresentamos como tema central “A educação de Anarquistas” cujo objetivo foi resgatar a contribuição dXs libertáriXs na história da educação brasileira em geral e gaúcha em particular, buscamos assim preencher uma lacuna marcada por um “esquecimento” nada involuntário da historiografia da educação Brasileira que até hoje não reconhece o papel fundamental da educação anarquista como a primeira experiência de Educação Popular realizada no país, ou seja, feita com e para as classes trabalhadoras, durante as primeiras duas décadas do Século XX. Além desse necessário resgate da memória histórica a I Jornada possibilitou o intercâmbio de pesquisas em curso sobre a Educação Libertária nas mais diferentes áreas do conhecimento. 

Nesta II Jornada entendemos ser necessário avançar para além da rica história da educação libertária dos anarquistas para refletir sobre outras tradições, mais antigas, mais profundas, que são as milenares formas de educação tradicional dos povos originários, que têm afinidades com as ideias educacionais anárquicas no que diz respeito aos processos de aprendizagens comunitárias sem Estado, sem mercado, sem a instrumentalização racional-burocrática do conhecimento; um “tradicional que é revolucionário” nas palavras de Pedro Garcia Olivo, escritor e anti-pedagogo que estará conosco nessa Jornada para debater essa “Outra Educação” em contraposição à educação ocidental, sob controle do Estado e do mercado. 

A II JORNADA DE EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA DE PELOTAS, direcionará, portanto, seu olhar para esse “Outro da educação ocidental” , conforme nos provoca Pedro Garcia Olivo ao afirmar que “precisamos voltar o olhar para esse “outro” da Escola, hoje negado, excluido, mistificado, subjugado, em vias de aniquilação. A dignidade dessa alteridade educativa, vinculada a formações sociais igualitárias, que desconheciam a fisura social e resistiam a farsa sangrenta de nossas democracias, assinalada, por um movimento complementar, el oprobio da Escola, construida sobre a figura do “aluno” em tanto “prisioneiro em tempo parcial”, do professor como “educador mercenário” e da pedagogía tal compêndio de autoengano docente e readaptadora do artificio socializador e subjetivizador. 

Convidamos assim, a todxs que queiram conhecer, analisar, estudar, refletir, debater, pensar sobre o significado dessas práticas educacionais ético-políticas milenares, hoje cada vez mais ameaçadas de destruição com “balas e escolas”, a participar dessa II JORNADA DE EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA DE PELOTAS.


IMPORTANTE: PRAZOS PARA ENVIO DE RESUMOS e PROPOSTAS de RODAS DE CONVERSA e OFICINAS: 01  à 22 de Setembro

As inscrições são gratuitas e podem ser feitas no site do evento : 

https://libertariosufpel.wixsite.com/jornada/inscricoes


Eixos temáticos:

1. Educação Libertária e intersecção com alternativas como Educação comunitária indígena, Pós-Escolarização e aprendizagens livres (teorias e práticas);


2. Educação Libertária e intersecção com as áreas das Ciências Sociais e Humanas (antropologia, pedagogia, história, geografia, literatura);

3. Educação Libertária e intersecção com estudos de gênero e étnico-culturais.




CONFERÊNCIAS



Dia 09/10 – 19h – Segunda-Feira


“Aprendizagem própria e comunitária, apoio mútuo e coletivismo índio: A experiência dos povos originários de Oaxaca- México

João Francisco Migliari Branco: Sociólogo, Mestre em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (2015) com pesquisa sobre “Movimento Docente, Insurreição Popular e respostas Coletivas de Educação Alternativa em Oaxaca-México” . Atualmente faz doutorado na Faculdade de Educação da USP com a Pesquisa sobre cultura e educação Indígena. Também é membro do GPEL - Grupo de Pesquisa de Poder Poder Político e Lutas Sociais - FEUSP.


Dia 10/10 – 19h Terça-Feira

"A Educação comunitária tradicional dos povos originários como resistência ético-política ao etnocídio da escolarização ocidental” Com Pedro Garcia Olivo


Pedro Garcia Olivo – Filósofo, escritor espanhol, se auto identifica como anti-pedagogo e crítico radical das democracias ocidentais. Licenciado em geografia e Doutorado em História pela Universidade de Múrcia com a tese “A polícia da História Científica” como uma crítica ao discurso científico. Foi professor do Departamento de História Moderna e contemporânea na Universidade de Múrcia. Durante a década de 80 trabalhou na Nicarágua junto a cooperativas. Foi pesquisador na Universidade de Budapeste. Abandonou a carreira docente e durante oito anos foi trabalhar nas montanhas como pastor de cabras no interior de Valencia na Espanha. Em 2001 regressou ao exercício da docência como professor de Geografia e História em Alpuente até Outubro de 2010 quando renuncia definitivamente a docência. Publica “O irresponsável” em 2000 que suscitou forte polêmica por suas críticas radicais a escola, não só as convencionais mas também às experiências alternativas. Escreve o também polêmico “Educador Mercenário, uma critica radical às escolas da Democracia”, onde faz uma crítica ao professor como mercenário do sistema capitalista. Escreveu vários livros sobre educação e crítica à sociedade ocidental. Atualmente realiza pesquisas sobre Educação tradicional índigena e cultura cigana. Entre suas obras destacam -se : “La bala y la escuela :Holocausto indígena” (2009); “El enigma de la docilidad. Sobre la implicación de la Escuela en el exterminio global de la disensión y de la diferencia”(2005); “Cadáver a la intemperie. Para una crítica radical de las sociedades democráticas occidentales”. (2013). “Dulce Leviatán. Críticos, víctimas y antagonistas del Estado del Bienestar”. (2014). “La gitaneidad borrada. Si alguien te pregunta por nuestra ausencia.( 2016).“Desesperar”(2014 em Português) ; “O Irresponsável” (2016 em Português); “O Educador Mercenário. Para uma crítica radical das escolas da democracia”(2017 em Português)



Dia 11/10 – 19h – Quarta-feira

“A Educação Comunitária e Anarquista: A contribuição de Proudhon e Émilie Lamotte”, com Luiza PAschoeto.



Profa. Luiza Paschoeto Guimarães: Doutora em Educação, pela PUC-Rio. Realiza estudos sobre a Educação Anarquista e sobre Pierre-Joseph Proudhon. Mestre em Educação pela Universidade Católica de Petrópolis (2008). Especialista em Docência do Ensino Superior pelo Centro Universitário de Volta Redonda (2000). Graduada em Pedagogia pela Fundação Educacional Rosemar Pimentel (1990). Docente de Disciplinas Pedagógicas: História da Educação e Laboratório de Prática Pedagógica. É Coordenadora do Curso de Licenciatura em Pedagogia; Docente de Disciplinas Pedagógicas em Cursos de Pós-Graduação Lato sensu em Centro Universitário Geraldo Di Biase- Volta Redonda/RJ



RODAS DE CONVERSA


Anarquismo e crianças: para além da escolarização” com Olívia Pires: Mestre e doutoranda em Educação pela UFRGS propôs como tema da Roda de onversa a pesquisa que está realizando: 

“O que andamos escrevendo? A escrita na academia como combate” . Com Luciano Bedin da Costa: Professor da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional da UFRGS. Autor de Estratégias Biográficas: biografema com Barthes, Deleuze, Nietzsche e Henry Miller (2011). 

“A história da Autogestão” com Claudio Nascimento, escritor, pesquisador autodidata da Autogestão.



LANÇAMENTO DE LIVROS:



“O Educador Mercenário. Para uma crítica radical das escolas da democracia” de Pedro Garcia Olivo. 

“O futuro de nossas crianças e outros ensaios” com artigos de Émilie Lamotte, Elisé Reclus, Domela Nieuwenhuis, Jean Grave, Charles Ange Laisant ( Editora Biblioteca Terra Livre, 2017) com Rodrigo Rosa ( Biblioteca Terra Livre) 

“58 combates para uma política do Texto” (Lumme Editor, 2017) com Luciano Bedin da Costa, autor.


OFICINAS



Leitura encenada : “Sobre a vontade de Imputar: O adolescente em conflito com a lei e o problema da responsabilidade”, com Prof. Édio Raniere e o grupo de Pesquisa “A vida que vem” . 

Oficina de vivência: movimento de decomposição filosófica da educação com Guilherme Schoreder :


segunda-feira, 3 de julho de 2017

As educadoras anarquistas individualistas: mulheres livres na Belle Époque, por Anne Steiner*



Nos trabalhos que reconstroem a gênese do movimento feminista apenas são citadas as figuras das mulheres anarco-individualistas do princípio do Século XX. Talvez, porque, sendo hostis tanto ao regime parlamentar como a relação salarial, se mantiveram a margem dos combates empreendidos pelas feministas da Belle Époque para a obtenção do direito ao voto e pela melhora das condições de trabalho das mulheres; e acaso também porque, com exceção de artigos publicados na imprensa libertária e de alguns panfletos hoje esquecidos, deixaram poucas lembranças escritas. 

Estas mulheres, que não foram nem reformistas nem revolucionárias, expressaram essencialmente seu rechaço às normas dominantes mediante práticas tais como a união livre, frequentemente plural, a participação nas experiencias de vida comunitária e de pedagogia alternativa e, enfim, mediante a propaganda ativa a favor da contracepção e o aborto ao lado dos militantes neo-malthusianos. Ao evocar seus itinerários e seus escritos, pretendo dar algo de visibilidade a estas “marginais” que desejaram, sem deixá-lo para hipotéticas manhãs de utopia, viver livres aqui e agora.


O anarquismo individualista: uma corrente emancipadora





O rechaço do obreirismo

Pode-se localizar no final dos anos de 1890 a aparição na França de uma corrente individualista no seio do movimento anarquista. Enfrentando tanto os anarquistas comunistas como os anarco-sindicalistas, tanto aqueles que sonham com a insurreição como quem põe todas suas esperanças na Greve Geral, se caracteriza pela primazia concedida a emancipação individual por cima da emancipação coletiva. Sua desconfiança a respeito de toda tentativa revolucionária procede em parte de que acreditam que ela esteja condenada ao fracasso, ao menos no futuro próximo, e de que rechaçam a condição de geração sacrificada:

Os individualistas são revolucionários, mas não creem na Revolução. Não crer nela não quer dizer que seja impossível. Tal coisa resultaria absurda. Nós negamos que seja possível antes de muito tempo; e completamos que, se um movimento revolucionário se produzisse no presente, ainda que saísse vitorioso, seu valor inovador seria mínimo […]. A revolução ainda está distante; e, posto que pensamos que as alegrias da vida se encontram no Presente, cremos pouco razoável consagrar nossos esforços a dito futuro [1].

Esta urgência por viver é reafirmada constantemente ao longo das colunas de L’anarchie, órgão dos individualistas anarquistas:“A vida, toda a vida, se encontra no presente. Esperar é perdê-la” [2]. Mas seu rechaço de trabalhar pela revolução se fundamenta também na certeza de que esta não poderia dar a luz um mundo melhor no atual estado das mentalidades:

Sempre temos dito que votar não servia de nada, que fazer a revolução não servia de nada, que sindicalizar-se não servia de nada enquanto os homens sigam sendo o que são. Fazer a revolução em si mesmo, liberar-se dos prejuízos, formar individualidades conscientes, é aqui o trabalho da anarquia [3].

Realizam, em efeito, uma constatação pessimista do estado de alienação em que se encontram submergidas as massas, de sua débil combatividade, de sua demasiada elevada natalidade, do excessivo consumo de álcool e tabaco.

Sua crítica do obreirismo é feroz. Acusam os revolucionários e os sindicalistas de render culto ao trabalhador, a um trabalhador de imagem de Épinal, sadio, vigoroso e orgulhoso. À classe operária redentora, sujeito da história, opõem “o lamentável rebanho” cuja resignação confirma a tese da servidão voluntária desenvolvida por La Boétie. Convencidos de que a opressão não se mantém mais que pela cumplicidade dos oprimidos, consideram que a luta contra os tiranos interiores deve acompanhar a luta contra os tiranos exteriores:

O inimigo mais áspero de combater está em ti, está ancorado em teu cérebro. É um, mas tem diversas máscaras: é o prejuízo Deus, o prejuízo Pátria, o prejuízo Família, o prejuízo Propriedade. Se chama Autoridade, a santa prisão Autoridade, ante a qual se inclinam todos os corpos e todos os cérebros [5].

É esta vontade de introduzir a racionalidade em todos os aspectos da vida cotidiana a que os conduzirá a reabilitar o prazer, a denunciar a repressão sexual e a instituição do matrimonio e a fazer da emancipação das mulheres uma condição da emancipação de todos. Convencido de que não pode haver regeneração social sem regeneração individual previa, o anarquista individualista é um “educacionista-realizador”, conforme a classificação proposta por Gaetano Manfredonia [6]; quer dizer, um militante que, a diferença do insurrecional ou do sindicalista, não considera a revolução nem possível nem desejável se não vá precedida de uma evolução das mentalidades.


Das Universidades Populares às Palestras Populares





Esta concepção da luta levou os anarquistas individualistas a participar da experiencia das universidades populares, nascidas no contexto da questão Dreyfus por iniciativa de Georges Deherme, operário tipógrafo de sensibilidade anarquista, e de Gabriel Séailles, professor de filosofia na Sorbonne. Por uma módica quota, os filiados tinham acesso a uma biblioteca de empréstimos de livros, cursos de idiomas, consultas jurídicas, e podiam assistir as conferencias que se organizavam em várias tardes por semana. Entre 1899 e 1908, duzentas e trinta universidades populares abriram suas portas no conjunto do território francês para um auditório de várias dezenas de pessoas. Suas modalidades de funcionamento variavam de uma para outra, mas o princípio era o mesmo: trazer os intelectuais ao povo e permitir a todos o acesso a cultura. Todos os temas, todas as disciplinas, eram abordadas por conferencistas voluntários, estudantes, jornalistas, professores de ensino médio, e, mais raramente, professores universitários, sem grande preocupação pela coerência. Se podia falar uma tarde de poesia contemporânea ou de arte egípcia e na seguinte de astronomia ou telefonia. Mas os oradores não dominavam sempre a matéria e a audiência carecia, na maioria das ocasiões, da formação de base que lhe permitiria captar o conteúdo das intervenções. Isto suscitou certo número de reservas, tanto entre os intelectuais, que temiam os prejuízos ocasionados por uma torpe vulgarização, como entre os militantes, que receavam que o cenário das universidades populares se transforma-se em campo de treinamento para jovens intelectuais mais ambiciosos [7] que generosos.




Foi este temor que levou os anarquistas individualistas Albert Libertad e Paraf-Javal a fundar as Palestras Populares [causeries populaires, em francês], mais explicitamente libertárias em seu modo de funcionamento. A primeiras sedes para as conferencias e os debates foram abertas nos bairros de Ménilmontant e de Montmartre; as seguintes, na periferia e inclusive nas províncias. 





Após o êxito obtido por estas iniciativas, alguns individualistas parisienses decidiram fundar um periódico para favorecer a circulação de ideias entre os diferentes grupos e intercambiar experiencias. Em abril de 1905 sai o primeiro número do semanário L’anarchie.Estas páginas –afirma o editorial- desejam ser o ponto de contato entre todos aqueles que, por todo o mundo, vivem como anarquistas, sob a única autoridade da experiencia e do livre exame”. O periódico, com una tiragem de seis mil exemplares, se converteu rapidamente no primeiro órgão individualista e garante uma nova visibilidade a uma corrente até então obrigada a expressar-se nas colunas de publicações libertárias de sensibilidade diferente. Aparece regularmente desde 1905 até 1914 e conta com numerosos apoiadores em províncias.


Trajetória dos e das militantes

Os filhos da primeira democratização escolar


Em sua grande maioria, os militantes anarquistas individualistas que gravitam em torno das Palestras Populares e que se reconhecem em L’anarchie são jovens operários parisienses, nascidos nas províncias entre 1880 e 1890, que deixaram a escola na idade de doze ou treze anos e que viveram dolorosamente esse contato precoce com o mundo do trabalho. Muitos deles se sindicalizaram e participaram de conflitos sociais violentamente reprimidos e condenados ao fracasso, o que durante muito tempo quebrou sua confiança na ação de massas. Arrancados de uma escola em que frequentemente haviam se destacado, mas que não lhes havia provido mais que um saber elementar, não podem reconhecer-se na classe social a que haviam sido atribuído. Estiveram, em efeito, escolarizados durante mais tempo que seus pais, operários ou camponeses apenas alfabetizados, sem que lhes oferecessem a menor perspectiva de mobilidade social. Em uma sociedade na qual a condição operária não melhora senão muito lentamente, se veem privados de toda possibilidade de desenvolvimento pessoal. Daí que se reconheçam naquilo que foi constatado por Victor Kibalchich, o futuro Victor Serge, em L’anarchie:

O que é viver para o anarquista? É trabalhar livremente, amar livremente, poder conhecer cada dia um pouco mais das maravilhas da vida… Reivindicamos toda a vida. Sabem o que nos oferecem? Onze, doze ou treze horas de trabalho por dia para obter a miséria cotidiana. E trabalhar sempre!!! que mesquinharia!!! Trabalho automático sob uma direção autoritária em condições humilhantes e indecentes, por meio do qual nos permite a vida na grisalha dos bairros pobres [8].

Esta vontade de escapar de uma condição considerada degradante conduziu alguns dos anarquistas individualistas ao ilegalismo, considerado como uma prática subversiva e um meio de sobrevivência à margem do salário. A falsificação de moeda ou de notas e o roubo são postos em prática por alguns camaradas, e as condenações à prisão ou a trabalhos forçados são, com frequência, o preço que tem que pagar. Esta deriva ilegalista atinge seu ápice em uma série de sangrentos assaltos perpetrados em 1912 na esteira da questão Bonnot. Um dos protagonistas desta trágica epopeia, Octave Garnier, faz eco das palavras de Victor Serge nas memórias encontradas no lugar de sua execução: “Porque não queria viver a vida da sociedade atual nem esperar estar morto para viver, me defendi contra meus opressores com todos os meios a minha disposição” [9].


Bando Bannot (Cartaz da polícia)


Mas, sejam partidários ou adversários do ilegalismo, os individualistas, para viver como anarquistas aqui e agora e não dentro de cem anos, como lhes exortava Albert Libertad, privilegiam, sobretudo a via da experimentação social. Fundam coletivos de moradia e de trabalho, tentam restringir seu consumo suprimindo todos os produtos daninhos ou inúteis, usam vestimentas simples, praticam o nudismo, defendem a liberdade sexual e usam meios para não ter mais filhos do que desejam. Esta busca de uma vida distinta se traduz igualmente em práticas como as baladas dominicais em espaços campestres nos arredores de Paris ou nas estâncias em Chatelaillon, uma cidade balneária ao sul de La Rochelle em que se encontram cada verão por iniciativa de Anne Mahé, co-fundadora de L’anarchie, para fazer “esta praia de magnífica areia, que os burgueses não invadirão pois mantemos em guarda, um rincão de camaradagem, à margem dos prejuízos [10]”.


A importância das mulheres no movimento

Numerosas mulheres se somaram ao discurso individualista e tomaram parte no movimento das Palestras Populares. Resulta muito difícil estabelecer cifras, posto que os anarquistas não mantinham um registro de seus filiados: formam uma constelação de contornos movediços. Mas todos os informes da polícia atestam sua presença nas reuniões e, em certas ocasiões, revelam seu assombro, enquanto que algumas fotos tomadas durante as baladas dominicais pelos próprios individualistas mostram que sua presença é abundante. Quase todas são jovens provincianas, de origem modesta, chegadas a Paris antes de cumprir os vinte anos. Muitas delas seguem seus estudos até conseguir o diploma elementar e se declaram professoras como profissão. Mas poucas delas chegaram até o final do cansativo processo de estágios, intercalado por longos intervalos sem receber salários, reservado então para aquelas que não haviam passado pela Escola Normal de Magistério. Para viver, recorriam a trabalhos de modista ou a postos em escritórios de pouca qualificação. O discurso individualista, que rompe com o obreirismo e propõe a todo o mundo perspectivas de emancipação imediatas, seduz estas jovens, aquelas cuja excelência escolar e seus esforços não tem conseguido lhes tirar de uma situação de miserabilidade. Algumas se convertem em colaboradoras regulares ou ocasionais de publicações anarquistas, fazem turnês de conferencias a convite de grupos libertários de províncias e escrevem panfletos que conseguem uma ampla difusão.

Outras, menos dotadas de capital cultural, deixaram poucos escritos e não aparecem mais do que nos informes da policia ou nos processos verbais de interpelação ou de registro. São criadas, lavadeiras, serventes, costureiras ou que tentam escapar a relação salarial montando postos de mercearia nos mercados. Imersas no meio, todas elas adotam seus códigos, se comprometem em relações duradouras ou efêmeras com camaradas, as vezes com vários simultaneamente, passando na maioria das ocasiões pelo matrimonio, e protegendo-se contra os nascimentos não desejados. Algumas, como Anna Mahé, que rechaçam toda intromissão do Estado em sua vida privada, chegam até negar-se a inscrever seus filhos no registro civil. Esforçando-se por viver como anarquistas sem esperar a manhã e por escapar a relação salarial, participam em experiencias de vida comunitárias e tentam educar de forma distinta a seus filhos, projetando com tal fim a fundação de estruturas educativas alternativas abertas a todos, realizando assim uma vocação de professora fora dos modelos laicos e congregacionistas, aos que refutam por igual. Pode-se vê-las nas manifestações e participam nas escaramuças que enfrentam os individualistas com seus adversários políticos ou com as forças da ordem. Outras, enfim, se encontram comprometidas em atividades ilegalistas como a emissão de moeda falsa ou estão implicadas em roubos e assaltos.


Refratárias e propagandistas ativas: algumas figuras


Antoinette Cazal, 28 anos. Nascida em Salgouz, costureira. anarquista.**

Eugéne Borreman, 23 anos. Nascida em Paris. 27/12/1870. Operária de fábrica de papel,  anarquista.


Caroline Loth Clotilde, 43 anos. Nascida em Valenciannes- Sem profissão, anarquista.


Annett Soubrier, 28 anos, nascida em Paris, Costureira, anarquista.



Appoline Schader, 19 anos , nascida em Paris. Acusação: Associação de malfeitores. 



As Educadoras


Rirette Maîtrejean: uma adolescente rebelde




Uma das figuras mais conhecidas do movimento é Rirette Maîtrejean, quem, depois da questão Bonnot, no qual esteve implicada, confiou suas memórias a uma grande publicação da época. Nascida em Corrèze em 1887, frequenta a escola primária superior e se prepara para a profissão de professora primária, mas o falecimento de seu pai lhe obriga a renunciar a seus projetos. Para escapar ao matrimonio que sua família pretende impor-lhe foge para Paris com dezesseis anos. Ali trabalha como costureira sem renunciar, no entanto, a completar sua formação intelectual. Rechaça o enclausuramento da condição de operária, frequenta a Sorbonne e as Universidades Populares, nas quais conhece as militantes individualistas que a descobrem nas palestras animadas por Albert Libertad e seus camaradas. São as recusas aos preconceitos em termos de classe e de gênero e a importância concedida a subjetividade o que seduz esta “sem classe”, filha de camponês convertido em pedreiro, professora obrigada a trabalhar com as mãos.

Pouco depois de sua chegada a Paris, se casa com um artesão, frequentador habitual das palestras, e traz ao mundo duas crianças com dez meses de intervalo. Antes de sua segunda filha completar dois anos deixa seu companheiro, com quem não tem relações intelectuais satisfatórios, para viver com um “teórico” do movimento, estudante de medicina, que mantém uma seção científica no L’anarchie. A seu lado se converte numa propagandista ativa e participa em todas as manifestações nas quais estão presentes os individualistas. Juntos se ocupam durante alguns meses da direção do periódico após a morte de Albert Libertad, e antes de embarcar em uma longa viajem que os levará até a Itália e Argélia.

De volta a Paris, o casal se separa e Rirette se converte em companheira de Victor Kibalchich, jovem anarquista individualista de origem russa já conhecido por seus artigos. Junto a ele, assume de novo a responsabilidade do órgão individualista, em um momento em que os debates em torno ao ilegalismo dispersam o movimento. Acusada de associação com malfeitores após uma serie de assaltos perpetrados por pessoas próximas de L’anarchie, da qual era na ocasião gerente oficial, cumpre um ano de prisão preventiva antes de ser finalmente absolvida. Depois de sua libertação, se afasta do movimento individualista ao condenar sua deriva ilegalista e no qual observa certas reservas políticas. Convertida em corretora nos anos que seguem a Primeira Guerra Mundial e filiada a sindicato de corretores, Rirette conserva, todavia, fortes vínculos com os meios libertários.


Victor Kibalchich(Victor Serge) e Rirette



Anne Mahé e Émile Lamotte: o combate por um pedagogia alternativa



Obra de Emilie Lamottte sobre a infância


Nascida em 1881, em Loira Atlântico, Anna Mahé frequenta o ambiente das Palestras Populares desde 1903, pouco tempo depois de sua chegada a Paris. Se ocupa, com Albert Libertad, da direção de L’anarchie, enquanto sua irmã Armandine, professora primária como ela, se encarrega da tesouraria. As duas compartilham a vida de Albert Libertad, do qual cada uma tem um filho. Mas logo se comprometem com relações afetivas com outros camaradas, que, como elas, vivem no número 22 da rua Chevalier-de-la-Barre, comunidade de habitação que é também a sede do periódico, e  que a policia e os jornalistas apelidam de o “Ninho vermelho”.

Anna é autora de numerosos artigos aparecidos no L’anarchie, assim como na imprensa regional, e de alguns panfletos. Escreve ‘ortografia simplificada’, pois estima que os ‘prejuízos gramaticais e ortográficos’ constituem um motivo da desaceleração da aprendizagem da língua escrita e estão a serviço de um projeto de ‘distinção’ das classes dominantes. Acusa a ‘tais absurdezes da linguagem’ de romper o impulso espontâneo das crianças em direção ao saber e de sobrecarregar inutilmente seu espirito. Considera, por outro lado, demasiado precoce a aprendizagem da leitura e da escritura; a iniciação científica, que se refere mais a observação e a experimentação, deveriam, em sua opinião, preceder aquela, pois poderia super um poderoso estímulo ao desenvolvimento intelectual da criança. Anna tem como suas referencias os pedagogos libertários Madeleine Vernet e Sébastien Faure, que aplicam métodos de pedagogia ativa no âmbito dos internatos [11], que eles mesmos criaram e animam.

Tem o projeto de fundar um externato em Montmartre que funcionaria conforme os mesmos princípios para as crianças do bairro, mas a realização de tal projeto, durante muito tempo impossibilitado por motivos financeiros, jamais verá la luz. Os informes da policia a descrevem como uma mulher de caráter que possui uma forte influência sobre Albert Libertad, inclusive depois do fim de sua relação com ele. Todavia, Anna não desempenhará mais que um papel menor depois da morte de Albert Libertad e deixará a direção do periódico para outros militantes.


A experiência da Colmeia de Sèbastien Faure era uma das principais referências de Educação para Emilie Lamotte


Émile Lamotte

Outra professora, Émilie Lamotte, deixou também sua marca nesse meio. Nascida em 1877 em Paris, antiga professora congregacionista e pintora aficionada, começa a escrever em 1905 no Le Libertaire, antes de colaborar no L’anarchie. Em 1906, funda, junto con algumas companheiras e companheiros, uma colonia libertária em um sítio de Saint-Germain-en-Laye, onde se estabelece com seus quatro filhos. Dotada de uma imprensa, de uma biblioteca e de uma escola, dita comunidade de trabalho e de moradia é um autêntico centro de propaganda anarquista. Émilie Lamotte, que é uma conferencista muito solicitada, se ausenta regularmente para embarcar em turnês de propaganda através de toda França. Nelas evoca sua experiencia profissional e expõe suas críticas tanto a escola confessional como a escola laica, que “ensina o respeito a Justiça, ao exército, a pátria, a propriedade, e a inferioridade do estrangeiro” [12], que anula a curiosidade natural da criança e lhe impõe uma disciplina tão nociva para o corpo como para o espírito.

O educador libertário está bem convencido pelo princípio de que o ensino em que a criança não é o primeiro artesão de sua educação é mais perigosa que proveitosa […]. Considera, intrépidamente, a criança como um gênio ao que deve apropriar-se da matéria de seus descobrimentos e os instrumentos de sua experiencia [13].

Da mesma forma que Anna Mahé, considera que o ensino científico deve ir a frente do ensino das sutilezas da língua e condena o “terrível sistema de castigos e recompensas” [14] todavia na prática da escola primária. Anima os libertários a organizar, nos bairros em que residem, estudos anarquistas que funcionem depois das aulas para oferecer às crianças do povo uma educação complementar capaz de contrapor “o pernicioso influxo” da escola. Émilié Lamotte leva a cabo, na palavra e por escrito, uma ativa propaganda neo-malthusiana e contribui a difundir certa quantidade de técnicas contraceptivas, das quais explica o princípio, as vantagens e os inconvenientes respectivos em detalhados folhetos, atividade que está sujeita a sanções penais.

No final do ano de 1908, abandona a colonia, que se desagrega sob o peso das tensões internas, e experimenta a vida nômade, recorrendo em caravana, junto a André Lorulot, seu companheiro na época, as Carreteras do Meio Dia, para dar uma série de conferencias. Contempla a ideia de chegar até a Argélia, mas, doente, morre no caminho poucos meses depois de sua partida, em 6 de junho de 1909, não distante de Ales, na Estação.


Jeanne Morand: criada e anarquista


Resta por evocar a figura de Jeanne Morand, originária de Saône-et-Loire, que chega a Paris em maio de 1905, com a idade de 22 anos, para trabalhar como criada. Educada em um meio familiar permeável as ideias libertárias, leitora assídua da imprensa anarquista, de pronto frequenta as Palestras Populares, e deixa seus patrões dois anos depois de sua chegada a Paris para instalar-se na sede de L’anarchie. É presa em diversas ocasiões por alteração da ordem pública, colagem de cartazes, participação em manifestações proibidas, etc.

Após a morte de Albert Libertad, de quem foi a última companheira, retoma durante alguns meses a gestão do Semanário individualista junto a Armandine Mahé. Suas irmãs pequenas, Alice e Marie, que se reúnem com ela em Paris, se movimentam nos mesmos círculos. Nos anos que precedem a guerra, Jeanne é nomeada secretaria de um comitê feminino que se mobiliza contra a lei que ampliava o serviço militar de dois para três anos. Publica então certa quantidade de artigos antimilitaristas na imprensa libertária e toma com frequência a palavra nos comícios. Em 1913, participa da criação de um ‘curso de dicção e de comedia’, dependente do ‘Teatro do Povo’ e toma parte igualmente na fundação de uma cooperativa de cine libertário, ‘o cine do povo’, que produz obras documentais e de ficção que mostram as condições de vida dos operários e da organização das lutas.

Durante a guerra se refugia na Espanha com seu companheiro, Jacques Long, desertor; más tarde, volta a França e retoma clandestinamente a propaganda antimilitarista. É condenada em 1922 a cinco anos de prisão e a dez de exílio por propagandear a deserção. Ao tribunal que a acusa de ser uma anti-patriota ela responde “que impedir a morte de jovens franceses é um ato mais patriótico que enviá-los a ela”. Empreende duas greves de fome para obter o reconhecimento de presa política e recebe um amplo apoio no exterior, inclusive para além do movimento libertário. Ao sair da prisão, conserva fortes laços com vários de seus antigos camaradas, mas sua militância é menos ostensiva: em 1927 é eliminada da lista de anarquistas vigiados pela policia. Afligida por delírios paranoicos, nos anos posteriores conhecerá uma vida errante e de miséria.

Uma herança ignorada

Todas estas mulheres tem em comum, através da diversidade de suas trajetórias, o ter rechaçado por sua vez o matrimonio, que assimilavam a uma forma de prostituição legal, e a condição de dominadas e exploradas que lhes oferecia o marco das relações salariais. Se apropriaram das possibilidades de emancipação imediata que lhes oferecia o único movimento político que concedia a esfera privada uma importância determinante. Mediante a invenção de novas formas de vida, que incluíam as experiencias comunitárias, a educação antiautoritária das crianças, a afirmação de uma sexualidade livre, levaram a cabo uma forma exigente de propaganda pelo feito.

A Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa, na qual se somaram alguns individualistas, aceleraram a descomposição da herança de Albert Libertad, já debilitada pelo sectarismo e certas derivas sectárias. Todavia, podem encontrar-se, nas aspirações do movimento que sacudiu a juventude ocidental ao final dos anos sessenta, a maioria dos ideais que defenderam estas mulheres, e pode reconhecer-se o ‘gozar sem limites’ dos libertários de Maio como um eco distante do ‘viver sua vida’ dos anarquistas individualistas da Belle Époque.

* tradução Paulo L. Marques

Notas: 

[1] Le Rétif (Victor Serge), l’anarchie, 14 de diciembre de 1911.
[2] Le Rétif, l’anarchie, nº 309, 9 de marzo de 1911.
[3] Bénard, l’anarchie, 26 de mayo de 1910.
[4] “¡Que lamentável rebanho! […] A medida que seus ossos se descarnam, que suas costas se curvam sob o peso do sobretrabalho cotidiano, as fortunas de seus amos se fazem mais escandalosas, seu luxo mais insolente. O que lhes importa, estão contentes com sua sorte […] Não conhecem a observação, o estudo, a rebelião. A tasca, o futebol, isso o que lhes interessa”, se podem ler no Le Combat social (dezembro de 1907, nº 15), publicação dos operários das guanterías de Saint Junin ganhos para a causa do anarquismo individualista.
[5] Libertad, l’anarchie, 12 de julio de 1906, Le Culte de la charogne, Marsella, Agone, 2006, p. 239.
[6] Gaetano Manfredonia, Anarchisme et changement social, Lyon, Atelier de création libertaire, mayo de 2007.
[7] Cf. o balanço crítico realizado por Marcel Martinet, escritor e militante revolucionário nascido em 1887, em sua obra Culture prolétarienne, Paris, Agone, 2004, p. 83.
[8] Le Rétif, l’anarchie, nº 354, 18 de enero de 1912.
[9] Memorias de Octave Garnier, Archivos da prefeitura de policia citados por Jean Maîtron en Ravachol et les anarchistes, Paris, Gallimard, 1992, p. 183.
[10] Anna Mahé, Les amis libres, l’anarchie, nº 118, julio de 1907.
[11] Sébastien Faure fundou em 1904, perto de Rambouillet, o internato A Colmeia, que funcionou até 1917, e Madeleine Vernet dirigiu, desde 1906 até 1922, o orfanato El Porvenir Social. Estes dois estabelecimentos eram mistos e aplicavam os métodos da pedagogia ativa predicados pelos libertários, e já posto em prática na Escola Moderna de Barcelona pelo anarquista Francisco Ferrer, fusilado em outubro de 1909.
[12] Émilie Lamotte, L’éducation rationnelle de l’enfance, édition de l’Idée libre, Paris, 1912.
[13] Ibid.
[14] Ibid.

**Fotos do Site: http://www.lapetitehistoireillustree.com/portfolio/les-anarchistes-de-bertillon/ 
















segunda-feira, 26 de junho de 2017

MINI CURSO LIVRE "Obras Clássicas de Educação Libertária" inicia no dia 30 de junho em Pelotas.







O Projeto MULTIVERSIDADE AUTOGESTIONÁRIA DE APRENDIZAGENS LIVRES DA OCA  iniciará no dia 30 de junho o MINI-CURSO LIVRE "Obras Clássicas da Educação Libertária", ministrado pelo professor Paulo Marques da FaE/UFPel.

Serão 7 encontros de apresentação de 7 obras consideradas clássicas do Pensamento e das Práticas de Educação Libertária.

Os Encontros serão realizados na Biblioteca Libertária da OCA. Rua Dona Mariana, número 1, Porto- Pelotas-RS.

Os encontros terão duração de 2h com inicio as 15h. Todas as sextas-feiras.

Serão disponibilizadas 15 vagas. As inscrições podem ser realizadas por email. plamarques@yahoo.com.br

O primeira encontro, dia 30 de junho apresentará a texto de Max Stirner "O Falso princípio da nossa Educação", escrito em 1872 e editado no Brasil pela Editora Intermezzo com nova reedição de 2016.



No segundo encontro, dia 07 de julho, será apresentado o livro "O pensamento de Proudhon em educação", Coletânea organizada pela Editora Imaginário em 2016 que reúne excertos sobre educação nas obras do filósofo.




No terceiro encontro será apresentado o texto clássico  "A Instrução Integral" da recém lançada coletânea de textos de Bakunin:  "Educação, ciência e Revolução", editada pela Intermezzo em 2016.





No Quarto encontro, dia 21 de julho teremos "Escritos sobre Educação e Geografia" de Elisée Reclus e P. Kropoktin. Publicado pela Editora Terra Livre, em 2013.



No quinto encontro, dia 28 de julho teremos a exposição sobre "A Colméia, Uma experiência pedagógica" livro de Sèbastién Faure, escrito em 1917 e  lançado em 2015 pela Editora Terra Livre.



No Sexto encontro, a obra de Francisco Ferrer "A Escola Moderna" , editado pela primeira vez no Brasil, também pela Editora Terra Livre em 2014.



No Sétimo encontro será apresentadas as Cartilhas Pedagógicas de Leon Tolstói, "Contos da nova Cartilha" Vol. 1 e 2. criadas por ele para seu projeto de Educação Camponesa, Iasnaia Poliana, realizado na Rússia no final do Século XIX. As Cartilhas foram editadas no Brasil pela Atelie Editorial. Neste encontro será abordado o pensamento Educacional Libertário do escritor russo.







quinta-feira, 4 de maio de 2017

Grupo de Estudos Educação Libertária agora integra o Projeto MULTIVERSIDADE AUTOGESTIONÁRIA DE APRENDIZAGENS LIVRES DA OCA





O Grupo de Pesquisa e Estudos  sobre Educação Libertária reinicia seus encontros nesse semestre incorporando-se como uma das atividades do Projeto MULTIVERSIDADE AUTOGESTIONÁRIA DE APRENDIZAGENS LIVRES DA OCA. Assim os encontros do Grupo serão  realizados todos na OCA . Rua Dona Mariana, 1, Porto, Pelotas. As sextas-feiras , de forma quinzenal a partir das 14h. 

Nos encontros desse Semestre trabalharemos os projetos de pesquisa, TCC, dos integrantes do grupo e as obras de Ivan Illich em especial a " Convivencialidade" bem como  obras de outros pensadores da Educação Libertária previamente escolhidos pelos participantes.






Material de estudos da obra de Ivan Illich que estudaremos nesse Semestre



O Grupo de Estudos e Pesquisa Educação Libertária realizará também nesse Semestre os "Encontros Nietzsche" em conjunto com o Grupo de Pesquisa Vida que Vem: arte, política e processos de subjetivação. 

Os encontros serão as quartas, quinzenal, na OCA, das 15h30min às 18h30min. 

A reunião de abertura dos Encontros Nietzsche será dia 10/05- as 15h30min na OCA


Todos os encontros são abertos aos interessados, acompanhe as datas e horários da Programação












CRONOGRAMA 2017-01

REUNIÕES DO
GRUPO DE PESQUISA EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA 

E

ENCONTROS NIETZSCHE



03/05 - Encontro do Grupo de Estudo

Tema: Definição das temáticas do Semestre

Apresentação Projeto de Pesquisa Bruna: “O ethos Libertário na Educação: O Estudo da construção de uma experiência de Educação Livre no Ensino Público


10/05- Primeiro Encontros Nietzsche

Primeiro encontro do Vida que Vem: arte, política e processos de subjetivação com o Grupo Educação Libertária do Projeto Multiversidade: projeto coordenado por professor Paulo Marques. Cujas temáticas circulam em torno do anarquismo e da educação libertária.


19/05- Encontro do Grupo de Estudo

Pauta: Apresentação Projeto Pesquisa Luiza Elói


24/05- Encontros Nietzsche

Apresentação de Pedro e a Responsabilidade. Texto de autoria de Lorraine Clara e Édio Raniere que sintetiza boa parte dos debates realizados pelo grupo de pesquisa Vida que Vem: arte, política e processos de subjetivação em 2016/01.


02/06- Encontro do Grupo de Estudo

Apresentação Projeto Pesquisa Rafa


07/06- Encontros Nietzsche

Apresentação do Projeto Multiversidade.

06/06- Encontro do Grupo de Estudo

LIVRO  “Convivencialidade” Ivan Illich


21/06- Encontros Nietzsche

Apresentação de Sobre a Vontade de Imputar: o adolescente em conflito com a lei e o problema da responsabilidade: palestra proferida por Prof. Édio Raniere no evento Nietzsche e a Psicologia, em Novo Hamburgo. A qual sintetiza boa parte dos debates realizados por este grupo de pesquisa em 2016/01.

30/06- Encontro do Grupo de Estudo


05/07- Encontros Nietzsche

Texto sugerido para debate: Segundo Capítulo do livro Nietzsche e a Verdade p.51 a p.81. Autor: Roberto Machado.

14/07- Encontro do Grupo de Estudo



19/07- Encontros Nietzsche

Texto sugerido para debate: Nietzsche e a Filosofia. Autor: Gilles Deleuze. p.36 a 52

Horário: 15h30 as 18h30.

28/07- Encontro do Grupo de Estudos



02/08- Encontros Nietzsche
Texto sugerido para debate: Nietzsche: Vida como obra de Arte. Autora: Rosa Dias. p.49 a 54 + 85 a 96

11/08- Encontro Grupo Estudos

16/08- Encontros Nietzsche

Texto sugerido para debate: Segunda Dissertação – Culpa, má consciência e coisas afins. Livro: Genealogia da Moral. Autor Friedrich Nietzsche.

23/08- Encerramento Dionisíaco. Banda. Sarau Nietzschiano.


AGENDE-SE

Encontros do Grupo de Pesquisa Educação Libertária – Sextas- Quinzenais- das 14h-16h

Encontros Nietzsche: Quartas- quinzenais- das 15h30m às 18h30min

quarta-feira, 26 de abril de 2017

A Revista Víbora: provocações com gosto de anarquia na década de 1980, por Cleber Rudy


Uma das características  que marcam a ação direta anarquista no campo cultural-educacional é a criação de instrumentos de informação, divulgação e formação cultural como jornais, editoras e revistas. Na história do anarquismo brasileiro não foi diferente. Desde o final do Século XIX com a chegada de imigrantes europeus libertários foram criados diversos jornais e publicados livros e revistas libertárias. Após os anos 30 o anarquismo teve um descenso com o avanço do marxismo no movimento operário. Mas nos anos 80 do século passado temos um renascimento do anarquismo brasileiro que se expressou em um conjunto de iniciativas, principalmente na produção de publicações libertárias como jornais e revistas, criação de editoras,  reconstrução de Centros de Cultura Social que possibilitaram um novo potencial para o anarquismo mostrando  enorme riqueza do pensamento libertário. 
Como forma de retomar o fio dessa história recente, publicamos aqui no blog  o artigo do pesquisador  Cléber Rudy que resgata os principais protagonistas desse processo de retomada da ação direta anarquista no Brasil na década de 80, bem como as principais publicações. Destacamos aqui a análise que o autor faz da revista Víbora que consideramos como uma das mais criativas, revolucionárias e anárquicas dentre as publicações daquele período, bem como o reconhecimento do trabalho único de editores como Plinio Augusto Coelho, que ha mais de 30 anos é um dos maiores editores de obras anarquistas do Brasil. Prestamos assim uma homenagem a esses espíritos livres que contribuíram e ainda contribuem para a potencialização do pensamento anárquico nessas terras macunaímicas. 

Artigo publicado no blog http://culturadissonante.blogspot.com.br/ na data de 22 de julho de 2013.





A Revista Víbora: provocações com gosto de anarquia na década de 1980


Antonio Cleber Rudy




Ao final da década de 1970 através do processo de abertura que sinalizava o desgaste e o fim da ditadura militar no Brasil, novas articulações políticas se vislumbram, num cenário marcado por diversas greves, pelo retorno da liberdade de imprensa, pela anistia, pela reorganização sindical e partidária, atmosfera essa de mudanças, que inclusive, despontaria na retomada de projetos de tons anarquistas, cingidos ao pensamento da contracultura.

Nestas circunstâncias de novos anseios políticos por parte de uma sociedade que vivenciou anos de ditadura, “o impacto dos movimentos sociais em 1978 levou a uma revalorização de práticas sociais”, mediante “manifestações de um comportamento coletivo de contestação da ordem social vigente” (SADER, 1991, 26 e 30), canalizada em parte por organismos libertários, que davam os primeiros passos na reorganização do anarquismo no Brasil, através da retomada de publicações, como denota a criação do jornal O Inimigo do Rei, em 1977, elaborado por estudantes da Universidade Federal da Bahia, e que em sua trajetória propagandista converter-se-ia em porta-voz do movimento anarquista brasileiro.

Em meio a esse caldo cultural de verve libertária que começava a ganhar forma, ao final da década de 1970, na esteira do jornal O Inimigo do Rei, vê-se o surgimento das revistas: Barbárie (1979), na Bahia e Autogestão (1979), em São Paulo, assim como, da Editora A - a partir da iniciativa de coletivos libertários constituído por jovens -, responsável pela publicação e distribuição de obras anarquistas1 . E no limiar da década de 1980, “livros anarquistas circulavam pelas livrarias, filmes de protesto eram exibidos em cineclubes, peças de teatro libertárias e de contestação também expressavam ideias de emancipação e rebeldia”.2 Neste contexto de sonhos e esperanças, a década de 1980 simbolizou no Brasil uma expressiva difusão das ideias libertárias, com a publicação ou a reedição das obras de pensadores como Bakunin, Proudhon, Malatesta e Kropotkin3 , ou ainda com a produção de trabalhos acadêmicos acerca do movimento anarquista brasileiro, a exemplo de Nem Pátria, Nem Patrão! de Francisco Foot Hardman4 . Por sua vez, em Brasília no ano de 1984, nascia a editora de cunho libertário Novos Tempos pela iniciativa de Plínio Augusto Coelho, que retornava da França, após uma estadia de oito anos em Paris, onde convivera com anarquistas como o franco-russo Alexandre Skirda, importante historiador da Revolução Russa e um incentivador da difusão da literatura anarquista. Trazendo na bagagem inúmeros textos anarquistas (posteriormente traduzidos por ele para o português), através da editora Novos Tempos5 , Plínio impulsionou a circulação de diversas obras anarquistas (inéditas em língua portuguesa), gama de publicações inaugurada com a obra: Proudhon: Pluralismo e Autogestão, do sociólogo francês Jean Bancal6 , fundador da revista Autogestions. Aliás Bancal marcava presença no final de 1984 em diversas cidades brasileiras7 , onde realizou palestras sobre o pensamento proudhoniano, enquanto evento promovido pela editora Novos Tempos. E no calor da hora, diversas formas de expressão foram gestadas em torno da rearticulação do anarquismo, tais como a reabertura do Centro de Cultura Social em São Paulo (CCS-SP)8 em 1985, importante entidade divulgadora do anarquismo e do anarcosindicalismo. No mesmo ano no Rio de Janeiro ganhava forma o Círculo de Estudos Libertários (CEL)9 e em Salvador, na Bahia o Centro de Documentação e Pesquisa Anarquista (CDPA). Nessa senda, alguns libertários10 no ano de 1986 criavam o Grupo Projeção (posteriormente conhecido por Círculo Alfa de Estudos Históricos), visando preservar a memória do Movimento Anarquista, por meio de criação de um arquivo – já que (sobretudo) as ditaduras (1937-1945; 1964-1984) pela qual o Brasil passou haviam confiscado e destruído parte dos acervos de produção anarquista11.

Encontros de cunho libertário também germinavam, em espaços como o Nosso Sítio (em Moji das Cruzes-SP), o CCS-SP, ou em universidades brasileiras, etc. Tais anseios libertários projetavam pólos aglutinadores e difusores de norte a sul, e assim, em fevereiro de 1986 por iniciativa de militantes anarquistas do Sul, era realizada em Florianópolis a Primeira Jornada Libertária12, com a presença de libertários de diversas partes do Brasil, os quais buscavam redefinir estratégias para o “movimento libertário, diante do quadro político atual, e discutir a rearticulação do Anarquismo no Brasil”.13 Assim encontros de cunho libertário ocorridos em várias partes do Brasil na década de 1980 fomentavam discussões focadas em temas múltiplos, entre os quais: educação libertária, feminismo, representação política14 ecologia, sexualidades, psicanálise (a partir dos estudos de Erich Fromm e Wilhelm Reich) tornada prática “revolucionária” e libertária através da criação do SOMA terapia por Roberto Freire.

Em meio a isso, o anarco-sindicalismo era reabilitado enquanto instrumento de ação e oposição a estrutura sindical através da formação de núcleos pró-COB (Confederação Operária Brasileira), e perceptível nas páginas do jornal O Inimigo do Rei, ainda como, na publicação de obras como: El Sindicalismo Revolucionário en El Brasil (1988), numa iniciativa de membros do CCS-SP e da COB, entre os quais Jaime Cubero e José Carlos Orsi Morel. Por sua vez, o jornal A Voz do Trabalhador – antigo porta-voz da COB15 – era reativado em 1988, em meio à realização de cursos sobre anarco-sindicalismo promovido pelo Centro de Cultural Social, assim, em uma das brochuras confeccionadas para um desses cursos realizado entre novembro e dezembro de 1989, tem-se: “é necessário estudar para poder sabiamente combinar teoria e prática, análise e militância: a teoria sem prática é estéril, a prática sem teoria é cega”16. Também em torno das discussões promovidas pelo CCS-SP e dos núcleos pró-COB, ganhava forma à Juventude Libertária (JULI), a partir da absorção de alas jovens, que redundava no surgimento de diversos órgãos de divulgação do anarquismo no Brasil, diante de uma conjuntura política travestida de incógnita, que instigava desejos radicais de mudança da sociedade.

Mas seja como for, era através de uma imprensa alternativa17 editada por jovens idealistas (especialmente estudantes universitários vinculados ao Movimento Estudantil) identificados com as propostas de lutas libertárias, que parte considerável dos debates políticos munidos por perspectivas anarquistas ganharam corpo entre as décadas de 1970 e 1980. Publicações estas alimentadas por elementos da contracultura, que evocavam uma identidade de luta juvenil com ares do maio parisiense de 1968, denotando assim, ao anarquismo brasileiro, novas especificidades. Neste sentido, uma gama de publicações denominadas libertárias dividia o cenário brasileiro, entre as quais, o já referido jornal O Inimigo do Rei e as revistas Barbárie e Autogestão, que acabariam por abrir caminho para que outros impressos surgissem na década de 1980, tais como, as revistas: Germinal (RJ, 1980), e Utopia (RJ, 1988-1992) o jornal: Libertárias (SP, 1989), os informativos: O Coletivo Libertário (SP), Falange Anarquista (SP), Combate Sindical (SP), etc.

Desta forma, é neste contexto de diversas publicações alimentadas por ambições libertárias, que em março de 1981 surge em Brasília à revista Víbora, com seu “olhar sobre a miséria política e humana” e que marcaria uma trajetória efêmera de oito números publicados (entre 1981-1988), vendidos em bares, feiras e eventos, que deixaram sua marca (e seu veneno) quer na contracultura, quer no anarquismo que convulsionou o Brasil dos anos 80 frente às esperanças de novos tempos.

Assim, no editorial do primeiro número da revista Víbora – editada pelo escritor, viajante e psicólogo Ézio Flávio Bazzo -, que estampa o dístico: “uma revista que promove a dúvida”, tem-se: “nossa revista procurará apenas levar um pouco de veneno até os subterfúgios mais esquecidos dos leitores”. Trazendo referências anarquistas que passavam por Peter Alexeyevich Kropotkin, Pierre-Joseph Proudhon, Emma Goldman, reivindicava em suas páginas uma versão de socialismo libertário que agrupasse peculiaridades individualistas à associação cooperativista. Depositando esperanças revolucionárias na Psicologia (tendo como baliza Wilhelm Reich), em texto intitulado Ecologia, Sociedade, Anarquismo, publicado na revista Víbora tem-se: “a Psicologia, com sua reivindicação da necessidade de autorrealização individual (...) coincide também com o anarquismo em colocar o indivíduo como valor prévio e prioritário à sociedade”.18 Valorização dessa fonte de energia chamada indivíduo, que encontrava respaldo através da obra: O Único e a sua Propriedade19, do filósofo alemão Max Stirner20 (1806-1856), e que fazia parte da bagagem de leituras dos editores da revista Víbora, aliás, o segundo número da revista publicado ainda no ano de 1981 trazia fragmentos de El Unico y su Propriedad. Não obstante, Max Stirner um defensor do indivíduo (enquanto força criadora) contra as amarras sociais e à opressão coletiva, que com ferocidade atacava os preconceitos morais e os defensores do Estado, ganhava espaço em certos circuitos anarquistas, mediante um conjunto de idéias que seria comumente denominado de anarco-individualismo, e que demonstravam a dinâmica heterogênea do anarquismo.





Tendo como inspiração editorial a revista mexicana CAOS (1979), a revista Víbora que ostentava diversos dísticos: “uma revista que proclama a individualidade (e que odeia os servos e os rebanhos)”, “uma revista que proclama o impossível”, “uma revista que espalha o caos”, “uma revista que une o inútil ao desagradável”, reproduzia em suas páginas um caleidoscópio de assuntos permeados por: anarquismo, dadaísmo, surrealismo, niilismo, filosofia, antropologia, ciganologia, futurismo, e por textos e referências que passavam por Albert Camus, Charles Baudelaire, Marquês de Sade, Arthur Schopenhauer, Jean-Paul Sartre e Friedrich Nietzsche, demonstrando desta forma, a nova cara dos anseios libertários que ganhavam corpo pelo viés da contracultura, no pós-Maio de 1968, e que no cenário brasileiro seria perceptível, sobretudo mediante a reabertura democrática, que deixava para trás os tormentosos anos vividos sob a aura política do AI-5, que havia levado o anarquismo a clandestinidade.

Tratando-se de uma publicação de tendência libertária (sem vínculos diretos com o Movimento Anarquista) e alternativa à imprensa marxista, a revista Víbora mesclava política, contracultura e ácidas provocações, que com seu estilo irreverente e liberta de agremiações, publicava textos que considerava uma afronta à mediocridade vigente. Apontando para essa liberdade e irreverência presente na produção da revista Víbora, tem-se: a criação (ao que tudo indica fictícia) do Instituto Anarcho-Nietzsche-Freudiano21, ou de textos e anúncios, tais como: “Tudo o que você sempre quis saber sobre o vibrador e tinha medo de perguntar”22, e “Veados Anarquistas: oferecemos camisinhas com inscrições de protesto contra o Estado, Reagan, CNBB e Multinacionais”.23 Assim como através de entrevistas e diálogos imaginários, a exemplo: “Diálogo Imaginário entre Freud e uma Feminista” ou “Entrevista Imaginária com Salvador Dalí”, que imbuíam seus autores de uma liberdade reflexiva diante de ideias “clássicas” e desafiadoras, confrontando-os com as questões do momento histórico pelo qual passavam os próprios editores. E em meio a isso novas interrogações ganhavam as páginas da revista: “O que é a Modernidade?” Eis a resposta: “É o momento em que toda puta pode dizer: eu trabalho, e todo trabalhador: eu sou uma puta”.24




Em 1984, saia o terceiro número da revista com um novo editor: Kleber Lima, também oriundo da Psicologia (que assim como Bazzo, pertencia ao meio universitário da UNB), e sob os seus cuidados a revista trilharia sua trajetória subversiva até 1988, bradando: “adiante senhores, delirem, envergonhem-se, em nossas páginas de misérias. Adiante, espiem nosso vômito...”.25

Tendo como referências teóricas publicações mexicanas e espanholas, de iam de Max Stirner a Michel Foucault (1926-1984), a revista Víbora teve papel primordial na difusão das ideias (de fortes aspirações niilistas) do filósofo romeno Emil Cioran (1911-1995) – autor de Breviário da Decomposição -, que no Brasil ainda era praticamente um desconhecido.26 Igualmente, contando com a colaboração de Plínio Augusto Coelho (responsável pela editora Novos Tempos), textos anarquistas traduzidos do francês em parte provenientes da Federação Anarquista Francesa, ganhavam as páginas da revista Víbora.

Mesclando comumente características libertárias e libertinas, essa revista de tons peculiares encerrava sua trajetória em 1988.27 Assim, “deixou de existir como uma vela. Serviu para alguma coisa, principalmente para quem estava no escuro, se consumiu e pronto”.28 Todavia, a linguagem ácida que se tornara parte constitutiva do estilo da revista Víbora, ganhava sobrevida, especialmente através das obras de Ezio Flavio Bazzo (ex-editor e colaborador da revista), a exemplo do Manifesto Aberto à Estupidez Humana (1987) livro embebido da filosofia incendiária de Emil Cioran, que tecia radicais críticas a sociedade, as quais eram tonificadas por provocadoras (e surreais) imagens incorporadas a obra e provenientes dos arquivos da revista Víbora.







1 Entre seus lançamentos temos: O Mito do Partido (1979), O Futuro Pertence ao Socialismo Libertário (1980), Libertários?!, de Nicolas Walter (1980).
2 RODRIGUES, Edgar. Lembranças Incompletas. São Paulo: Opúsculo Libertário, 2007. p. 345. Os anos 80 são marcados por um boom editorial no que diz respeito a obras sobre anarquismo.
3 Mikhail Aleksandrovich Bakunin (1814-1876), anarquista russo envolvido em rebeliões e revoltas que sacudiram Paris, Dresden e Praga. Mesmo nunca tendo escrito nenhum livro, alguns de seus textos marcaram gerações, entre estes, Deus e o Estado, e Estatismo e Anarquia. Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), pensador francês que por suas críticas ao sistema político-econômico foi várias vezes preso e exilado. “Mestre de todos nós”, como o chamou Bakunin, escreveu livros como: O que é Propriedade? e Filosofia da Miséria. Errico
Malatesta (1853-1932), anarquista italiano, participou de insurreições na Itália, Espanha e Bélgica, pelo que foi exilado, e escreveu textos como: A Anarquia. Peter Alexeyevich Kropotkin (1842-1912), anarquista russo, redigiu obras como A Conquista do Pão, Memórias de um Revolucionário e A Grande Revolução (sobre a Revolução Francesa).
4 Publicado em 1983 pela editora Brasiliense que, ao lado da editora L&PM (a qual mantinha a coleção Biblioteca Anarquista), constituía-se em importante expoente na publicação de livros anarquistas e da contracultura.
5 Embrião da editora Imaginário, uma das divulgadoras do anarquismo no Brasil na atualidade.
6 Professor da Universidade de Paris, diretor do Centro de Pesquisas Econômicas Aplicadas, presidente da Societé Proudhon e vice-presidente da Sociedade dos Poetas Franceses.
7 Jean Bancal esteve nas seguintes cidades: Manaus, Recife, Brasília, Porto Alegre, Caxias do Sul, Blumenau, Florianópolis, Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro.
8 O Centro de Cultura Social surge em São Paulo em 1933 durando até 1937, fechado pela polícia política de Getúlio Vargas (Estado Novo), anos depois reabrem de 1945 a 1968, encerrando mais uma vez as suas atividades devido o Regime Militar, que passava a perseguir ativistas políticos. Com o fim da ditadura, que levava a reabertura política (período de redemocratização) volta a atividade a partir de 1985.
9 Ao final da década de 1980 o grupo publicou a revista Utopia (1988-1992), no ano de 1991 criou o boletim informativo Libera... Amore Mio (ainda existente no formato jornal, enquanto publicação ligada à Federação Anarquista do Rio de Janeiro-FARJ). Em 1995, com a morte do libertário Ideal Peres, o CEL muda seu nome para Círculo de Estudos Libertários Ideal Peres (CELIP), uma homenagem ao velho companheiro de lutas.
10 Formado por Edgar Rodrigues, Ideal Peres, Antônio Martinez, Jaime Cubero, José Carlos Orsi Morel.
11 Entre os vários episódios ocorridos em épocas de repressão no Brasil, apontamos o fechamento do Centro de Estudos Professor José Oiticica, no Rio de Janeiro em 1969, equacionado por membros das Forças Armadas.
12 Contou com o apoio internacional da Confederacion Nacional Del Trabajo (CNT) da Espanha (exilada na França), Federación Obrera Regional Argentina (FORA), Agora Libertaire da França.
13 Jornal de Santa Catarina, Blumenau, 24 de fevereiro de 1986.
14 Defesa do voto nulo, tonificada pela divulgação dos materiais: O Mito do Partido, pela editora A, e Os anarquistas e as Eleições, pela COB (através de um texto de Malatesta no formato brochura) e pela editora
Novos Tempos (publicação de livro coletânea com textos anarquistas).
15 A Voz do Trabalhador surgiu originalmente em 1908, a partir de proposta aprovada no Primeiro Congresso Operário Brasileiro realizado no Rio de Janeiro em 1906.
16 Cartilha intitulada: Curso de Anarco-Sindicalismo, apresentação por José Carlos Orsi Morel, realização: Centro de Cultura Social e Liga de Trabalhadores em Ofício Vários de São Paulo, novembro – dezembro de
1989.
17 Sobre tal modalidade de imprensa é possível identificá-la como, “um tipo de jornal tablóide ou revista, de oposição, dos anos 70, cuja venda era feita em bancas ou de mão em mão”. In: FESTA, Regina; SILVA, Carlos Eduardo Lins da (Org.). Comunicação Popular e Alternativa no Brasil. São Paulo: Paulinas, 1986. p. 16.
18 Víbora nº 1, Brasília, 1981. p. 43
19 Obra que somente em 2009 ganharia tradução no Brasil, através da editora Martins Fontes.
20 Pseudônimo de Johann Kaspar Schmidt.
21 Menção existente na Víbora nº 5, Brasília.
22 Idem.
23 Víbora nº 6, Brasília.
24 Víbora nº 4, Brasília.
Víbora nº 6, Brasília.
26 Em 1986 o escritor Ezio Flávio Bazzo, colaborador (ex-editor) da revista Víbora, organiza a obra: 193
Fragmentos de Cioran, publicado pela editora Novos Tempos. Por seu turno a editora Rocco lançava no Brasil,
na segunda metade da década de 1980 algumas das obras de Emil Cioran.
27 Nesse mesmo ano o jornal O Inimigo do Rei também deixava de ser publicado.
28 Informações fornecidas através de e-mail, por Ezio Flavio Bazzo, em 09 de junho de 2011.


Para acessar a revista : 


http://culturadissonante.blogspot.com.br/2013/07/a-revista-vibora-provocacoes-com-gosto.html



Lançada a II JORNADA DE EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA de PELOTAS

II JORNADA DE EDUCAÇÃO LIBERTÁRIA de PELOTAS  9, 10 E 11 de Outubro de 2017 Local : OCA : Ocupação Coletiva de ArteirXs Na ...